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Estado de Minas

Kiko Ferreira propõe responder aos gritos com poesia

Jornalista e poeta lança 'Manual de berros e a poesia física' em encontro com outros dois autores no Sempre um Papo, nesta terça (3), no Palácio das Artes


postado em 03/03/2020 04:00

Em tempos de comunicação acelerada pelas curtidas e compartilhamentos das redes sociais, a poesia segue encontrando espaço na criatividade de mentes mais sensíveis ao que ocorre ao seu redor. Uma delas é a do jornalista, escritor e poeta Kiko Ferreira, que lança Manual de berros e a poesia física, seu décimo livro, fruto de inquietações trazidas pela contemporaneidade transformadas em versos de forma menos convencional.

O autor participa do Sempre Um Papo, nesta terça-feira (3), ao lado de Thais Guimarães e Tonico Mercador, com quem debaterá o fazer poético nos dias atuais.

O poeta mato-grossense Manoel de Barros não é o único alvo dos trocadilhos e jogos de palavras feitos por Kiko Ferreira em seu livro. Mas Barros é o autor capaz de lhe garantir a tranquilidade em meio à atmosfera raivosa dos tempos atuais, que lhe tirava o sono, ao mesmo tempo em que servia de inspiração para as composições reunidas na publicação.

“Quando eu acordava pela manhã, retornava às minhas referências que me trazem calma e me lembravam de que existe amor, companheirismo e generosidade, muito esquecidos nas discussões vistas atualmente nas redes sociais. O Manoel de Barros é um exemplo disso, um poeta sofisticado e capaz de acalmar, assim como a Adélia Prado ou o Mário Quintana. São pessoas que têm visão de mundo além do estardalhaço da raiva”, afirma.

Com uma trajetória dividida entre o radialismo, a crítica musical e a literatura, Kiko Ferreira conta que os poemas de Manuel de berros e a poesia física (Editora Impressões de Minas) começaram a ser escritos em 2017, quando o país já fervilhava em torno do acirramento de ideologias políticas opostas. Angustiado pelo ódio vociferado sobretudo nas redes sociais, o poeta diz ter perdido o sono em muitas ocasiões. Porém, foi capaz de tornar artisticamente produtivas as madrugadas em claro.

HISTERIA 

“Essa histeria começou a me incomodar muito, a ponto de acordar no meio da noite preocupado com onde tudo isso iria parar, diante de tamanha falta de espírito coletivo e delicadeza. Então, eu deixava rascunhos na minha cabeceira, escritos em caixa alta, como se fossem escritos em uma rede social. Assim foi o processo de escrita, que me ajudava a refletir sobre a falta de delicadeza dessas pessoas que estão sempre aos berros”, conta.

Nas 113 páginas, o leitor encontra temas recorrentes no ambiente atual, em versos pouco convencionais em sua forma de distribuição pelo papel, que o autor diz também ter sido decidida durante o processo criativo. Lugar de fala, Rei das sociais em digitown, Um milhão de likes são alguns dos títulos encontrados. Apesar da inspiração surgida na angústia, a obra tem um tom no qual o bom humor prevalece.

“Uma civilização que não sabe rir de si própria tem sérios problemas, então gosto de tentar encontrar esse ponto. Não é o caso de fazer graça de tudo ou ser jocoso, mas encarar com humor”, diz Ferreira, que compara suas poesias com o clique de um fotojornalista, por considerá-las muito espontâneas em relação ao momento e às próprias ideias.

Outro conceito presente no trabalho é o da “poesia física”, que corresponde à porção final do livro. “Além da gritaria das redes sociais, uma forma de expressão que tem me chamado a atenção são as camisetas. O mundo fashion já se apropriou desses signos há um tempo. Uma marca, uma frase em uma roupa diz muita coisa, então tentei traduzir isso no que chamo de poesia física, na qual literalmente imprimi camisetas com esses poemas. Uma tentativa de ultrapassar o limite do papel, o que, para mim, é natural, já que comecei a escrever poesia pensando na música, que foi onde conheci a poesia”, diz o autor. Ele conta que teve seu primeiro contato com a obra de Carlos Drummond de Andrade na versão de E agora, José? cantada por Paulo Diniz e lançada na década de 1970.

TRADUÇÃO 

As possibilidades atuais da poesia devem ser tema da conversa de Kiko Ferreira com Thais Guimarães e Tonico Mercador, contemporâneos de atividade literária em Belo Horizonte. Vencedora do Prêmio Off Flip de 2019 com o poema A poetisa, Thais entende que “estamos numa época marcada pela traduzibilidade, em que tudo é traduzido e tudo transposto, não só em palavras, mas de um meio ao outro”.

“Hoje, falamos de uma poesia que não é mais isolada com uma lírica especial. Há intersecção entre o verso e a prosa, o verbal e o visual. Vejo hoje um outro tipo de lírico. Não que o lirismo poético tenha acabado, mas existe outro, diante de mudanças tão rápidas do aqui e do agora, em função de conectividade geral”, avalia a escritora, destacando que, ainda assim, a atividade poética vai muito além da “quebra da prosa em vários versos”. “A poesia é como uma porta de abertura para uma linguagem metafórica e alegórica, que permite dialogar com a realidade e marcar seu próprio tempo”, afirma.

Mercador, que lançou seu mais recente livro de poemas no fim de 2019, intitulado Cantos de silêncio e ausência (Sangre Editorial), mostra certa preocupação em relação aos rumos da linguagem. “Estamos num processo mais decadente do que de valorização. Em Cantos de silêncio e ausência falo sobre uma percepção de que as palavras vão desaparecer. É o que vemos na internet, quando elas são reduzidas a letras. É um despropósito e uma destruição que não pode ser positiva. As pessoas passam a raciocinar de outra maneira a partir daí. É como se reduzissem todas as notas musicais a uma violinha de duas cordas e quisessem só com isso abarcar o universo. Não quero proibir ninguém de nada, cada um escreve como quiser, mas uma coisa é a oralidade, outra é um uso errado da língua”, argumenta o poeta. Segundo ele, a ideia central do livro é: “Se as palavras desaparecem, o que acontece?”. A resposta ele dá de prontidão: “O mundo desaparece”.
 
Sempre Um Papo em Inhotim

Abrindo as atividades da programação 2020 do Instituto de Arte Contemporânea, uma edição especial do Sempre Um Papo será realizada no Inhotim, no próximo dia 28 (um sábado). O evento fará parte do programa “Inhotim em cena” e contará com a presença da artista Adriana Varejão, que receberá a historiadora Lilia Schwarcz em sua galeria. O tema do encontro será o livro Pérola imperfeita – A história e as histórias na obra de Adriana Varejão, escrito pelas duas. No mesmo dia, o “Noite Aberta” terá a presença da cantora Cida Moreira. Todas as atrações do “Inhotim em cena” estão incluídas no valor do ingresso de visitação, que varia entre R$ 20 e R$ 44. 


Manual de berros e a poesia física
Kiko Ferreira
Editora Impressões de Minas (113 págs.)
R$ 35
Lançamento com encontro do autor e os poetas Thais Guimarães e Tonico Mercador, no projeto Sempre um Papo. Nesta terça-feira (3), às 19h30, na sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena 1.537, Centro). Entrada gratuita. Mais informações: (31) 3261-1501.


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