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Estado de Minas DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Mulheres e COVID-19: a realidade feminina na pandemia

Especialistas alertam sobre importância da saúde física e mental das mulheres, e cuidados durante a pandemia. Enfermeiras na linha de frente também sofrem


08/03/2021 13:06 - atualizado 08/03/2021 13:06

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)
Em meio à pandemia de COVID-19, a saúde feminina, e não só ela, esteve, muitas vezes, em xeque por diversos motivos. Para além do risco de contaminação pelo novo coronavírus, a necessidade de isolamento social e o medo de infecção fizeram com que muitas mulheres se distanciassem de atendimentos médicos rotineiros – um fenômeno que ocorreu em todos os segmentos da população.  


E o emocional feminino sofreu, e ainda sofre, muito nesse contexto. Não à toa, um estudo realizado pela ONG Kaiser Family Foundation, dos Estados Unidos, aponta que as mulheres se sentem emocionalmente mais abaladas, em meio à pandemia, do que os homens. Os dados mostram que 53% das mulheres que responderam a pesquisa declararam que o estresse e a preocupação, neste período, têm relação com o Sars-Cov-2. Entre os homens, esse índice é de 37%. 

Além disso, as mulheres são maioria no que diz respeito à linha de frente do combate à pandemia de COVID-19. Elas, que precisam conciliar filhos, trabalho exaustivo e atividades domésticas acabam sofrendo ainda mais.

Nesse cenário, segundo especialistas, é muito importante que as mulheres mantenham as consultas de rotina e os exames preventivos em dia, assim como se atentem aos cuidados ligados à saúde mental. Além disso, um ponto importante durante a pandemia é ficar por dentro das informações sobre o vírus, mas também às relacionados aos cuidados básicos de saúde, prevenção e vacinação.

Consultas durante a pandemia 


Delzio Salgado Bicalho, presidente da Sociedade de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig)(foto: Leo Lara/Divulgação)
Delzio Salgado Bicalho, presidente da Sociedade de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig) (foto: Leo Lara/Divulgação)
A ida ao ginecologista é muito importante para a saúde da mulher. As consultas são cruciais para a prevenção e tratamento de doenças, identificação de problemas sexuais, prescrição de métodos contraceptivos e melhora na qualidade de vida da mulher. Justamente por isso, o presidente da Sociedade de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), Delzio Salgado Bicalho, afirma que o encontro com o ginecologista é fundamental, mesmo em meio à pandemia, para a saúde da mulher.  

“A principal recomendação continua sendo as consultas regulares, pois o ginecologista é o médico da mulher. Ele deve fazer os exames preventivos e orientá-las sobre comportamentos de risco, além do estímulo à vacinação contra o HPV. Deve-se lembrar que mudanças de postura requerem disseminação de informações e conscientização social”, alerta Delzio Salgado Bicalho, que aponta, ainda, a importância da obstetrícia nesse cenário para a realização de um pré-natal adequado e aconselhar a mulher e familiares sobre o período gestacional

Gravidez e pandemia 


Até o momento, não há orientação para que mulheres não engravidem. O pré-natal continua a ser a melhor maneira de cuidar da gestante e do bebê, mesmo em tempo de isolamento social. Para o obstetra e diretor de ação social da Sogimig, Francisco Lírio Ramos Filho, é fundamental a rezlização do pré-natal e que as gestantes sigam as orientações médicas. Isso para que, preocupadas em não contrair o vírus, essas mulheres não desenvolvam outros problemas de saúde. 

“A gestante é considerada grupo de risco. Tem o perfil que, se contrair a doença, pode colocar em risco sua saúde e a do seu filho. Então, no consultório médico, devem ser tomados todos os cuidados para que não corra riscos. Aquela gestante que for sintomática deve ser orientada a procurar um pronto atendimento obstétrico, a maternidade. Isso para que não corra o risco de ir a um consultório e contamine outras pessoas”, diz.

Para isso, todas as maternidades devem estar preparadas para o atendimento das mulheres com sintomas gripais e possíveis infectadas por COVID-19. No momento do parto, cuidados são mantidos para evitar riscos.

