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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Decisão sem medo durante a quarentena

Se algumas pessoas adiam planos e sonhos diante do enfrentamento do novo coronavírus, outras agem e buscam rumos para sua vida


16/08/2020 04:00 - atualizado 17/08/2020 11:01

Qual porta vai abrir?(foto: Arek Socha/Pixabay )
Qual porta vai abrir? (foto: Arek Socha/Pixabay )



“Eu me demito.” “Quero me separar.” “Vamos nos casar.” “Fiquei grávida.” “Terei um ano sabático.” “Mudei de carreira.” “Vou viver em outro país.” “Troquei de cidade.” “Quero um cachorro.” “Vou comprar minha casa.” Essas decisões e tantas outras têm sido tomadas por várias pessoas em plena quarentena, no isolamento social, medidas essenciais diante do enfrentamento ao novo coronavírus. Se há quem adie sonhos e planos e estão ainda mais comedidos, outros agem, seja com critério e planejamento ou, simplesmente, impulsionados por todos os sentimentos, emoções, carências, ansiedade e desespero provocados pela pandemia. O vírus, que coloca a finitude tão exposta, acelera a tomada de decisão. E, nesses casos, quem dá um pulo para o novo precisa ter consciência das consequências, dos 50% para dar certo, ou não.

Michelle Menezes, assistente de contas, de 35 anos, e Flávio Simões da Cunha Menezes, eletricista, de 29, decidiram se casar agora, durante a pandemia. A quarentena foi um fator que motivou a decisão. “Já namorava há um ano, eu morando em Belo Horizonte, e Flávio em Itabirito. Não conseguíamos ficar longe um do outro. Eu ia para a casa dele e vice-versa. Aproveitamos então o momento para nos unir ainda mais. Resolvemos nos casar ‘escondido’, em 10 de junho, sem que nossas famílias e amigos soubessem”, revela Michelle.

Michele conta que registraram a união em cartório, só os dois. “Somos primos de primeiro grau. No aniversário da minha mãe, em de 16 de junho, já com o registro de casamento em mãos, demos a notícia à família numa ligação de vídeo. Todos ficaram surpresos.” Antes, ela lembra que, durante a quarentena, compraram o apartamento onde moram, agora, em Belo Horizonte.
 
 
Michelle Menezes e Flávio Simões da Cunha Menezes decidiram se casar escondidos de todos (foto: Arquivo Pessoal)
Michelle Menezes e Flávio Simões da Cunha Menezes decidiram se casar escondidos de todos (foto: Arquivo Pessoal)
“Estamos curtindo a vida de casados. E, neste momento, sem receber visitar. O tempo está sendo só nosso. Acho isso muito bom para os casais se entenderem e viver felizes. Nós dois saímos de relacionamentos longos e vimos, durante a quarentena, que não conseguíamos ficar longe um do outro. Então, não era preciso esperar um, dois, três ou mais anos para ficar juntos”, destaca Michelle. Já Flávio diz que a decisão pelo casamento foi uma escolha muito assertiva na vida dele: “Estávamos muitos felizes com o reencontro depois de mais de 20 anos. Éramos crianças quando me lembro dela me chamando para brincar. Foi um reencontro inesperado e, desde então, ela mudou meu conceito de amar”.


TURBILHÃO DE EMOÇÕES 


Já a médica cirurgiã plástica Alexandra de Souza Marcondes Rezende e o marido, Cristiano Bezerra Lara, funcionário público do governo italiano no consulado da capital, descobriram que engravidaram no fim de março, logo no início da quarentena. Ela está de quatro meses: “Fizemos quatro anos de casados em fevereiro e foi quando decidimos ter filhos, mas não imaginávamos que seria tão rápido e no início de uma pandemia”, revela Alexandra, completando o turbilhão de emoções que tem vivido.

“Sentimento de felicidade em meio a tantos problemas de saúde mundial, estresse no trabalho e adaptações à nova rotina. Medo e incerteza, pois eu não tive a opção de trabalhar de casa, já que, além de ser cirurgiã, trabalho na gestão do hospital-dia Proplástica, que precisou se adaptar rapidamente às novas regras de segurança e gestão. E até hoje sabe-se muito pouco sobre as consequências da doença em grávidas”, destaca.
 
