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Filme argentino 'Minha obra prima' mostra 'amizade à prova de tudo'

No novo longa de Gastón Duprat, diretor de 'O cidadão ilustre', que estreia nesta quinta (28), artista colérico e seu galerista de moral duvidosa atravessam crises juntos durante décadas de convivência


postado em 28/03/2019 05:11 / atualizado em 28/03/2019 09:41

Renzo Nervi (Luis Brandoni) é o pintor que fez sucesso nos anos 1980, caiu no ostracismo e é despejado em Minha obra-prima. Longa argentino estreia hoje (foto: ARTEPLEX FILMES/DIVULGAÇÃO)
Renzo Nervi (Luis Brandoni) é o pintor que fez sucesso nos anos 1980, caiu no ostracismo e é despejado em Minha obra-prima. Longa argentino estreia hoje (foto: ARTEPLEX FILMES/DIVULGAÇÃO)


Quando o dinheiro e a arte se misturam, o que acontece? O cineasta argentino Gastón Duprat oferece uma resposta surpreendente em Minha obra-prima, que estreia hoje nos cines Belas Artes e Ponteio, em Belo Horizonte. O roteiro – assinado por Gastón e seu irmão Andrés Duprat, autor também de O cidadão ilustre, longa anterior do cineasta – gira em torno de dois personagens. Renzo Nervi (Luis Brandoni) é um pintor que fez sucesso nos anos 1980 e agora vive devendo o aluguel, mas se recusa a subjugar sua arte ao mercado. Arturo Silva (Guillermo Francella) é o galerista que acompanhou todas as fases da obra e quase toda a vida de Renzo e se esforça para dançar conforme a música dos investidores. Com a relação dos dois, Gastón quis mostrar “uma dessas amizades que são à prova de tudo”, segundo afirma o diretor. Tudo, no caso, inclui a morte.

Após um atropelamento e uma longa internação, deprimido e enojado pelo estado de sua vida, Renzo deixa o hospital, com a ajuda de Arturo. Três meses depois, vemos o galerista inaugurando uma exposição e dando início a um ciclo de vendas cada vez mais lucrativas das pinturas de Renzo, já que a obra do pintor se valorizou imensamente após o anúncio de sua morte. O roteiro dará então uma cambalhota, que força o espectador a reavaliar suas impressões sobre as personalidades (e as escolhas morais) de Renzo e Arturo e também sobre a relação entre eles.

Passeando com desenvoltura e segurança entre o humor, o drama e o suspense, Minha obra-prima tem diálogos primorosos sobre a motivação dos artistas e o mercado das artes, assunto do qual os roteiristas são íntimos. Formado em arquitetura, Andrés é hoje diretor do Museu Nacional de Belas Artes, em Buenos Aires.

Na entrevista a seguir, Gastón comenta sobre as filmagens no Brasil (no MAC, em Niterói), o que considera fraude na arte e a ideia de cinema independente.

Suponho que você e Andrés tenham discutido muito sobre os dois grandes temas do filme – a arte e a amizade. Quando decidiram colocá-los num roteiro, queriam dizer sobretudo o quê a respeito disso? Ou seja, como você completaria a frase “Minha obra-prima é um filme que aborda a arte e amizade como....”?

Não sei se consigo resumir tanto assim o filme como você propõe. Mas posso dizer que a primeira coisa que nos ocorreu foi a vontade de contar a história de uma amizade entre dois homens adultos, que mantinham uma amizade há décadas, mesmo sendo muito diferentes entre si, pertencendo a mundos distintos e cada um com suas idiossincrasias – uma dessas amizades que são à prova de tudo. Depois disso, situamos essa história na geografia do mundo da arte contemporânea e demos a esses amigos uma identidade forte, transformando um num pintor e outro em seu galerista.

Sobre o modo de contar a história e seu tom, você imaginou o filme pertencendo a um gênero específico (comédia, suspense) ou como uma mistura de gêneros ou ainda queria uma assinatura pessoal?

