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Estado de Minas CINEMA

'Cidade pássaro' aborda a relação dos africanos com São Paulo

Longa de Matias Mariani estreia na Netflix, depois de ser exibido no Festival de Berlim. Com cenas faladas em igbo e inglês, filme está disponível em 170 países


22/12/2020 04:00 - atualizado 22/12/2020 13:17

São Paulo, a metrópole, é cenário e também protagonista do filme Cidade pássaro(foto: Primo Filmes/divulgação)
São Paulo, a metrópole, é cenário e também protagonista do filme Cidade pássaro (foto: Primo Filmes/divulgação)
 
De acordo com o Sistema Nacional de Registro de Estrangeiros (Sincre), em 2019, São Paulo tinha 361 mil imigrantes– cerca de 3% da população da maior metrópole brasileira. Diferentes vivências e culturas inspiraram o cineasta paulistano Matias Mariani a rodar em sua terra natal o longa Cidade pássaro, que chega nesta terça-feira (22) ao catálogo do Netflix, depois de estrear no Festival de Berlim e ser exibido na 44ª Mostra Internacional de Cinema de SP.
 
Amadi, um músico nigeriano, desembarca na capital paulista em busca do irmão Ikenna, rompido com a família e desaparecido. O protagonista é interpretado por O. C. Ukeje, nascido na Nigéria, assim como Chukwudi Iwuji, que assume o papel de Ikenna. Os atores compartilham o idioma igbo, falado em boa parte das cenas, assim como o inglês, dando ao longa dimensão ainda mais internacional.

PARCERIAS O trabalho teve como coprodutora a MPM Films (de O cavalo de Turim, do húngaro Béla Tarr) e parceria da February Films, da produtora Junyoung Jung, de O hospedeiro, de Bong Joon-ho. Além disso, o próprio diretor, formado na NYU Tisch School of the Arts, nos EUA, colocou na história muito de sua própria vivência entre fronteiras.
 
O nigeriano O. C. Ukeje interpreta Amadi, que desembarca em São Paulo à procura do irmão(foto: Primo Filmes/divulgação)
O nigeriano O. C. Ukeje interpreta Amadi, que desembarca em São Paulo à procura do irmão (foto: Primo Filmes/divulgação)
 
 
“Quando tinha 18 anos, fiquei um pouco perdido. Entrei na faculdade de biologia sem saber o que fazer, pois não me identificava com o curso. Na época, uma tia minha ia muito para o Oeste da África – não para a Nigéria, mais para os países francófonos. Dona de uma loja de tecidos e coisas africanas, ela me convidou para ir à África. Entre meus 18 e 25 anos, viajei muito para o Oeste africano. Então, já havia esse desejo de contar algo sobre isso”, revela Matias Mariani, de 41.
 
Cidade pássaro é o primeiro longa dirigido pelo produtor e roteirista. Embora seja ficção estrelada por atores de carreira, o desenvolvimento do roteiro bebeu em fontes reais. “Queria contar sobre comunidades africanas se mudando para cá. Eu e a Maíra Bühler (uma das coautoras do roteiro) passamos seis meses dando aulas de português gratuitas para imigrantes no Centro de São Paulo. Logo na primeira aula, a sala já estava lotada. Então, pudemos ter essa troca”, revela o cineasta.
“Notamos que a maioria dos alunos era de origem igbo, do Sudeste da Nigéria. Resolvemos ir até lá fazer uma pesquisa. A história foi surgindo nessa via- gem. Ouvimos, por exemplo, o caso do nigeriano que vivia em Londres e tinha um caderno de anotações com o qual pretendia resolver as corridas de cavalo para sempre ganhar a aposta. (O filme) Surgiu assim”, explica Mariani. Em Cidade pássaro, há cenas gravadas no Jockey Club de São Paulo.
 
A curiosa metodologia para tentar prever os resultados no turfe é um dos traços da estranha personalidade do irmão, fascinado por física quântica, que Amadi vai descobrindo em sua jornada investigativa. Enquanto ele segue pistas e conhece quem conviveu com Ikenna, como a cabeleireira Emilia (Indira Nascimento), a trama ganha doses de mistério, pois o desaparecido acreditava ser capaz de transformar o rumo dos acontecimentos a partir de seus conhecimentos sobre a ciência.
BUSCA Embora a estada de Amadi em São Paulo seja permeada por dificuldades com a língua portuguesa e pela opressora imensidão da metrópole, a história tem foco na busca pessoal, sem se aprofundar demais em aspectos relacionados à vida em outro país.
 
Mariani explica que o time de roteiristas contou com a nigeriana Chika Anadu, diretora do filme B for boy (2013). “Seria importante a contribuição de pessoas com história de vida e lugar de fala próximos aos dos personagens. Daí a importância da Chika Anadu para construir a cultura igbo de forma mais crível”, destaca Matias.
 
“Fiz o oposto do que se costuma fazer em filmes com propostas parecidas sobre imigração. Queria atores profissionais e com carreira sólida, até porque era meu primeiro filme e quis trabalhar com um elenco que me desse grande segurança, como ocorreu”, diz.
 
O. C. Ukeje e Chukwudi Iwuji trabalham nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Nigéria. Dessa forma, Mariani pôde construir a abordagem que desejava. “Um dos motivadores foi a ausência de narrativas sobre imigração no Brasil. Claro que existe, o cinema brasileiro é enorme, mas não é algo tão significativo quanto em outras cinematografias”, diz..
 
O diretor destaca o exemplo de São Paulo. “Vista como cidade fundada por imigrantes, como Nova York, tanto se fala dos italianos e dos japoneses, mas muitas vezes esquecem os escravos africanos que construíram esta capital e o estado”, observa Mariani.
 
“Fala-se muito na migração nacional, mas pouco na internacional, sendo que, todos os dias, entra uma grande quantidade de africanos, latino-americanos e asiáticos para fazer a vida em São Paulo. Sempre achei muito peculiar que isso não representasse um lugar na narrativa contemporânea da cidade. Era um desejo meu tornar isso mais visível”, argumenta o cineasta. A capital paulista, aliás, é forte personagem do filme, com as paisagens imponentes do Centro e seus acinzentados cenários repletos de concreto.

PANDEMIA Os planos para depois da estreia no Festival de Berlim, em janeiro, foram impactados pela pandemia. Mariani temeu que seu longa de estreia “ficasse pelo caminho”. Porém, a história será vista por espectadores em todos os continentes. “Não por sorte, mas pelo bom trabalho da MPM Films, nos encaixamos em uma proposta da Netflix África, que está promovendo conteúdos em línguas africanas”, revela.
 
O caminho sui generis desta produção brasileira deixa Mariani orgulhoso. “Porém, isso também significa que o filme não seria exibido nos cinemas fora do Brasil. Como todo diretor, digo que isso dói, de certa forma, mas é uma escolha acertada, que permite ao filme ser visto em mais de 170 países. É bonita a recepção a ele na Nigéria, onde muita gente tem falado sobre poder ver um filme em igbo”, conclui Matias Mariani.
 
 
 


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