 
Alexandra de Souza e o marido, Cristiano Bezerra Lara, descobriram a gravidez no início da quarentena (foto: Arquivo Pessoal)
Alexandra de Souza e o marido, Cristiano Bezerra Lara, descobriram a gravidez no início da quarentena (foto: Arquivo Pessoal)
 
Já na parte social, Alexandra explica que ela e Cristiano se adaptaram bem. “Meus pais e o pai do meu marido são do grupo de risco. Meu sogro foi morar na fazenda, em Esmeraldas, e meus pais estão isolados no apartamento deles. Meu marido faz as compras no supermercado para as três famílias.”

Há poucos dias, o casal descobriu o sexo do bebê: é menina. Para compartilhar, eles revelaram durante um chá de bebê virtual para a família: “Fizemos um encontro on-line com os parentes. Em casa, recebemos apenas meus pais e avó, com as devidas medidas de distanciamento. Foi uma sensação maravilhosa. Uma alegria pessoal imensa de ter nossa primeira filha, ao mesmo tempo em que tenho essa preocupação enorme devido à pandemia que destrói pessoas, famílias, empresas, a economia...”

Cristiano, enfatiza Alexandra, está lidando de maneira exemplar nessa situação. Ele teve a possibilidade de trabalhar de casa e aproveitou para se readaptar. Já tinha morado fora do Brasil, na Itália, por nove anos, e estava acostumado a gerenciar a própria casa. “Lava, limpa, cozinha e faz compras no supermercado e na farmácia, além de continuar seu doutorado. Recebeu a notícia com surpresa e muita alegria. Não pensou que a gravidez viesse tão rápido”, diz Alexandra.
 
 
 

"É preciso que cada um 
cuide de si e do próximo. 
Vale buscar novas alternativas para a vida. Perguntar: o que posso fazer para mudar para melhor essa realidade?. É hora 
de tentar transformar o limão em uma limonada” 

Renato Araújo, psiquiatra
 
O casal destaca que a relação está maravilhosa. “Estamos nos conhecendo cada vez mais e a admiração recíproca só aumenta. Essa gravidez, num momento tão difícil para a humanidade, gera sentimentos contraditórios. Felicidade e gratidão por nossa situação privilegiada e dor e angústia em pensar que grande parte da população mundial, além das dificuldades rotineiras da vida, têm que lidar com essa questão extrema sem praticamente nenhuma ajuda ou referência positiva e racional dos agentes públicos. A descoberta mais interessante é que eu não sabia que meu marido é um cozinheiro tão bom.”

Planos para o futuro? “Torcer para a humanidade encontrar uma vacina para essa doença e aprender por meio dessa pandemia que todos somos interdependentes e necessitamos de cuidados via políticas públicas efetivas e abrangentes. E não podemos ficar sujeitos à exploração humana irracional, que só visa ao lucro e à concentração de renda”, alertam Alexandra e Cristiano.


EXPECTATIVAS 


O psiquiatra Renato Araújo, da Clínica Mangabeiras, recomenda não focar muito no futuro e procurar viver o presente. “Não temos no momento horizontes claros, e isso causa angústia e ansiedade. Criar muitas expectativas em relação ao futuro pode gerar frustrações. O escritor Viktor E. Frankl, no livro Em busca do sentido da vida, conta a sua passagem por um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, em que muitas pessoas se decepcionaram após ficar livres. Saíram do campo e não souberam lidar com a realidade, que era outra.”

O ideal, alerta o médico, é não fantasiar e perceber que o mundo passa por mudanças e a responsabilidade é de todos neste processo. “Agora, é preciso que cada um cuide de si e do próximo. Vale também buscar novas alternativas para a vida. Perguntar: o que posso fazer para mudar para melhor essa realidade?. É hora de tentar transformar o limão em uma limonada”, sugere o médico.


 
(foto: Gerard Altmann/Pixabay)
(foto: Gerard Altmann/Pixabay)
 

Coragem para alçar novos voos

Independentemente da decisão, ao fazer uma escolha sempre significará que você abriu mão de outra. Há uma parcela de pessoas que acreditam que o momento de crise é a hora certa da mudança, seja ela qual for


Há profissionais pedindo demissão em plena quarentena. Decisão, para muitos, impensável e irresponsável, caso a decisão não seja para começar em outro emprego. Ainda mais diante dos números, apresentados em junho, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O país tem quase 13 milhões de desempregados. A soma do número de desempregados e de pessoas fora da força de trabalho (87,6 milhões) superou o de ocupados no país (85,9 milhões). Assustador, não é? Esse cenário deixa muitas pessoas, empregadas, simplesmente paralisadas em seus postos, em suas carreiras, satisfeitas ou não, produtivas ou não, desafiadas ou não, estimuladas ou não. Mas, por outro lado, há uma parcela de profissionais que acreditam que em momento de crise é a hora certa da mudança, seja ela qual for.

