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Estado de Minas Jardinagem

Plantar, semear e receber

Cultivar plantas em casa é se movimentar, focar, concentrar, limpar a mente e encontrar o equilíbrio. Em plena pandemia e a poucos dias da primavera, atua como sopro de leveza diante das incertezas


13/09/2020 04:00 - atualizado 12/09/2020 22:56

(foto: Rebecca Matthews/Pixabay)
(foto: Rebecca Matthews/Pixabay)

As plantas influenciam as pessoas e os espaços em que vivem. Cultivá-las é encontrar um refúgio de calmaria em meio à rotina, para muitos, caótica, acelerada e estressante. Praticar a jardinagem é manter a natureza por perto, seja qual for o ambiente e espaço disponível, e criar um oásis de leveza, simplicidade e naturalidade em um mundo, neste momento de pandemia, distópico, que tem roubado a utopia de milhares. Cuidar de plantas no dia a dia é se movimentar, focar, concentrar, limpar a mente e encontrar o equilíbrio ao controlar a ansiedade.

Essa descoberta mudou a vida de Soraya Belusi, jornalista, jardineira e florista. Ela conta que, até janeiro de 2019, nunca teve nenhuma conexão especial com as plantas, mesmo gostando. Mas a relação era apenas de admiração, observação, já que morava com a mãe e o cuidado ficava por conta dela. Mesmo desconfiando que, como dizem, teria a mão boa.

A reviravolta ocorreu em uma fase desafiadora para Soraya: “Casei-me e fui morar em uma casa com uma área privativa de bom tamanho. Calhou que, por eu passar por um período de saúde complicado, crise de ansiedade, estresse, irritações intestinais por conta disso, acabei procurando uma terapia, uma atividade terapêutica que pudesse me trazer prazer e tranquilidade. Foi assim que encontrei a jardinagem”.
 
 
(foto: Soraya Belusi/divulgação)
(foto: Soraya Belusi/divulgação)
 

"Fiquei apaixonada 
por planta e isso me fez 
um extremo bem terapêutico. A jardinagem foi a atividade de que eu precisava para me tirar um pouco da onda do 
estresse e da ansiedade”



Soraya Belusi, jardineira e florista
 
 
 
Soraya conta que o Centro Cultural Sesiminas oferece um curso profissionalizante de jardinagem, e ela começou a fazê-lo no segundo semestre de 2019 e a praticar. “Quando vi, minha casa já estava cheia de vasos, plantas, com um jardim lindo, que eu mesma fui construindo aos poucos, escolhendo qual planta combinava com qual, onde ia ter flor e só folhagem, aplicando todo o aprendizado adquirido no curso.”

De repente, Soraya foi capturada pela natureza: “Fiquei apaixonada por planta e isso me fez um extremo bem terapêutico. A jardinagem foi a atividade de que eu precisava para me tirar um pouco da onda do estresse e da ansiedade, que são tão comuns na atividade de um jornalista. Era editora do caderno de cultura de um jornal, comandava uma equipe de 11 pessoas com bastante demanda. Foram 15 anos nessa atividade sem nenhum intervalo, e eu encontrei na jardinagem um respiro”.

Para Soraya, as plantas não só lhe proporcionaram um bem terapêutico, mas energético e, simplesmente, mudou o clima da sua casa. Por isso, hoje, é a receita que recomenda a todos que buscam qualidade de vida: “Não importa o tamanho, pode morar em uma quitinete, castelo ou mansão, é possível ter plantas que vão lhe trazer um bem-estar imediato”, afirma.

Não só porque vão proporcionar essa capacidade de se concentrar, mas, segundo Soraya, quando se está cuidando de uma planta o foco está todo ali, você se desliga de tudo que está ao redor para poder molhar, adubar ou podar. “Além da alegria de cuidar de um ser e ver esse ser retribuir. A flor ou a planta são muito generosas e qualquer agrado que você lhe faz ela retribui com muita beleza.”
 