O tom e o gênero do filme, presentes também nas nossas produções anteriores, são um híbrido que se pode chamar de comédia dramática. Mas não se trata de um gênero importado. Esse é o modo como eu enxergo a realidade, ou seja, como uma comédia dramática, como um drama com humor. Não é que eu me proponha a fazer um filme com um determinado tom; esse é meu tom natural, que vem de um certo jeito de ver o mundo. Queríamos que esse filme pudesse tocar as fibras dramáticas e emocionar. E também queríamos que o filme pudesse fazer um giro em direção ao humor, à comédia e divertir, mas sem perder intensidade e verossimilhança.

Concorda com a definição de Renzo de que “todo artista é ambicioso e egoísta”?

Esses adjetivos de fato servem para o estereótipo do artista, e eu acrescentaria egocêntrico. Tenho muitos amigos artistas, estou rodeado por esse mundo. Conheço bem seus pontos fortes e fracos.

Assim como o sueco The square – A arte da discórdia (2017), Minha obra-prima lança um olhar crítico para o mercado das artes. O que você considera que seja um artista fraudulento e o que é uma fraude no mundo das artes?

Desde O artista, que é de 2008, já apresentávamos uma posição sobre o mundo da arte, inclusive um pouco mais dura que a de The square e Minha obra-prima, porque, de certa forma, é o mundo ao qual pertencemos, do qual conhecemos as regras e as limitações. Então podemos falar desse mundo com certa autoridade. Andrés (Duprat, o roteirista) é curador de arte e diretor do Museu Nacional de Belas Artes (de Buenos Aires). O primeiro longa no qual tratamos desse assunto foi O artista, um filme pequeno do qual gosto muito. Ocorre que, no mundo da arte, o espectador não se arrisca a opinar livremente, porque tem medo de errar. É como se houvesse uma distância enorme entre o gosto do espectador e a obra em si. Acaba sendo uma categoria da arte que requer mediação, é preciso que um curador, um marchand ou um crítico digam ao público ‘isso é bom’, ‘isso é ruim’. Felizmente, isso não acontece com o cinema, onde as pessoas dão a opinião que quiserem, sem limitações. É precisamente essa distância entre o público e a obra no mundo das artes que gera equívocos muito engraçados e excentricidades, que alimentam nossos filmes. Por outro lado, há esse aspecto que diz respeito particularmente às artes plásticas que é a valorização da obra depois da morte do artista. Nas outras artes, como na música e na literatura, isso não ocorre. Mas, nas artes plásticas, como a obra é finita, o valor aumenta automaticamente quando o artista morre. E usamos isso para o roteiro. Por isso precisávamos que nosso personagem fosse pintor.

Na sua opinião é possível haver de fato um artista independente?


Não sei exatamente o que isso significa. No cinema, costuma-se falar em cinema independente. Não acredito nessas categorias. Acho que o mais independente de todos os cineastas deve ser Steven Spielberg ou James Cameron. Eles fazem o que querem, seus filmes são vistos por milhões de pessoas e ninguém diz a eles o que devem fazer. No entanto, a priori, eles podem ser catalogados como diretores da indústria, comerciais, sendo que, ao mesmo tempo, são os mais livres. Por outro lado, o chamado cinema independente, o cinema dos filmes pequenos, que aspiram a ir aos festivais europeus, o cinema dos filmes de tempos mortos e que falam sobre a pobreza, o cinema de ‘clima’ e sem história é muito esquemático, está muito domesticado, porque repete sempre a mesma fórmula. Não tem nenhuma liberdade nem respira, ao contrário do que parece. Acho que o cinema mais independente hoje é o cinema comercial.

The square enfrentou uma polêmica quando a artista plástica argentina Lola Arias questionou o uso de seu nome pelo filme, que atribui a ela a obra do título. Como solucionou a questão da autoria das obras de Renzo Nervi que aparecem em seu longa?

