Publicidade

Estado de Minas LANÇAMENTO

Biografia revela a arte singular do músico carioca Luiz Melodia

Escrito por Toninho Vaz, biógrafo de Paulo Leminski e Zé Rodrix, livro aborda o precioso legado que o autor de 'Pérola negra' e 'Juventude transviada' deixou para a MPB


11/08/2020 04:00 - atualizado 10/08/2020 20:06

Luiz Melodia em Belo Horizonte, em dezembro de 2015, antes de se apresentar no Palácio das Artes(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Luiz Melodia em Belo Horizonte, em dezembro de 2015, antes de se apresentar no Palácio das Artes (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Arredio à ideia de celebridade. Assim era Luiz Melodia (1951-2017), nas palavras do jornalista e escritor paranaense Toninho Vaz, que acaba de lançar a biografia do cantor e compositor carioca. O livro traz a trajetória do menino criado no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, que conquistou o Brasil com sua voz, musicalidade e poesia. Vaz mostra também um homem sensível e complexo, às voltas com problemas com as drogas e o álcool, que enfrentou o racismo.
Luiz Melodia era uma das vozes mais talentosas da geração de músicos surgida no fim dos anos 1960, afirma o jornalista. “Ele desceu o morro, amadrinhado pela cantora Gal Costa e sob as bênçãos dos amigos Hélio Oiticica, Waly Salomão e Torquato Neto. Conseguiu ocupar lugar de destaque na MPB como compositor inventivo e poético, nos brindando com joias como Pérola negra, Estácio, holly Estácio e Juventude transviada, entre outras canções.”

Em Meu nome é ébano – A vida e a obra de Luiz Melodia, o jornalista aborda a complexa personalidade do artista, autor de cancioneiro sofisticado e singular, que se desentendeu com as então poderosas gravadoras para defender a essência de sua obra. Recusou-se a fazer disco de samba, como uma delas planejava. Rebelde, ganhou a pecha de “maldito”, clichê que o acompanhou por anos.

Críticos apontam que sua música era “inclassificável”, mesclando samba, rock, soul, blues e jazz. Há quem diga que o compositor do Morro de São Carlos inventou o “samba-blues carioca”.

Vaz destaca a postura independente de Melodia, que teve problemas com álcool e drogas. Negro, enfrentou o racismo – nas ruas e em shows. Elegante e sedutor, impressionava as mulheres. Com a capixaba Beatriz Saldanha teve o filho Hiran, advogado. Com a baiana Jane, com quem se relacionou de 1977 até morrer, teve Mahal Reis, rapper.

(foto: Acervo pessoal)
(foto: Acervo pessoal)

"Jane nunca me censurou. Aliás, nunca quis saber de nada, nem mesmo leu os originais, uma confiança total. Para mim, é inestimável esse tipo de liberdade"

oninho Vaz Biógrafo de Luiz Melodia


VIZINHO 

Vaz diz que não conheceu “o Melodia”, mas “o Luiz”, seu vizinho. “Na verdade, não foi um amigo meu. Pude estar com ele apenas duas vezes, sendo que a primeira superficialmente, quando cheguei ao Rio de Janeiro. Ele estava morando em Santa Teresa, perto de onde eu fui morar.”

Vaz viu Melodia pela primeira vez da janela de sua casa. Os dois foram apresentados por um conhecido. “Ele disse: 'Amigo, esse aqui é o jornalista Toninho Vaz, agora nosso vizinho’. Luiz apenas acenou e deu um sorriso. Alguns anos depois, em 2003, eu o entrevistei no palco do Canecão. Foi um encontro maior, que durou por volta de meia hora. A entrevista era para a biografia do Torquato Neto que eu estava escrevendo”, relembra, referindo-se ao poeta e compositor piauiense, pioneiro do Tropicalismo, que se matou aos 28 anos, em 1972. “Melodia era tido como uma descoberta do próprio Torquato e também do Waly Salomão”, informa.

