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Estado de Minas CINEMA

Estreia 'Judas e o Messias Negro', sobre traição a líder antirracista

Trama gira em torno de episódio real de informante do FBI infiltrado como segurança dos Panteras Negras


25/02/2021 04:00 - atualizado 25/02/2021 07:29

Daniel Kaluuya é Fred Hampton, líder que mobiliza os Panteras Negras e tem Bill O'Neal (LaKeith Stanfield) como guarda-costas(foto: WARNER/DIVULGAÇÃO)
Daniel Kaluuya é Fred Hampton, líder que mobiliza os Panteras Negras e tem Bill O'Neal (LaKeith Stanfield) como guarda-costas (foto: WARNER/DIVULGAÇÃO)
"Nunca pensei sobre isso." Em Chicago, no final dos anos 1960, o jovem negro Bill O’Neal (LaKeith Stanfield) é preso por roubo de carro e por falsidade ideológica (apresentou um distintivo falso do FBI). Ele tem a opção de pegar mais de seis anos de cadeia ou ir para casa, é o que lhe revela o agente Roy Mitchell (Jesse Plemons).

O’Neal, que nunca refletiu sobre o que os assassinatos dos líderes do movimento pelos direitos civis Martin Luther King (1929-1968) e Malcolm X (1925-1965) representaram, resolve pegar o caminho aparentemente mais fácil. No entanto, ele descobrirá, tarde demais, que esse seria o mais difícil.

“Judas e o Messias Negro”, longa-metragem do escritor e roteirista Shaka King que estreia nesta quinta-feira (25/02) nos cines Diamond e Ponteio, em Belo Horizonte, parte de uma história particular para apresentar um panorama mais amplo sobre esse contexto histórico. O foco, aqui, está na atuação dos Panteras Negras na Chicago do final dos anos 1960. Seus dois protagonistas são personagens reais.

O Judas do título é O’Neal, que, aos 17 anos, passa a ser informante do FBI, no acordo para se livrar da prisão. Entra para os Panteras Negras e, em uma rápida ascensão, se torna o chefe da segurança do grupo naquela cidade. O Messias é Fred Hampton, o líder dos Panteras, igualmente jovem. O papel é de Daniel Kaluuya, equivocadamente indicado a melhor ator coadjuvante no Globo de Ouro, uma vez que seu protagonismo na trama é patente.

Ainda que sejam os dois os personagens centrais, o filme não é contado unicamente por meio de suas histórias individuais. Na verdade, a trama os coloca em uma narrativa maior, que versa sobre o poder. E não só o negro, mas também o branco.

Assista ao trailer: 

TENSÃO

Cidade com forte histórico de tensão racial – é só lembrar do confronto durante a Convenção Nacional Democrata, em 1968, que resultou na prisão de manifestantes, tema do longa “Os 7 de Chicago”, que tem cinco indicações ao Globo de Ouro, a ser realizado no próximo domingo (28/02) – ela estava na mira de observação do FBI. 


Para J. Edgar Hoover (Martin Sheen, em pequena participação), a figura de Hampton representa uma grave ameaça ao status quo. Os porcos, como os policiais são chamados pelos Panteras Negras, são o maior alvo da organização revolucionária marxista e antirracista, que defendia o direito ao porte de armas e de resistir de maneira violenta à brutalidade policial.

Com uma aura de pregador e fortes discursos pautados nas falas de Luther King, Hampton, recém-chegado à casa dos 20 anos, personificava o Messias. Ao passar à frente da organização, ele não está pensando somente na reação à força policial. É nas ações que sua figura se engrandece, seja alimentando crianças de comunidades pobres, fornecendo atendimento médico, ou servindo como um elo entre outros grupos. 

FIM PRECOCE

Hampton encabeçou a Coalizão Arco-Íris, que incluiu ativistas porto-riquenhos e brancos empobrecidos que migraram do Sul dos EUA para tentar melhorar de vida. Tinha ainda consciência de que morreria jovem. Não é preciso ir muito longe para saber que sua trajetória estará longe de ser bem-sucedida.

Em seus momentos mais íntimos, acompanhamos seu relacionamento com Deborah Johnson (Dominique Fishback), uma militante que vai tirar o personagem do pedestal, garantindo uma humanidade maior a ele.

Ainda que seja o personagem de Hampton – que Kaluuya trata com o devido magnetismo – que direcione todas as atenções da narrativa, a alma do filme deveria estar na figura de Bill O’Neal. No entanto, LaKeith Stanfield aproveita pouco seus momentos para brilhar. 

Afinal, como deveria se sentir um jovem negro e pobre que sobe na hierarquia da organização, entende as ações que estão sendo realizadas e, mesmo assim, continua dia após dia entregando seus colegas? 

O conflito é apresentado de forma quase rasteira. Os encontros de O’Neal com o agente Mitchell (que tenta convencer o informante de que os Panteras Negras não eram muito diferentes da Ku Klux Klan) são uma sucessão de conversas curtas regadas a charuto e uísque, que não aprofundam o drama do personagem.

Claro, olhando sob um viés pragmático, O’Neal era jovem demais, sozinho demais, sem nenhuma consciência de classe. E queria, acima de tudo, sobreviver, independentemente das consequências. Um mau aproveitamento do personagem não traz a dimensão de como foi, para aquele homem, perder sua alma. 

“JUDAS E O MESSIAS NEGRO”
• O filme estreia nesta quinta (25/2), na sala 2 do Diamond Mall (diariamente, 16h10 e 19h20, exceto nos domingos, com sessões às 15h30 e às 18h30) e na sala 1 do Pátio Savassi (diariamente, 15h50 e 18h50).


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