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Estado de Minas Novo coronavírus

COVID-19: Obesos têm mais riscos de desenvolver forma grave da doença

Pesquisa feita pela Unicamp aponta que pacientes com excesso de peso tendem a apresenta maior carga viral da doença, em função da elevada quantidade de adipócitos em seus organismos


13/07/2020 16:55 - atualizado 13/07/2020 17:17

Excesso de peso pode influenciar na gravidade de quadros clínicos de COVID-19(foto: Pixabay)
Excesso de peso pode influenciar na gravidade de quadros clínicos de COVID-19 (foto: Pixabay)
Um estudo recente, realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que pacientes com excesso de peso e/ou obesidade, contaminados pelo novo coronavírus, tendem a desenvolver quadros clínicos mais graves de COVID-19.

Isso porque, segundo a pesquisa, o Sars-Cov-2 pode ser capaz de infectar o tecido adiposo por causa da maior quantidade e tamanho de adipócitos no organismo de pessoas acima do peso. Além disso, foi observado que o vírus é capaz de infectar melhor as células adiposas do que as epiteliais do intestino ou do pulmão.

“As células adiposas no obeso são maiores, o que propicia uma maior replicação viral, pois o vírus consegue entrar na célula adiposa e se multiplicar ali. E ao ter maior carga viral, as chances de que a doença se agrave são maiores, ocasionando sintomas, também, mais graves, como insuficiência respiratória”, explica o nutrólogo e pós-doutorado em endocrinologia Guilherme Ferreira Mattos.

Mattos destaca que os pacientes contaminados pelo novo coronavírus, e em processo de recuperação, podem desenvolver respostas no sistema nervoso central e mudanças de humor. Para o médico especialista em nutrologia e endocrinologia, devido à gravidade proporcionada pela quantidade e tamanho dos adipócitos, pacientes obesos infectados podem vir a apresentar demais alterações, ainda não percebidas e/ou analisadas.

O estudo aponta que não há evidências se, após a replicação, o vírus sai dos adipócitos e se desloca em direção às demais células, a fim de contaminá-las. “O estudo ainda precisa de conclusões, mas é importante saber que o paciente obeso vai ter uma carga viral maior que os pacientes de percentual de gordura mais baixa, por possibilitar ao vírus maiores lugares de hospedagem e multiplicação”, comenta Mattos.

Segundo o especialista, devido ao resultado inconclusivo quanto a saída do Sars-Cov-2 da célula adiposa, o tratamento destinado à cura da doença pode ser mais demorado e dificultado. “Os métodos curativos neste caso se tornam mais complicados, pois com a carga viral dentro das células, há complicações para que essa seja extinta, visto que os resultados e testes tendem a apontar, mais precisamente, os vírus circulantes.”
 

Envelhecimento

 
Outro ponto abordado pelo estudo diz respeito ao envelhecimento e disfunção do tecido adiposo, o que afeta idosos e doentes crônicos metabólicos. De acordo com a pesquisa, as células adiposas envelhecidas apresentaram desenvolvimento e aumento da carga viral três vezes maior do que em células consideradas “jovens”.
 

"É um estudo em células in vitro, e está em sua etapa inicial para geração de hipóteses. Ainda não é conclusivo, mas ajuda a melhorar o entendimento de como e porquê a obesidade é um fator de risco para a COVID-19"

Arnaldo Schainberg, médico endocrinologista e coordenador do programa de residência do Ipsemg

 

Sendo assim, a pesquisa apresentou, também, que drogas senolíticas, normalmente usadas a fim de prolongar o tempo de vida e evitar o agravamento de doenças relacionadas à velhice, foram usadas com eficácia de 95% na diminuição da carga viral do Sars-Cov-2 em tecidos epiteliais. E, portanto, a Unicamp pretende repetir o experimento nos adipócitos.

A pesquisa, a princípio, foi realizada em células-tronco mensequimal, isoladas de pacientes não infectados e submetidos a cirurgia bariátrica, a partir de testes in vitro. Posteriormente, as células foram submetidas a exposição a uma linhagem do novo coronavírus, cultivada em laboratório por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

“É um estudo em células in vitro, e está em sua etapa inicial para geração de hipóteses. Ainda não é conclusivo, mas ajuda a melhorar o entendimento de como e porquê a obesidade é um fator de risco para a COVID-19”, afirma Arnaldo Schainberg, médico endocrinologista e coordenador do programa de residência do Ipsemg.

Para dar continuidade ao estudo serão feitas análises de proteômica, a fim de descobrir se a infecção pelo novo coronavírus afeta o funcionamento do adipócito e se a contaminação tende a propiciar sequelas de longo prazo na célula.

Outros fatores

 
Ao discorrer sobre o estudo, a nutricionista comportamental Ruth Egg explica que o tecido adiposo é caracterizado por ser um órgão muito ativo, por interagir de forma direta com as funções do corpo, como homeostase, imunidade e atribuições endócrinas e metabólicas. No entanto, nos indivíduos obesos, há uma desregulação do organismo.

“Essa alteração tem correlação com diversos distúrbios ligados ao tecido adiposo. E devido a essa deficiência, as respostas apresentadas pelo organismo tendem a ser falhas, visto que há uma disfunção das células responsáveis por reagir. Sendo assim, o receptor que atua na contrarregulação é utilizado pelo vírus como condutor, a fim de entrar nas células do tecido adiposo.”

Ruth destaca, ainda, que pacientes com excesso de peso tendem a apresentar deficiência de vitamina D, resultando em uma imunidade mais baixa, o que propicia o agravamento de infecções. Além disso, a nutricionista pontua que a obesidade pode desencadear doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, ambos fatores de risco para COVID-19, o que influencia ainda mais o quadro clínico do paciente obeso infectado.

“O excesso de peso está muito relacionado à apneia do sono, e o paciente com esse tipo de distúrbio tem uma hiperventilação, o que tende a fazer com que a reserva ventilatória, para respirar, piore e ele fique mais fraco. Portanto, isso pode agravar os quadros de contaminação pelo Sars-Cov-2, devido aos sintomas respiratórios característicos da doença”, completa.

* Estagiária sob a supervisão da editora Teresa Caram


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