Vaz também chegou ao autor de Juventude transviada por meio do violonista Renato Piau – os dois tocaram juntos por cerca de 40 anos. “Piau frequentava a minha casa em Santa Teresa, era meu amigo desde o final do século passado. Certo dia, ele nos apresentou”, conta.

MISSA 

Melodia morreu aos 66 anos, em 4 de agosto de 2017, de câncer. “Em 4 de agosto de 2018, Renato virou-se para mim e disse: 'Vamos amanhã à missa de um ano de falecimento do Luiz, lá na igreja de São Conrado’. Fomos. Depois da missa, ele me apresentou à viúva e fomos até a casa dela. Lá, Piau disse: ‘Jane, se um dia você for fazer a biografia do Luiz, aqui está a pessoa certa’.”

A biografia levou dois anos para ficar pronta. “Cheguei a fazer 64 entrevistas durante um ano, e depois fiquei 10 meses escrevendo o texto.” Toninho Vaz informa que a família lhe deu total liberdade para escrever. “Jane nunca me censurou. Aliás, nunca quis saber de nada, nem mesmo leu os originais, uma confiança total. Para mim, é inestimável esse tipo de liberdade”, afirma o jornalista.
Situação bem diferente daquela vivida por ele com o livro Paulo Leminski, o bandido que sabia latim. Em 2001, a biografia foi lançada pela Editora Record, com elogios da crítica. As herdeiras do poeta vetaram a quarta edição, em 2013, já pela editora Nossa Cultura. “A família resolveu que não iria deixar eu ter lucro sozinho. Como se tivesse lucro com esse tipo de livro”, comenta Vaz. “Leminski era muito próximo de mim, eu vivia bebendo naquela fonte de sabedoria.”

A viúva de Leminski, a poeta Alice Ruiz, e as filhas dele, Estrela e Aurea, alegaram que a nova edição incluíra um novo parágrafo, não autorizado por elas, abordando o suicídio do irmão de Leminski, explorando indevidamente um fato trágico e violando o direito à intimidade garantido pela Constituição. Vaz contestou as herdeiras, mas o livro não ganhou novas edições.

CONTRACULTURA 

Fruto da geração da contracultura, o jornalista paranaense também escreveu biografias de Torquato Neto e do cantor e compositor Zé Rodrix.

“Eu era próximo do poeta Torquato Neto, enquanto Zé Rodrix foi o (biografado) que menos conheci pessoalmente. Também escrevi a história da Pensão Solar da Fossa”, comenta Toninho Vaz, referindo-se à pensão em Botafogo, onde, nos anos 1960/1970, moraram os jovens Caetano Veloso, Gal Costa, Tim Maia, Paulo Coelho e Paulo Leminski. Frequentavam o casarão Lenny Dale, Milton Nascimento, Hélio Oiticica e Paulinho da Viola. Dali a poucos anos, moradores e visitantes se transformaram em expoentes da cultura brasileira.

“Gosto muito desse livro. Na época do Solar, explodiram Gil, Caetano, Tropicalismo, Sá, Rodrix e Guarabyra, aquela coisa do final dos anos 1960. Tudo aconteceu num cenário do Rio que já não existe mais”, diz Toninho.

Além de Paulo Leminski, o bandido que sabia latim, o jornalista paranaense lançou Pra mim chega, a biografia de Torquato Neto (Casa Amarela, 2004), Darcy Ribeiro – Nomes que honram o Senado (Editora Senado, 2005), Santa Edwiges, a santa libertária (Objetiva, 2005), 90 anos de cinema – A história do Grupo Severiano Ribeiro (Record, 2007), O rei do cinema – A extraordinária história de Luiz Severiano Ribeiro (Record, 2007), Solar da Fossa (Casa da Palavra, 2011) e O fabuloso Zé Rodrix (Olhares, 2017).

MEU NOME É ÉBANO
A VIDA E A OBRA
DE LUIZ MELODIA

De Toninho Vaz
Editora Tordesilhas
336 páginas
A partir de R$ 38,50


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade