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Estado de Minas LIVRO

'Poesia completa' traz músicas e versos inéditos de Cacaso

Livro que a Companhia das Letras lança neste sábado (24) tem também fortuna crítica que estabelece a relação da obra do poeta mineiro com seu tempo


24/10/2020 04:00 - atualizado 24/10/2020 07:32

Nascido em Uberaba, Cacaso se radicou no Rio de Janeiro, onde morreu de infarto, aos 43 anos. Poeta deixou dois filhos(foto: Fotos: Acervo dos herdeiros de Cacaso/ Reprodução de Marcos Vilas Boas )
Nascido em Uberaba, Cacaso se radicou no Rio de Janeiro, onde morreu de infarto, aos 43 anos. Poeta deixou dois filhos (foto: Fotos: Acervo dos herdeiros de Cacaso/ Reprodução de Marcos Vilas Boas )
“Gostaria de assistir à passagem do século”, escreveu Antônio Carlos de Brito, o Cacaso, na antologia Beijo na boca e outros poemas (1985). Seu desejo não se realizou. Dois anos mais tarde, em 27 de dezembro de 1987, o poeta, letrista e professor universitário nascido em Uberaba sucumbiu a um infarto, sofrido no escritório de seu apartamento, na Avenida Atlântica, em frente ao Posto 3, em Copacabana. Tinha 43 anos.

Mas a obra de Cacaso, um dos nomes essenciais da poesia marginal, sobreviveu e muito bem. Poesia completa (Companhia das Letras), a partir deste sábado (24) nas livrarias, reúne seus seis livros publicados – de A palavra cerzida, de 1967, a Mar de mineiro, de 1982 –, além de vários poemas inéditos e letras de músicas que compôs com diferentes parceiros. 
O volume de 450 páginas ainda traz uma série de ilustrações do autor, bem como textos de amigos e especialistas em sua obra: Roberto Schwarz, Heloisa Buarque de Hollanda, Francisco Alvim, Vilma Arêas e Mariano Marovatto.

“Acho que Cacaso é um poeta do seu tempo, um tempo em que música e poesia estavam muito próximas. Há elementos muito ricos em sua poesia, marcada pela oralidade, brincadeira, vontade de não levar a literatura a sério. Isso entre aspas, já que ele não queria fazer da literatura uma coisa séria”, destaca a tradutora e editora Heloísa Jahn.

Coube a ela organizar o material inédito, contido nos 23 cadernos que Cacaso produziu, como diários, ao longo da vida. Andava sempre com um deles na inseparável bolsa de couro a tiracolo. “Seu método de escrita era muito pessoal. Ele vivia escrevendo nos diários, onde fazia colagens, escrevia poesia. Poderia ser um caderno de estudo literário também”, conta a cantora Rosa Emília Dias, a segunda mulher de Cacaso e mãe de sua filha, Paula Dias de Brito, de 33 anos. Do primeiro casamento, com a antropóloga Leilah Landim Assumpção, Cacaso teve Pedro Landim, jornalista, hoje com 49.

Além de escrever, Cacaso tinha o hábito de desenhar nas páginas de seus diários, reproduzidas no volume que a Companhia das Letras lança hoje
Além de escrever, Cacaso tinha o hábito de desenhar nas páginas de seus diários, reproduzidas no volume que a Companhia das Letras lança hoje

SONGBOOK 
Foi a baiana Rosa Emília, há três décadas radicada na Itália, quem deu início ao projeto que gerou o livro. “Como já havia sido feita uma coletânea com todos os poemas (Lero-lero, lançado em 2002 pela Cosac Naify), pensei em fazer um songbook do Cacaso. Até então, conheciam-se 80 letras”, relembra. Prolífico letrista, Cacaso foi parceiro de Nelson Angelo, Francis Hime, Edu Lobo, Sueli Costa, Danilo Caymmi, Tom Jobim, e Toninho Horta, entre muitos outros. 

