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Estado de Minas SAÚDE

Arte do prazer e da renovação

Confecção de peças a mão vai além de hobby ou fonte de renda, funcionando também como terapia auxiliar


07/03/2021 04:00



O primeiro contato da professora de educação física Cristiane Moreira Borges, de 44 anos, com o artesanato se deu ainda na infância. Os  avós faziam peças com as mãos para os turistas da Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, e a neta ficava sempre atenta. Até quando se machucava, aproveitava o mercurocromo usado como remédido para desenhar. “Meu avô brincava comigo, pegava um cotonete e com ele molhado no remédio criava imagens no machucado.”

O artesanato se transformou em legado da família. Primeiro, a paixão conquistou a mãe de Cristiane, que fazia bordados em ponto cruz. Depois, foi a vez de a filha se apaixonar pela atividade. “Ela me ensinou a bordar e, inclusive, eu fiz o enxoval do meu primeiro filho. Mais tarde, fui apresentada ao macramê. Eu, que já era apaixonada com artesanato, fiquei ainda mais”, conta.
 
 
Artesanato atua no combate a sintomas de depressão e ansiedade, como medo, preocupação, pensamentos pessimistas recorrentes e problemas de falta de concentração(foto: Pixabay %u2013 9/2/21)
Artesanato atua no combate a sintomas de depressão e ansiedade, como medo, preocupação, pensamentos pessimistas recorrentes e problemas de falta de concentração (foto: Pixabay %u2013 9/2/21)
 
A decupagem em madeira também fez parte do aprendizado de Cristiane na arte popular, que também se tornou ajuda fundamental para garantir a saúde do corpo e da alma. “Tenho depressão há alguns anos e o artesanato é um forte aliado do meu bem-estar, porque é uma forma de me distrair. E, assim, por alguns momentos deixo de pensar em meus problemas e no que me fez cair em depressão para focar no artesanato. É uma espécie de divertimento e uma válvula de escape ao mesmo tempo.”

Cristiane pratica o relaxamento, enquanto aprende técnicas diferentes e coloca a imaginação para funcionar. Além de uma distração, Vitor Friary, psicólogo comportamental e especialista em meditação na técnica mindfulness, explica que o artesanato ajuda o paciente a focar no momento presente, o que tem grande relevância no tratamento de distúrbios psicológicos. Assim, os sintomas de depressão e ansiedade, como medo, preocupação, pensamentos pessimistas recorrentes, problemas de concentração e foco, dores, solidão e sensação de vazio no corpo dão lugar aos sentimentos de bem-estar, tranquilidade, segurança e confiança.
O artesanato permite que a pessoa pratique forma de estar no presente. Vivemos muito presos dentro da nossa cabeça planejando o futuro ou remoendo o passado. E quando realizamos uma atividade de artesanato, experimentamos o que é viver no presente, o que tem impacto positivo no nosso funcionamento físico, psicológico e social”, destaca Friary. O psicólogo lembra, ainda, que o cérebro humano tem capacidade de promover a chamada neuroplasticidade, quer dizer, a atividade manual criativa tem potencial de modificar estruturas e funções cerebrais, aumentando o potencial cognitivo (atenção, memória, tomada de decisões e linguagem) e emocional do artesão.

Outro benefício da atividade, segundo Vitor Friary, é promover o aumento do nível de serotonina – hormônio responsável pelas sensações de bem-estar e relaxamento – no organismo, o que tende a ser  favorável para a saúde mental dos praticantes. “O artesanato também modifica a forma como a pessoa enxerga e experimenta o mundo, permitindo que ela se expresse sem ficar presa a palavras. A arte de fazer arte com as mãos é um ‘remédio’ para o combate à depressão”, diz.

Pincelada 

Roberto Santos, coordenador da feira de artesanato Rio Artes Manuais, afirma que o artesanato se divide em três grandes nichos na vida de um artesão, o que não quer dizer que um deles esteja desvinculado do outro. Quase sempre, um dos pilares da arte tem outra referência como companhia.

“Primeiro, ele se caracteriza como um hobby. Assim, as pessoas praticam artesanato para fazer peças para a sua casa, presentear alguém ou apenas se distrair. Além disso, o artesanato é tido como uma forma de terapia ocupacional. Muito médicos e psicólogos recomendam o artesanato como um ‘complemento’ de um tratamento clínico para situações de doenças, como é o caso da depressão.”

A artesã e professora mineira Sheila Ramos, de 51, concorda. Ela, que sempre teve o artesanato como renda adicional, conta que essa é uma de suas grandes paixões. “Dou aula durante o dia e uso meu tempo livre para produzir meus produtos a mão, e nem sinto como um trabalho. É uma terapia de vida inexplicável, porque relaxo mente e corpo ao praticar. Cada pequena pedra colada em um artesanato ou cada pincelada de tinta é como uma dose de ânimo”, diz.

Sheila Ramos aprendeu a fazer artesanato ainda na juventude, por influência da mãe. Primeiro, se encantou pelos bordados de ponto cruz e o crochê. Mais tarde, aprendeu pintura e decupagem em madeira, e, agora, produz imagens em gesso. “É um amor que cresce a cada novo aprendizado e muda apenas de técnica. É incrível perceber o quanto isso me faz bem. Durmo até melhor.”

Tabu 

A despeito de tantos benefícios, as artesãs Cristiane Moreira e Sheila Ramos identificam uma tentativa de desvalorização da profissão de artesão, “uma espécie de tabu”. Não à toa, a professora de educação física diz que não pretende fazer de sua arte fonte de geração de renda. “Infelizmente, o artesanato não é valorizado. As pessoas não dão valor para o ato de fazer a peça. E eu não posso viver apenas disso”, afirma.

Apesar de ter o artesanato como parte de sua renda, Sheila Ramos concorda com Cristiane. Segundo ela, muitas pessoas não entendem que, além dos custos relacionados ao material, o trabalho manual é longo e trabalhoso. “E é tão particular que cada peça é única. Não existe nenhum produto que saia igual ao outro, por mais que as técnicas usadas sejam as mesmas. Isso é o mais lindo do artesanato. Porém, ainda é impossível se viver apenas da arte feita com as mãos”, completa.

*Estagiária sob supervisão da editora Teresa Caram



“Xô, pandemia!”

Durante a pandemia de COVID-19, o isolamento social tem se tornado um forte aliado da prevenção contra o novo coronavírus. Porém, o ato de ficar em casa, e sem contatos presenciais, alimenta solidão e sentimento de desconexão com a realidade. É o que alerta o psicólogo comportamental e especialista em meditação mindfulness Vitor Friary. “As incertezas do futuro ocasionadas pela pandemia dispararam em muitas pessoas estados de emoção e padrões de pensamentos negativos e preocupantes. Quando as pessoas ficam muito presas a esses estados, e o isolamento deixa as coisas estagnarem, esses padrões se perpetuam e podem agravar o estado mental delas”, afirma. É nesse cenário que o artesanato, tendo em vista os benefícios cognitivos e emocionais que proporciona, se torna uma potente alternativa contra os males provocados pelo distanciamento à saúde mental.


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