No período de puerpério, a dúvida é quanto à amamentação. Porém, segundo o Ministério da Saúde, não há comprovação científica da transmissão da COVID-19 pelo leite materno. Por isso, a recomendação é manter o aleitamento exclusivo e em livre demanda desde a sala de parto até o sexto mês de vida da criança. Juntamente com uma alimentação saudável, a amamentação deve ser mantida até os dois anos ou mais.

Claudia Laranjeira, ginecologista, obstetra e diretora da Sogimig, apesar de não haver estudos em gestantes(foto: Leo Lara/Divulgação)
Claudia Laranjeira, ginecologista, obstetra e diretora da Sogimig, apesar de não haver estudos em gestantes (foto: Leo Lara/Divulgação)
Quanto à vacinação, há a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que grávidas não sejam vacinadas, haja vista que a segurança e eficácia das vacinas não foram avaliadas em gestantes e lactantes.

Para Claudia Laranjeira, ginecologista, obstetra e diretora da Sogimig, apesar de não haver estudos em gestantes, não há registros de malformações de fetos relacionadas ao uso das vacinas. “A vacinação em gestantes e lactantes com risco elevado de contração do coronavírus poderá ser realizada, mas a grávida deve saber que ainda não há um estudo comprovando a segurança da vacina durante a gestação. As mulheres que querem engravidar não devem adiar a vacina. Elas podem tomar a vacina e engravidar logo depois, sem problemas”, afirma.

Pandemia e vacinação contra HPV 


A principal causa para o aparecimento do câncer de colo de útero é a infecção pelo HPV. Outras razões são o início precoce da atividade sexual e com múltiplos parceiros, o uso prolongado de anticoncepcionais orais e o tabagismo. Esse tipo de câncer é facilmente diagnosticado com exames e por isso tem alto índice de cura, desde que tratado em fase inicial. Por isso, é muito importante a realização de análises periódicas e idas ao ginecologista.

A vacina contra o Papiloma Vírus é uma das formas de prevenção da doença. Porém, a queda no número de pessoas imunizados tem sido constante desde 2010, pelo meno no Brasil, o que se agravou ainda mais com a pandemia de COVID-19, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). No país, a cobertura vacinal caiu cerca de 14% desde 2010, informa a Sogimig.

Violência, feminicídio e pandemia 


Dados do relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que os números de feminicídio entre março e maio de 2020 aumentaram em relação ao mesmo período de 2019. Além disso, um levantamento realizado pelo instituto Data Folha, no período de novembro de 2019 até novembro de 2020, aponta que 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil, enquanto 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Segundo a pesquisa, 42% dessas violências foram cometidas em ambiente doméstico.  

Saúde mental e pandemia 


“As mulheres têm maior risco de apresentarem sintomas depressivos e ansiosos ao longo da vida, o que chega a ser o dobro da incidência dos homens, e diversos fatores podem estar relacionados com essa constatação: fatores hormonais, ambientais, genéticos e estressores. Elas têm maior exposição à violência doméstica, podem ter maior incidência de abuso sexual, além de serem as maiores responsáveis de forma geral nos cuidados com as atividades da casa e os filhos.” 

É o que diz a médica psiquiatra Christiane Ribeiro. Segundo ela, esses aspectos de risco para as mulheres podem aumentar ainda mais o risco neste período de isolamento social, haja vista o aumento da sobrecarga em relação às atividades domésticas e escolares dos filhos somadas às de trabalho, como o home office.

“Estudos realizados na China, em Wuhan, indicam que as funcionárias apresentaram mais sintomas de estresse, depressão e ansiedade quando comparadas aos do sexo masculino. Outro fato que contribui para o aumento do sofrimento das mulheres na pandemia seria o fato de termos, no Brasil, mais mulheres que homens na linha de frente. A sobrecarga mental, estafa, insônia e sintomas depressivos e ansiosos, incluindo dificuldades de concentração e irritabilidade são as maiores queixas da mulher contemporânea presentes no consultório.” 

Nesse cenário, Christiane Ribeiro recomenda a prática de atividades físicas como aliadas, bem como se apegar a hábitos positivos e manter o acompanhamento psicológico mesmo que à distância. “Com a necessidade de isolamento, é importante optar por exercícios que sejam realizados de forma individual, e que se evite aglomerações. Exercícios realizados em plataformas on-line são excelentes formas de se exercitar sem riscos. Os fatores de resiliência de proteção também incluem maior duração do sono e apoio social da família”, diz.