Ao fazer contato com Heloísa Jahn, Rosa Emília ouviu da editora a sugestão de voltar aos cadernos, então sob a guarda de Pedro Landim, para procurar material inédito. Ela, por seu lado, continuou a trabalhar na produção musical. Ao final da pesquisa, a cantora chegou a um volume de 266 canções. Com um material de tamanho vulto, ficou inviável reunir tudo (quem sabe um songbook no futuro?). Tanto é assim que o capítulo organizado por Rosa Emília, Algumas letras (1965-1987), apresenta 60 delas.

Enquanto isso, Heloísa, já com os manuscritos reunidos, iniciou um trabalho de organização e revisão do material, que foi produzido por Cacaso entre 1977 e 1987. “A ideia não era fazer uma seleção, mas verificar o que tinha virado poema, o que era letra de música. Quis colocar anotações para a raiz de um poema, sínteses de experiências, passagens, para que os inéditos tivessem a função de documento da criação literária, uma coisa viva”, diz a editora. Tal material está no capítulo Poemas inéditos (1977-1987).

FALA MACIA 
A parte final do volume traz a fortuna crítica. “Cacaso tem o gênio brasileiro da fala macia, sensual e maliciosa. É da família de Bandeira, cuja linguagem é sem artifícios, muito mais do que da de Drummond ou Cabral”, escreveu o poeta e amigo Francisco Alvim, que estreou com Sol dos cegos, em 1968, um ano após Cacaso ser publicado. “Considerava nossas estreias como parentas bem próximas, ambas saídas do legado modernista.”

“Cacaso foi, antes de mais nada, personagem totalmente singular numa hora em que a poesia foi eleita como a forma de expressão predileta da geração que experimentou, de maneira cabal, o peso dos anos de chumbo. Num certo sentido, Cacaso nos colocou uma armadilha interessante: pensar sua poesia sem pensar na sua vida é quase errado”, escreveu Heloisa Buarque de Hollanda.

Também muito próxima de Cacaso, a escritora Vilma Arêas escreveu um texto bem pessoal, em que relembra uma história curiosa, “só estranha para a caretice de hoje”. Em um dia, relata a autora, depois de beber com Geraldinho Carneiro (atual membro da Academia Brasileira de Letras) e Ana Cristina César na praia de Copacabana, Vilma, sentindo-se “um pouco alta”, foi tomar um banho de mar de roupa e tudo. Ao se lembrar de que teria uma reunião na sequência, não pensou duas vezes. “Estávamos em frente à casa do Cacaso. Fomos correndo pra lá. Ele não se admirou nem um pouco, claro, me emprestou roupas suas, me enfiei nelas e fui cumprir o compromisso.” 

Tal história também está no documentário Cacaso na corda bamba (2016), de José Joaquim Salles e PH Souza, que reúne vários amigos e companheiros de geração do poeta – o longa-metragem está disponível na plataforma de streaming Tamanduá (tamandua.tv.br).

Agregador, Cacaso teve muitos e bons amigos, como destaca Rosa Emília. “Aprendi com ele o culto às amizades. O Cacaso formou a minha cabeça, pois tínhamos uma diferença de idade de 21 anos. Mas o respeito era recíproco, pois era um grande intelectual, mas muito modesto. E formou não só a minha (cabeça), já que ele era uma espécie de guru de muita gente. Tinha sacadas geniais, era observador, espertíssimo, mas doce, nunca com más intenções. E seguia uma metodologia de trabalho invejável, pois era muito disciplinado”, diz.

POESIA COMPLETA
. Cacaso
. Companhia das Letras (456 págs.)
. R$ 89,90


TRECHOS
Confira dois textos inéditos de 
Cacaso, agora publicados no volume

Versos
Só faz ornato
quem é esteta
Só é poeta
quem faz soneto

Só faz poema
quem tenha tema
só faz dueto
quem soma exato

Só é bonito
quando é poema

Chuva
Minha mãe ficou viúva
minha vó ficou solteira
sabiá cantou na chuva
lá no pé de laranjeira
a formiga da saúva
tá comendo a trepadeira
eu não abro guarda-chuva
quando a chuva é criadeira
sabiá cantou na praia
respondeu na cachoeira









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