Para receber a generosidade e dádiva das plantas, é preciso também se doar: “Tem de pensar qual é a planta ideal para o ambiente onde mora. Não dá, por exemplo, para colocar um cacto, que gosta de muito sol, é seca, nasce no deserto, no árido, em uma sala que não tem janela, escura e onde não entra luz. Esse cacto vai sofrer, ele não foi feito para esse espaço. Portanto, é preciso entender o lugar onde mora. Se tiver uma janelinha em que bata o sol é possível colocar um vaso no parapeito, ter uma hortinha, uma flor bonita na sala que ainda recebe uma fonte de luz. Não é difícil”.

Na internet ou nas redes sociais há vários perfis para seguir. No “Eu vou cuidar do seu jardim”, Soraya dá uma série de dicas para escolher uma planta que seja ideal para o ambiente e também para sua personalidade e para o tempo de cuidado dedicado a ela.
 

LUTA INTERNA 


Com o que recebeu, Soraya quis dividir. Assim nasceu o projeto “Eu vou cuidar do seu jardim”. Ela revela que, em janeiro de 2020, depois de muita luta interna, decidiu pedir demissão e se permitiu um período sabático de imersão nas plantas. “Uma imersão curativa mesmo e, no meio desse processo, veio a pandemia e senti que podia proporcionar às pessoas esta cura que as plantas trouxeram para mim. Tanta gente sozinha durante a quarentena, querendo ter um verde em casa, ter mais ar, a COVID-19 tira o ar de todos, e acho que as plantas renovam um pouco o ar do espaço onde estamos. Pensei numa forma de cuidar das pessoas mesmo que a distância, fazendo um bem para elas, cuidando de algo que vai ser delas”, explica.

DOAÇÃO DE MUDAS 

Aí veio a ideia do projeto, no qual ela doa mudas. Soraya disponibilizou uma página no Instagram (@euvoucuidardoseujardim), com alguns posts e stories, e coloca algumas mudas que tem disponíveis, do próprio jardim. “Então, é como se eu pudesse espalhar o meu jardim por aí, pela cidade, na casa das pessoas.”

Soraya ressalta que a doação é porque as pessoas tiveram muitas perdas neste momento, inclusive financeiras. E é tão difícil alguém dar alguma coisa, e planta custa caro, inclusive. E não é fácil achar mudinha nas floriculturas e distribuidoras, elas vendem plantas mais robustas, já com um tempo, crescidas, pensando em uma utilidade paisagística. “Minha ideia não é que a pessoa leve uma planta com 2m de altura para casa, mas que venha pegar uma mudinha, pequeninha, que eu cuidei dela durante cinco meses e você vai ver o tempo dela, o crescimento, enfim, todo o ciclo que uma planta tem”, explica.

Para Soraya, é difícil escolher a flor preferida, porque não tem nenhuma que não ame. Mas revela ter um fascínio por tulipas. “Não tenho nenhuma em casa, é superdifícil de cultivá-la no Brasil, é uma flor europeia, holandesa. Meu fascínio é porque acho que ela guarda um mistério, é mais bonita fechada do que aberta, elegante. Tenho um encantamento por tulipa. Mas pensando em uma planta caseira, que todos podem ter e que amo, me traz cheiro de infância, é barata, simples e dá um efeito lindo, é a samambaia. E o nome é lindo.”

E nesta jornada de reviravolta na vida de Soraya, ela parece ter encontrado novo caminho. Acabou que o “Eu vou cuidar do seu jardim” e todo o envolvimento com as plantas despertou o interesse de muitas pessoas. Então, amigos, colegas de profissão e tantos outros começaram a virar clientes. “Acabei transformando o meu conhecimento em negócio, uma nova profissão e ofício. Hoje, já faço arranjos para vender, buquês, arranjos para festas, eventos, vendo plantas, tudo isso paralelamente ao trabalho de doação de mudas, que continua firme e forte.”


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