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Estado de Minas SAÚDE MENTAL

Autismo: a linguagem da tolerância

O livro Arthur: história de um autista que viveu no final do século XIX, de Maria Cristina Kupper, é um sopro diante da luta pela inclusão dos autistas


11/07/2021 04:00 - atualizado 08/07/2021 13:01

(foto: Bikki/Pixabay )
(foto: Bikki/Pixabay )


Sabe aquele livro que quando os olhos passeiam pela primeira linha já te tomou? “Hoje alcei voo com o sol.” E termina o primeiro capítulo, em forma de diário, com uma pergunta que deveria ser comum a todos: “Por que os homens, que deveriam alegrar-se do contato com seus semelhantes, sofrem, ao contrário, com ele, atacam-no, esvaziam-no e o destroem?”. Mergulho profundo, sem ser pesado. Escrita com a maestria ao dosar leveza com soco direto no estômago. Potência que revela uma trama com meandros tão ricos que seduz todos, inclusive os ditos "normais", logo no parágrafo inicial.

“Arthur: História de um autista que viveu no final do século XIX”, da Editora Escuta, lançado em 2020 e já na segunda edição, é um presente da psicanalista Maria Cristina Kupper para aqueles que vivem, se interessam, querem aprender e fazer algo a respeito diante dos iguais que têm o transtorno do espectro autista (TEA). Nos Estados Unidos, a taxa é de uma criança para cada 59, e, no mundo, uma para cada 160, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
 
Maria Cristina Kupper é uma das pioneiras na pesquisa e no tratamento do autismo infantil sob a visão psicanalítica(foto: Pedro Napolitano Prata/Divulgação)
Maria Cristina Kupper é uma das pioneiras na pesquisa e no tratamento do autismo infantil sob a visão psicanalítica (foto: Pedro Napolitano Prata/Divulgação)
Aos 69 anos, experimentando a linguagem de um romance, ficção, com quatro décadas de estudos e feitos ligados ao autismo, Maria Cristina Kupper é referência no Brasil, uma das pioneiras na pesquisa e no tratamento do autismo infantil sob a visão psicanalítica.

Lá atrás, quando começou, a escolha ocorreu porque queria entender o funcionamento mental, raciocínio, percepção dos autistas. Ela conta que, no início, não percebia a construção de uma comunicação diferente.

Com o tempo, enxergou uma série de formas de comunicação, que acha surpreendentes. “Se antes pensava em tratar, aos poucos, queria encontrar as melhores formas de eles se comunicarem. Eles continuam sendo autistas, mas não robotizados. É o meu alvo de trabalho. Há quem tenha palavras e até a escrita como meio para se sentirem mais tranquilos, menos angustiados.”

A linguagem poética é para aproximar mais o autista do público em geral, aqueles que não sabem e têm medo. É para buscar o fim da intolerância e capturar uma aproximação

Maria Cristina Kupper, psicanalista



Infelizmente, as barreiras do preconceito, desconhecimento e aversão provocam reações que só aumentam os obstáculos desse grupo. Para Maria Cristina, há duas reações comumente: “A primeira é de repúdio e de apontar a criança como mal-educada. A segunda é de estranheza, as pessoas simplesmente saem de perto. Não é que não sabem agir, mas não querem, porque o principal problema é lidar com uma criança que não se relaciona ou age, está em seu mundo. O mais angustiante para essas pessoas, ao se aproximar de um autista, é falar e a criança não responder. Elas ficam descorçoadas”.

O livro, sem a linguagem acadêmica ou técnica, nasceu então para transpor barreiras: “É para aproximar mais o autista do público em geral pela linguagem poética, aqueles que não sabem e têm medo. É para buscar o fim da intolerância e capturar uma aproximação. Para enfatizar que nada tem a ver com o pai ou com a mãe, mas é constitucional, um modo de ser”, destaca a psicanalista.

No livro, Arthur aprende a escrever lindamente, seu canal de comunicação, apesar de não ser social. O que leva ao fato de que há tipos, graus diferentes de autismo: “Há aqueles chamados de deficitários, mas não é que nascem com problemas intelectuais, eles não têm problemas intelectuais, apenas aprendem menos porque há obstáculos que atrapalham o bom desenvolvimento. Não falam, têm reação primitiva, se angustiam, se batem, difíceis de tratar e exigem um trabalho. Há os que progridem, mas sem o uso da palavra, mas têm o olhar aberto para o mundo, ainda que não superem a barreira de ouvir a própria voz, a evitam ao máximo. Entendem, leem, são capazes de escrever, mas ficam mudos a vida toda. Acontece de em algum momento, de repente, dizerem “me tira daqui” ou “quero ir embora”, surpreendendo. E tem os autistas de alta funcionalidade, Asperger, em que a estrutura é do autismo, mas conseguem outras formas de percepção, conseguem organizar os diversos estímulos e percepções e ultrapassar os obstáculos”, explica Maria Cristina.
  
Nesse universo, Maria Cristian enfatiza que a psicanálise é um instrumento fundamental porque tem um modo de entender a linguagem. Segundo ela, muitos acham que a psicanálise é só para analisar Édipo e neuroses.

É também, mas ao trabalhar com o autismo ela vai perceber as diferenças de funcionamento da linguagem, não só verbal e gestual, mas como é a memória. Porque a memória é tão extraordinária. “A mente do autista é diferente, assim como a relação entre corpo e mente. Saibam que as expressões e impressões do aparelho psíquico não nascem com ele. A psicanálise vai além do comportamento.”

Os pais têm papel fundamental na vida do autista, e Maria Cristina destaca que não há muito a ensiná-los, ainda que o livro seja uma inspiração: “Os pais conseguem entendê-los muito bem, têm uma baita compreensão porque precisam observar, interpretar e conseguem de tanto vê-los. Até desejo que os pais leiam, mas quero mesmo que o público em geral acesse para ter mais tolerância”.

SINOPSE


(foto: Reprodução Internet)
(foto: Reprodução Internet)
O livro “Arthur: História de um autista que viveu no final do século XIX” busca transmitir, de forma romanceada, poética, didática e teórico-clínica uma visão psicanalítica sobre o autismo. A distância no tempo e no espaço é uma tentativa de oferecer certo recuo ao leitor, o que poderá permitir que ele veja o autista de uma perspectiva diferente daquela, organicista e reducionista, que é dominante nos dias atuais. O trabalho de Marguerite – personagem do livro – é uma maneira de apresentar o tratamento psicanalítico de um autista. A autora reúne o que ela atravessou em suas quatro décadas de experiência com o autismo.


SERVIÇO

  • Livro: “Arthur: História de um autista que viveu no final do século XIX”
  • Autora: Maria Cristina Kupper
  • Editora: Escuta (www.editoraescuta.com.br)
  • Número de páginas: 268
  • Preço sugerido: R$ 72



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