A arquiteta e urbanista Janaína Lisiak, de 29 anos, graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFB), atuava na área antes mesmo de se formar. Trabalhou como freelancer e em escritórios renomados em Salvador, atuando de gestão de obras a detalhamento de móveis. Como ela mesma brinca, sempre fez “gestão da minha vida”, desde um intercâmbio na França durante a universidade, quando já saiu da casa dos pais, se jogou no mundo e teve de se virar. Agora, com a vida em Belo Horizonte, empregada, decidiu pedir demissão de um cargo no governo e dar outro rumo à vida profissional, ainda que não tenha definido qual.
 
Arquiteta e urbanista, Janaína Lisiak decidiu largar o emprego no serviço público(foto: Manuel Marçal/Divulgação)
Arquiteta e urbanista, Janaína Lisiak decidiu largar o emprego no serviço público (foto: Manuel Marçal/Divulgação)
 

Janaína Lisiak já foi bolsista do Ciências Sem Fronteiras e construiu a trajetória acadêmica mergulhada na pesquisa, com foco social no estudo habitacional, assentamentos informais dos centros urbanos (mais conhecidos como periferias e favelas) e produção urbana e habitacional autônoma. Ela desenvolveu um projeto de pesquisa e o aplicou no programa de pós-graduação da UFMG. “A aprovação me fez mudar para BH, uma cidade completamente desconhecida para mim, mas onde eu tinha uma rede de amigos. Em dado momento, soube de uma vaga para ocupar um cargo no governo do estado na assistência social, uma experiência bem frutífera. Permaneci um ano, mas desde a virada de 2019/2020 refletia sobre uma atuação profissional que se alinhasse melhor com a produção acadêmica.”

Foi aí que Janaína decidiu pedir demissão. Durante a reta final de desenvolvimento da dissertação de mestrado: “Desde que entrei no estado, desenvolvi uma gestão levemente austera das minhas finanças, então tenho uma poupança que me sustenta durante um tempo”.


PERSISTÊNCIA E PERSPECTIVAS 
 
  

Mesmo assim, Janaína conta que algumas pessoas a questionaram por conta do retrocesso econômico fortalecido pela pandemia. “Apesar da reserva financeira, o medo é constante. Confesso também que fico triste em me despedir dos colegas de trabalho, que me recepcionaram melhor do que imaginava e me apoiaram.” Agora, a arquiteta está desempregada e diz que vai focar em concluir o mestrado e atuar nas pesquisas em que é colaboradora.
 
 
 
A psicóloga Fabrízia Soares decidiu mudar não só de emprego, mas de cidade, com a família, em plena pandemia (foto: Arquivo Pessoal)
A psicóloga Fabrízia Soares decidiu mudar não só de emprego, mas de cidade, com a família, em plena pandemia (foto: Arquivo Pessoal)
 
A arquiteta diz que, em geral, as pessoas a apoiaram, principalmente os amigos. “No trabalho, minha superior sempre nos incentivou a buscar a felicidade. Minha mãe é uma das poucas pessoas radicalmente contra a decisão. Entendo que são diferenças geracionais e sei que ela teme pelo futuro, como todos nós. Sou uma pessoa extremamente crítica às desigualdades e diferenças da sociedade, bem como às propostas e ações para vencê-las. Sou uma otimista, mas sei que essas possibilidades só se concretizam com muito trabalho e persistência.”

Já a psicóloga Fabrízia Soares, de 39, atua na área de recursos humanos, na qual teve a oportunidade de passar por todos os subsistemas. Trabalhou em vários segmentos, desde o automobilístico, siderurgia, prestação de serviços e, agora, o desafio é uma entidade sem fins lucrativos voltada para a saúde e educação. Ela, mesmo sem estar à procura de mudança, se viu diante de uma proposta que lhe fez pedir demissão e mudar de emprego em plena pandemia. Decidiu trocar não só de empresa, mas também de cidade. Ela, os dois filhos, de 7 e 5 anos, e o marido, que é empresário e fará a gestão dos negócios a distância, estão indo morar em Ipatinga, no Vale do Aço. Completa reviravolta na vida de todos.

“Quando decidi fazer este movimento de me desligar em plena pandemia, muitas pessoas acharam que era uma decisão bastante arriscada. Mas fiz uma análise sobre todas as possibilidades. Não recebi tantas críticas ou questionamentos. A expectativa deste novo momento gera um frio na barriga e, muitas vezes, incerteza. Mas acredito que meu empenho, a vontade de dar certo, o controle emocional para fazer a gestão dessa mudança vão fazer com que os meus planos deem certo e que eu saia lá na frente com mais um aprendizado”, confia Fabrízia.

