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Estado de Minas SAÚDE

Estigma associado a doenças mentais é obstáculo no tratamento psiquiátrico

Psiquiatra classifica como grave o julgamento e a falta de informação em relação às doenças mentais. Há quem deixe de buscar ajuda por "autopreconceito"


05/02/2021 10:00 - atualizado 04/02/2021 17:03

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)

De alguma forma, durante a pandemia de COVID-19, muito se comentou sobre a necessidade de manter a sanidade mental em dia, haja vista o contexto social e mundial imposto por um vírus complexo, muito infeccioso e, algumas vezes, fatal.

O medo tomou conta da sociedade. Além disso, a inevitabilidade e imposição do isolamento social colocou à prova questões emocionais, uma vez que o contato com o outro se limitou a quase zero, exceto pela família. E, ainda sim, apenas em alguns casos. 

Porém, saúde mental sempre existiu, e as complicações oriundas do emocional humano, bem como o aparecimento de doenças e/ou transtornos psíquicos também. No entanto, o estigma – forte desaprovação de características ou crenças pessoais – em torno dessas patologias sempre se fez presente.

Um obstáculo muito forte para a cura ou controle psicológico, uma vez que a busca por tratamentos e ajuda terapêutica têm forte interferência. 

“Isso impede as pessoas de verem a psiquiatria de forma positiva e buscar um tratamento adequado. É grave, porque a própria pessoa que adoece emocionalmente não procura ajuda, muitas vezes, por ‘autopreconceito’ de que um transtorno psiquiátrico seja uma fraqueza, o que não é. O cérebro, assim como o coração, o fígado e outros órgãos, pode adoecer e é preciso buscar ajuda de um especialista para o tratamento adequado. Qualquer pessoa, em algum momento da vida, está susceptível a ter uma doença mental/emocional. O maior dano causado pelo estigma é a pessoa não conseguir buscar ajuda devido ao preconceito.” 

É o que diz o psiquiatra Guilherme Rolim. Segundo ele, os pacientes com algum transtorno mental podem, inclusive, “se fecharem” para a ajuda de pessoas próximas, por medo de não serem compreendidas e até mesmo de serem discriminadas.

Aos poucos, esse estigma deixado pela sociedade, ou mesmo criado pelo próprio doente, vai, então, deixando marcas, uma espécie de cicatriz no emocional de quem mais precisa de ajuda e de uma “mão estendida”.  

“É mundial. Ao longo da história, devido à falta de informação, os pacientes com doenças mentais eram vistos como loucos, pessoas sem juízo, que ofereciam risco e, por isso, deveriam ser excluídas da convivência social e do mundo do trabalho. E até os profissionais eram taxadas como médicos para doidos."

Por isso, os pacientes evitam contar o que estão sentindo para as pessoas próximas, como familiares ou amigos, e acabam não procurando um tratamento. Elas têm medo de serem rotuladas como loucas, fracas ou de se viciarem nos medicamentos indicados para tratar a doença ou transtorno, entre outros preconceitos sobre o adoecer”, afirma o psiquiatra. 

Outro ponto levantado pelo médico capaz de interferir, e muito, na forma como a saúde mental é vista e o estigma criado a partir disso é o fato de que as pessoas associam os problemas psiquiátricos somente à esquizofrenia, doença que pode causar surtos, com presença de alucinações e delírios.

“No entanto, a depressão é o transtorno de saúde mental mais comum em todo o mundo. E, muitas vezes, ele deixa de ser tratado, justamente pelo fato de se associar o tratamento psiquiátrico ao estigma da loucura, ainda muito arraigado na sociedade.” 
 

"Tem-se falado muito em saúde mental em razão das consequências de muitas pessoas precisarem ficar em isolamento social prolongado, dentro de casa. A procura por ajuda especializada nos consultórios aumentou. Pode ser um começo para uma maior valorização da especialidade. Mas muito ainda precisa ser feito para se combater o preconceito e minorar o estigma atribuído ao paciente portador de um transtorno mental."

Guilherme Rolim, psiquiatra

 

Justamente por isso, o psiquiatra alerta que é de suma importância que as pessoas se aceitem e compreendam a respeito da necessidade de tratamento. Guilherme Rolim, inclusive, destaca o quão positivo é uma pessoa entender que ela não está sozinha nesta luta e ter uma mão estendida, seja de familiares ou amigos, para buscar e influenciar na procura por ajuda.

“Não há saúde sem saúde mental. Sem tratamento, os problemas psiquiátricos, como é o caso de transtornos de humor, psicóticos, de compulsão e ansiedade, tendem a aumentar, levando seus portadores a mais sofrimento.” 

“E mais, o fato de o portador de transtorno psiquiátrico não buscar uma ajuda médica pode prejudicar não apenas a qualidade de vida dele, mas, também, de sua família e de seu entorno. Por isso, a recuperação dos pacientes e sua reinserção na vida familiar e no trabalho, por exemplo, é a melhor maneira de quebrar os preconceitos. E, para isso, os pacientes precisam passar por avaliação médica para se ter um diagnóstico acurado e um tratamento direcionado para cada caso”, completa. 

De forma geral, o médico psiquiatra explica que o tratamento consiste no uso de medicações e terapias. Em alguns casos, pode ser necessário o atendimento diário em hospitais ou mesmo a internação. Segundo ele, com a abordagem adequada e consultas regulares, grande parte dos pacientes têm e terão evolução satisfatória. 

HERANÇA ‘POSITIVA’ 


Mesmo em um período atípico, o mais terrível para a sociedade nos últimos anos, um ponto “positivo” pode ser levantado em relação à saúde mental durante a pandemia de COVID-19. Isso porque, de certa forma, portas foram abertas para se falar sobre sofrimento emocional e doenças mentais.

Pelo menos é o que acredita o psiquiatra Guilherme Rolim. Para ele, isso pode não só mudar o estigma e autoestigma – percepção e internalização da discriminação sofrida – relacionados aos distúrbios mentais, como, também, dar início a uma maior valorização dos profissionais que lutam pela causa. 

Guilherme Rolim, psiquiatra(foto: Adriana Porto/Divulgação)
Guilherme Rolim, psiquiatra (foto: Adriana Porto/Divulgação)
“Tem-se falado muito em saúde mental em razão das consequências de muitas pessoas precisarem ficar em isolamento social prolongado, dentro de casa. A procura por ajuda especializada nos consultórios aumentou. Pode ser um começo para uma maior valorização da especialidade. Mas muito ainda precisa ser feito para combater o preconceito e minorar o estigma atribuído ao paciente portador de um transtorno mental”, diz o psiquiatra, que aponta, ainda, a educação e a criação de políticas públicas como aliados. 

Isso porque informar e ensinar as novas gerações sobre saúde mental e doenças e transtornos psíquicos pode otimizar o tratamento, que, atualmente, já conta com um arsenal terapêutico muito forte, possibilitando inúmeras formas de psicoterapia.

“Informar melhor a sociedade sobre a gravidade e o impacto do sofrimento mental, destacando-se a importância do adequado tratamento psiquiátrico para os portadores desses transtornos, pode ser muito benéfico para evitar deixar mais marcas e cicatrizes em quem sofre”, diz. 

*Estagiária sob a supervisão da editora Teresa Caram


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