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Estado de Minas MÚSICA

Mart'nália une samba e black music no novo disco, "Sou assim até mudar"

Cantora diz que álbum foi planejado para deixar as "pessoas felizes em casa", num momento em que a pandemia impede encontros e gestos de afeto


19/03/2021 04:00 - atualizado 19/03/2021 07:46

Mart'nália aposta na música para enfrentar a tristeza e o luto(foto: Nil Caniné/Divulgação)
Mart'nália aposta na música para enfrentar a tristeza e o luto (foto: Nil Caniné/Divulgação)
Dona de uma inconfundível risada, Mart'nália é o tipo de pessoa que está sempre sorrindo, mesmo quando o assunto é sério, nem que seja para amenizar o nervosismo. No último ano, entretanto, as ''saudades de gente'' fizeram com que ela sorrisse menos. A isso somam-se as perdas causadas pela COVID-19 – só em Vila Isabel, bairro onde nasceu e cresceu, no Rio de Janeiro, ''são mais de 20'' em sua contabilidade particular. 

Por sorte, o antídoto para a tristeza e para o luto é algo com que Mart'nália está fortemente familiarizada: a música. Por isso ela aproveitou o período em isolamento para gravar o 13º álbum de sua carreira, cujo lançamento ocorre nesta sexta-feira (19/3), em CD e nas plataformas digitais.

Intitulado ''Sou assim até mudar'' (Biscoito Fino), o trabalho representa o encontro do samba – o lugar-comum do repertório da artista – com a black music brasileira, ou ''música preta'', como ela gosta de chamar. 

''Essa sonoridade é uma veia do Rio de Janeiro com a qual eu me identifico muito, por causa do subúrbio, dos bailes charme e do próprio groove das músicas. A culpa por meu trabalho ter um pouco disso também é do Zé Ricardo, que produziu o álbum. Ele soube me colocar nesse caminho e me deixou à vontade na minha mistura'', conta ela.

Novo produtor 


Essa é a primeira vez que Mart'nália trabalha com o produtor. Antes, quem produzia seus trabalhos era o músico Arthur Maia, morto em 2018. Ele era a pessoa responsável por dar o pontapé inicial nos discos da cantora

A falta dele foi um dos principais desafios da produção. ''Eu não sabia como começar. E aí chegou o Zé Ricardo, num momento em que eu precisava de alguém do meu lado. Durante o processo, ele se tornou um companheiro musical que me deu esse colo gostoso'', afirma.

Segundo ela, apesar de o registro ter uma música sobre a pandemia (''Novo normal''), o objetivo dele é fazer com que as pessoas ''ouçam em casa e sejam felizes''. ''É uma forma de levar um pouco de mim para dentro da casa das pessoas. O que tentei fazer com essas músicas é dar alento, mostrar felicidade, dar carinho. Tá tudo ruim, mas a gente vai levando, tentando amenizar da forma como consegue.''

No repertório, músicas românticas como ''Chamego bom'' e ''Morena'' dividem espaço com ''Suburbano blues'', que fala sobre o Rio de Janeiro, ''um lugar que não está bacana para ninguém'', segundo a artista. 

''Sou assim até mudar'' também conta com duas versões em português assinadas por Nelson Motta. Uma delas é ''Tocando a vida'', originalmente ''Rock bottom'', de Babyface; e a outra é ''Bom demais'', da original ''Feel like makin' love'', sucesso na voz da norte-americana Roberta Flack.

Essa última tem a participação da atriz Adriana Esteves, a quem Mart'nália carinhosamente apelidou de Favo de Mel. ''Tenho uma admiração enorme por ela. Sou fã pra caramba. Quando a gente pensou em convidar alguém para essa faixa, pensamos que seria legal uma voz que remetesse a um passado gostoso, de final de baile. Então deu nessa mistura de Carminha com 'Favo de Mel''', conta.

Voz venenosa 

Outra presença no disco é o cantor pernambucano Johnny Hooker, na faixa ''Veneno'', versão em português da italiana ''Veleno''.  A música não é desconhecida do público brasileiro: foi eternizada por Marina Lima no disco ''Fullgás'' (1984).  A nova abordagem a deixou elegante, algo reforçado pelo groove de guitarra.
 