As obras de Renzo que aparecem no filme são de autoria de Carlos Gorriarena, um artista que morreu há alguns anos e de quem gostamos muito. Precisávamos encontrar a obra de um artista que fosse figurativo, com muita tomada de posição política, porque assim era o nosso personagem de ficção. Nós nos lembramos da obra muito potente e muito explícita de Carlos Gorriarena (1925-2007), falamos com a viúva dele e não houve nenhum problema. Ela ficou feliz que revitalizássemos a obra de seu marido com o filme. Acho que foi uma decisão acertada, porque (as telas) aparecem muito e caem muito bem com a idiossincrasia do personagem.

Como foi filmar no MAC de Niterói? A escolha desse museu tem a ver com a afinidade de Andrés Duprat com a arquitetura?

O roteiro pedia um museu espetacular, que simbolizasse o reconhecimento internacional da obra do nosso artista. Pensamos em muitos. Quase filmamos em Dubai, no Museu de Arte Contemporânea de Roma, no de Barcelona... No fim, nós nos lembramos do Museu de Arte Contemporânea de Niterói e ele ganhou a eleição pelo fato de ser uma construção extraordinária. Para nós, foi um luxo poder filmar nesse museu de um arquiteto (Oscar Niemeyer) que admiramos tanto. E foi também de muito valor para o filme.

Os atores Guillermo Francella e Luis Brandoni fazem um grande trabalho. Eles eram suas primeiras opções?


Sim, foram as primeiras opções. Queríamos trabalhar com eles. Francella é um gênio da comédia; Brandoni, na minha opinião, fez os melhores filmes argentinos de todos os tempos, que são filmes feitos nos anos 1980, como Esperando la carroza (1985) e Darse cuenta (1984, ambos de Alejandro Doria). Há muito tempo ele não interpretava um protagonista. Além disso, Francella e Brandoni são amigos na vida real e se admiram muito, o que sem dúvida jogou a favor da interpretação, que era muito difícil. Eles tinham que, no presente, demonstrar uma amizade de três ou quatro décadas, mas sem flashbacks. Era preciso que a intensidade que se percebe nessa relação demonstrasse que havia um passado em comum muito grande. Acho que conseguiram. Além disso, são atores que podem passar do drama à comédia em um segundo.

É curioso que o personagem do tipo “menino escoteiro” seja um espanhol. Por que essa decisão?


O personagem de Raúl Arévalo é chave no filme. Por que é espanhol? Precisávamos de um estrangeiro para que fosse alguém com um ponto de ingenuidade em relação à idiossincrasia desses dois amigos. Além disso, existe na Argentina e na América do Sul esse tipo de turismo solidário feito por europeus, por garotos ricos que vêm para cá fazer trabalhos voluntários com populações originárias, com pessoas mais humildes, o que não deixa de ser um mecanismo muito obscuro, porque esse tipo de solidariedade requer que alguém esteja mal para que ela cumpra seu papel. Há aí uma questão de poder por trás da solidariedade. Concluímos, portanto, que o personagem deveria ser europeu e nos lembramos de nosso amigo Raúl Arévalo, que conhecíamos de festivais como Veneza e San Sebastián e que uma vez nos disse: “Para vocês, faço até um figurante”. Bem, nós o chamamos para fazer bem mais que um figurante, um personagem importante, que participa das cenas finais com muita intensidade e muita graça, a par e passo com os protagonistas.




“O chamado cinema independente, dos filmes que aspiram a ir aos festivais europeus, dos filmes de tempos mortos e que falam sobre a pobreza é muito esquemático e  repete sempre a mesma fórmula. Não tem nenhuma liberdade nem respira, ao contrário do que parece. O cinema mais independente hoje é o cinema comercial”

. Gastón Duprat, cineasta


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