
Um primeiro grupo de 35 pessoas que vem sendo acompanhado pelos pesquisadores desde julho deste ano relatou, um mês após a alta, sentir dor e impactos no estado emocional com sintomas de ansiedade e depressão, além de fraqueza nos braços, fadiga e falta de ar. E pelo menos um terço teve capacidade reduzida para realizar esforço físico. A expectativa é de que, até o final da pesquisa, que tem duração prevista de um ano e meio, cerca de 400 pacientes sejam acompanhados.
A professora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, Carolina Marinho, coordenadora do estudo, explica que alguns desses sintomas, como dor e falta de ar, podem estar relacionados especificamente com a COVID-19. "A doença acomete o tecido pulmonar, lesionando o alvéolo, unidade que faz a troca de oxigênio por gás carbônico", esclarece.
Quanto à fraqueza muscular, não é possível dizer se a sequela tem relação com a doença ou se é consequência da imobilidade durante o período de internação hospitalar, que costuma ser de pelo menos uma semana. "Por um lado, o processo de inflamação aguda da COVID-19 ativa uma resposta inflamatória, que pode produzir lesão direta em nervos periféricos e músculos, produzindo fraqueza. Por outro lado, temos o descondicionamento físico que é provocado pela imobilidade", explica Carolina Marinho.
A pesquisa ainda está no início, mas já é possível observar que algumas das sequelas da COVID-19 identificadas nesse primeiro grupo de pacientes persistam por até dois anos. Isso se o novo coronavírus seguir a mesma tendência da SARS-CoV, outra doença causada por vírus da mesma família, identificada em 2002. "Estudos relataram que 30% dos pacientes da SARS-CoV tiveram problemas pulmonares por até dois anos", compara a especialista.
Após esse período, são os casos considerados crônicos, quando as sequelas são permanentes, o que também é uma possibilidade para a COVID-19. Existem ainda casos de pacientes que estiveram no Centro de Terapia Intensiva (CTI) por outros motivos e permanecem com condições relacionadas à internação até cinco anos depois.
Até o momento, a percepção de dor, ansiedade e depressão foram as mais prevalentes entre os participantes do estudo. Carolina Marinho percebe que a saúde mental pode sofrer impactos devido ao isolamento do paciente durante a internação, em que paciente fica privado de visitas familiares e, em alguns casos, sem contato por celular com os entes e amigos.
Pacientes relatam ainda sentir medo de se contaminar no ambiente do hospital e, quando a COVID é confirmada, o medo passa a ser da incerteza da evolução da doença. Já aqueles que precisam ir para o CTI, usam ventilação mecânica e não ficam conscientes durante todo o período de internação, podem apresentar lacunas na memória. "Essa falta do entendimento do que aconteceu naquele período é outro fator relacionado a internação que pode alterar a saúde mental", complementa a professora. Além dos pacientes que permaneceram internados, é possível que aqueles que tiveram a doença, mas se trataram em casa, também manifestem sintomas persistentes.
Pesquisa recente divulgada no Journal of the American Medical Association (JAMA) analisou 143 pacientes na Itália. Desses, apenas 12,6% foram internados em UTI, mas 87,4% relataram persistência de pelo menos um sintoma por mais de dois meses, como fadiga e falta de ar. As estatísticas gerais da pandemia mostram que 80% dos infectados apresentam a forma leve, cerca de 20% são graves e precisam ir para hospitais e por volta de 5% vão para a terapia intensiva.