"É uma forma de levar um pouco de mim para dentro da casa das pessoas. O que tentei fazer com essas músicas é dar alento, mostrar felicidade, dar carinho. Tá tudo ruim, mas a gente vai levando, tentando amenizar da forma como consegue"

Mart'nália, cantora

 
 ''Quando a gente decidiu regravar essa música, eu senti que precisava de uma voz mais venenosa'', conta Mart'nália, rindo. ''Pensei no Johnny Hooker porque, além de tudo o que ele representa, o jeito como ele canta tem muita malícia e é bastante delicado ao mesmo tempo. Vendo o resultado, sinto que deu supercerto, mesmo a gente não se encontrando pessoalmente. Quando der, a gente vai concretizar essa parceria ao vivo.''

A falta do encontro, do contato com ''pessoas estranhas'', como ela diz, foi o principal desafio enfrentado por Mart'nália no último ano. ''Essa coisa de não poder encontrar as pessoas é muito chato. Eu gosto de gente, sou carioca, e esse meu jeito não rola mais. Gosto de abraçar e dar beijos. Isso afetou muito a minha alegria.''

Entretanto, no estúdio, foi ''fácil'' ficar sozinha. O que a cantora sentiu falta foi tudo o que sua música gera. ''Levar amigo para mostrar. Levar o compositor para ver como a música ficou gravada. Depois fazer o show de estreia, com a plateia lotada e todo mundo muito feliz. Eu acho que é isso que ficou faltando ao longo do processo de gravação.''

Ela sempre termina frases dizendo que ''tudo isso vai passar'', como quem consola a si mesma. Às vezes, quando indignada, ela se contradiz: ''Não temos ninguém de respeito encaminhando as coisas, as atitudes, dando o exemplo. Então vai piorando a situação. Se depender do governo, a gente está lascado. Parece que é cada um por si. E eu não sou acostumada com isso. Gosto de todo mundo junto''.

Sem sorriso, mas de máscara


Isolada em casa desde março de 2020, ela, que é só sorrisos, reforça a importância do uso da máscara, mas lamenta o quanto as pessoas ficam ''iguais''. ''Eu vivo do meu sorriso, de abraço, de beijo. É muito estranho ver todo mundo só do nariz pra cima. Deu uma igualada. E me lembra os Orixás, que não têm rosto'', diz.

Além das saudades dos amigos e da família, com quem ela mantém contato pelas ''telinhas'', Mart'nália confessa sentir uma tremenda falta de ''tomar um chope no bar, à toa'', e abraçar quem ela nem conhece. ''Eu sou uma pessoa que abraça até poste. Não ter esse contato físico é estranho. Eu sou acostumada com muita gente, nasci em família grande. A gente gosta de se aglomerar. Fazer show, eu já estou com saudades, imagina receber as pessoas depois'', afirma.

Outra coisa que a deixou um pouco desnorteada foi o cancelamento do carnaval neste ano, medida tomada em razão da pandemia do novo coronavírus.

Para se aproximar da festa, Mart'nália gravou o samba-enredo ''Sonho de um sonho'', apresentado pela escola de samba Unidos de Vila Isabel, em 1980.  Como filha de Martinho da Vila, um dos compositores da música, ela considera o feriado como o mais importante do ano.

''Neste ano, meu pai ia ser homenageado na avenida, então a minha Vila (a escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Rio) ia ser mais Vila ainda. A gente ficou sem chão. É a família que a gente espera o ano inteiro para encontrar e dar aquele gás necessário para começar o ano'', avalia.

Por conta disso, ela diz estar ''toda confusa'' com datas e preocupada com quem depende do carnaval para sobreviver. ''Ainda bem que não teve, mas parece que não começou o ano. Mesmo que tivesse, eu acho que não seria como a gente imagina. A alegria do carnaval tem que ser genuína, para extravasar mesmo. Ano que vem ou no outro, quando tiver, vai ser um dos melhores da vida. Não vai ter tumulto, só vai restar alegria'', prevê.

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