Na luta contra a COVID-19 


A ONU Mulheres alerta, no relatório “COVID-19 na América Latina e no Caribe: como incorporar mulheres e igualdade de gênero na gestão da resposta à crise”, para a distinção dos impactos da pandemia entre homens e mulheres. Isso porque o número de mulheres na linha de frente do combate ao novo coronavírus é maior do que o número de homens. Em Minas Gerais, de com acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, de cerca de 20 mil profissionais da secretaria, aproximadamente, 15.500 são mulheres. 

Considerando apenas os profissionais das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e da rede de urgência e emergência Samu, dos quase três mil trabalhadores, cerca de 2.400 são mulheres. Essa carga acaba sendo ainda mais pesada para elas, já que, além das mulheres serem a maioria dentro dos hospitais, elas também têm forte atuação em casa.

É o caso de Daniela Moraes, professora de urgência e emergência do curso de enfermagem do UniBH. Ela é professora, profissional, esposa e mãe de duas filhas. Além de lecionar, Daniela é profissional do Samu há 16 anos, atuando diretamente no combate à pandemia. “Meu maior medo é levar o vírus para minha casa, meus familiares, aqueles que amo. Mas por outro lado, fico muito tranquila, pois seguimos todos os protocolos de segurança.” 

“Cada vez mais estamos vendo um aumento do número de casos, uma sobrecarga de trabalho enorme. Nós profissionais da saúde, estamos muito cansados e exaustos em relação à pandemia. Tenho uma rotina muito corrida. Procuro me dividir para ser mãe, mulher, esposa e profissional. Não é fácil. Mas não abro mão de ir ao salão e cuidar de mim também. Mesmo sendo corrido, tenho dado conta. Tiro forças todos os dias por acreditar que estou fazendo a diferença na vida das pessoas,” destaca. 

Lilian Souza, professora de clínica médica, do curso de medicina do UniBH, também atua no Hospital das Clínicas desde o início da pandemia, fazendo exames de ecocardiograma em pacientes que têm COVID-19. Segundo ela, esse exame faz parte do protocolo de atendimento aos pacientes que têm complicações. Casada e mãe de dois filhos, a profissional conta que existe um medo diário por ter muito contato com infectados.

“Mesmo sendo vacinada, tenho muito medo pelos meus familiares. Porém, esse é o meu trabalho. Nesse momento temos que manter a calma. Já somos sobreviventes. Agora temos que cuidar para permanecermos nesse estágio. Devemos ficar em casa, quem puder, e seguir todos os protocolos de segurança. É como disse Charles Darwin, quem sobrevive não é o mais forte, mas aquele que se adapta melhor as transformações”, explica. 

Emile Amador Sigales Emerick é preceptora de estágio do curso de enfermagem da Una Cidade Universitária e plantonista do CTI do Hospital Santa Casa, em Belo Horizonte(foto: Arquivo pessoal)
Emile Amador Sigales Emerick é preceptora de estágio do curso de enfermagem da Una Cidade Universitária e plantonista do CTI do Hospital Santa Casa, em Belo Horizonte (foto: Arquivo pessoal)
Emile Amador Sigales Emerick é preceptora de estágio do curso de enfermagem da Una Cidade Universitária e plantonista do CTI do Hospital Santa Casa, em Belo Horizonte. Nesse um ano de pandemia, ela aprendeu a conciliar casa, marido, gravidez, família, alunos, pacientes, procedimentos e protocolos exaustivos. “No começo foi muito difícil, porque estar na linha de frente contra uma doença que ainda se sabia muito pouco, era trabalhar com medo todos os dias. O manejo clínico dos pacientes era assustador”, conta.

“Acaba que a carga de trabalho da mulher é muito maior. Dou aulas pela manhã, estudo à tarde, cuido da casa, acolho meus pacientes, dou atenção aos meus alunos, tento me fazer presente para a família, mesmo não estando com eles. Se eu não tiver um planejamento rigoroso das minhas horas, fico sem descanso. É um trabalho essencial para a saúde acontecer. Não há saúde sem a enfermagem e a força de trabalho feminina”, diz. 

*Estagiária sob a supervisão do subeditor Daniel Seabra


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