A psicóloga explica que a chance de fazer a transição de carreira foi uma proposta inesperada e sem planejamento. Segundo ela, para tomar a decisão fez todo um cálculo de riscos, de possibilidades de crescimento, de desenvolvimento, um paralelo entre a qualidade de vida proporcionada para ela e para seus filhos, o bem-estar de toda a família. “Poder contribuir para a sociedade e para o negócio é algo que me move, me motiva mesmo diante de um grande desafio.”


MOVIMENTAR 


O conselho que Fabrízia passa para as pessoas que estão na mesma situação é que entre ficar no lugar que está ou caminhar no sentido de encontrar novos desafios e crescer, escolha se jogar, ir em frente, aceitar os desafios. Então, acomodar não é o caminho. A psicóloga avisa que uma das competências para o profissional de agora e do futuro é a capacidade de se reinventar. E, muitas vezes, quando a pessoa se reinventa em um local em que ela está estagnada, em que já tem tudo sob controle, tende a manter um padrão de comportamento que traz pouca inovação. “Acredito sempre que o movimento é a melhor saída e a melhor estratégia. Acredito sempre que a gente precisa evoluir e voar. Não dá para ficar no mesmo lugar.”

 
 
 

Parada “forçada”

 
(foto: Camila Rocha/Estático Zero Fotografias)
(foto: Camila Rocha/Estático Zero Fotografias)


"Não podemos controlar as circunstâncias 
à nossa volta, mas podemos nos 
preparar emocional e intelectualmente melhor para lidar com elas

Virgínia Gherard, doutora em psicologia da educação, mestre em administração 
 
Para Virgínia Gherard, doutora em psicologia da educação e consultora especialista no desenvolvimento de líderes, o momento é único e tem gerado o estímulo para uma parada ‘forçada’. “Todo o contexto de confinamento naturalmente nos mobiliza à ampliação da consciência, gerando a reflexão dos valores e do que realmente importa na vida. Além disso, a proximidade com grandes perdas mobiliza nas pessoas um 'balanço' e uma avaliação envolvendo as decisões e as escolhas de cada um.”

Ela conta que no período pré-pandemia, frequentemente escutava das pessoas queixas e desejos de mudar de atividades ou até de repensar as próprias carreiras. “Mas apesar dessas insatisfações, algumas permaneciam no incômodo e me pareciam não ter coragem pelo risco da mudança ou preferiam se manter anestesiadas pela realidade. Hoje, tudo mudou, o contexto promove uma ampliação das 'dores' e as pessoas estão por mais tempo pensando e refletindo sobre suas escolhas.”

Assim, Virgínia Gherard explica que há indivíduos que encontram na crise uma saída para outra fonte de realização, se encorajam e agem como protagonistas, o que de certa forma é uma possibilidade de empoderamento, mas por outro lado representa um risco. Por isso, destaca a especialista, é preciso ampliar o nível de autoconhecimento e se qualificar para a mudança. Toda crise pode significar oportunidade. Mas é preciso tranquilidade e tomar decisões pautadas em informações consistentes. “Não é possível prever todos os riscos, mas podemos minimizá-los se estivermos mais preparados para lidar com o incerto.”

Professora em cursos de pós-graduação da PUC-MG e da Fundação Dom Cabral (FDC), Virgínia Gherard enfatiza que o mercado atual é fonte de incertezas. “Hoje, as pessoas têm menos paciência e tolerância com os incômodos. Antes, era comum permanecer até a aposentadoria, mesmo insatisfeitas. Agora, percebo profissionais motivados a sair pela sobrecarga de trabalho, que só aumentou com a redução drástica de postos.”

PORTO SEGURO 

Virgínia Gherard alerta que há tempos o emprego formal não é mais percebido como um “porto seguro”, como já foi visto no passado. A nova geração percebe que o emprego informal pode ser tão ou mais vantajoso do que um trabalho regido por regras de horário, salário, pressão direcionada por cobranças e controles rígidos. Temas como qualidade de vida e satisfação no trabalho passam a ter muito mais valor.

Virgínia Gherard destaca o professor Leon Megginson (foi mestre na Louisiana State University): “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. “Também acredito no poder da adaptabilidade, como uma competência fundamental para nossa sobrevivência. Não podemos controlar as circunstâncias à nossa volta, mas podemos nos preparar emocional e intelectualmente melhor para lidar com elas.”


 
 
 


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