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Estado de Minas

Abrir janelas e construir pontes

Por que conversar, seja no espaço privado ou no público, ficou tão complicado? Como resgatar o direito de fala e de escuta sem agressões verbais e até físicas? Pandemia escancara ainda mais a falta de diálogo


postado em 14/06/2020 04:00




(foto: Gerd Altmann/Pixabay)
(foto: Gerd Altmann/Pixabay)

 


A arte do diálogo nunca foi tão rara e necessária em tempos de polarização extrema. A pandemia do novo coronavírus, em vez de unir as pessoas em prol de falas para o bem comum e proporcionar alinhamento de discursos – seja das autoridades e da sociedade para a segurança de todos –, acirra o desencontro de narrativas que levam o Brasil, novamente, para uma onda de desentendimentos e choques como se não falasse a mesma língua. A angústia, para além do isolamento social e da quarentena imposta pela COVID-19, é perceber que parte dos brasileiros não tem essa percepção. Não enxergam o perigo de uma estrada sem diálogo.

A ausência do diálogo é fatal para a convivência social. O incrível é que tudo partiu da seara política, espantosamente núcleo fundado sob a égide da fala e da escuta. Como entender? No entanto, é fato que além da falta de fala e da escuta no ambiente público, a conversa e o ouvir também sofrem abalos que interferem no seio privado ao minar relações familiares, laços pessoais e eliminar a empatia com o outro num momento crucial para o mundo, com milhões de mortos diante de um inimigo invisível, desafiador e ainda sem controle. Sem diálogo, o conflito parece inevitável.

Padre Márcio Paiva, professor e chefe do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e pároco da Paróquia Nossa Senhora Rainha, no Bairro Belvedere, ensina que, do ponto de vista da filosofia, ser é comunicar. “Tudo aquilo que é, tende a se deixar conhecer; tudo aquilo que é se deixa iluminar pela inteligência humana e se torna algo comunicável. Portanto, na cultura atual, nós vivemos um misto de progresso pelas tecnologias e, sobretudo, novas tecnologias da comunicação. Elas potencializam tudo aquilo que é da vida humana. Dizíamos que o diz que me diz, a fofoca, a maledicência, a calúnia, tudo que não era, podia ser comunicado e ganhar ares de realidade. Com as novas tecnologias, as fake news fazem isso. Elas partem de um pressuposto que é para comunicar algo que não é.”

Márcio Paiva chama a atenção para algo perverso das fake news. Segundo o professor, elas fazem uso dos avanços da neurociência e das técnicas da neurolinguística de tal forma que nem sempre o fato de não ser preparado, não ser inteligente leva a pessoa a aderir ou cair em uma fake news. Muitas vezes, até um professor universitário se deixa conduzir por uma notícia falsa. Por quê? “Porque ela não tem interesse de tocar na verdade daquilo que é, mas ela desperta a emoção do sujeito, sobretudo a indignação, e arrebata com o sentimento dele. Uma vez tocada na emoção, às vezes, a emoção negativa, se dá a divisão e a polarização que a sociedade atual vive. Neste sentido, a fake news faz um mal tremendo”, afirma.

Assim, padre Márcio Paiva explica que a filosofia tem o papel de, como guardadora de lugares (do bem comum, da paz, da verdade), ter o discurso crítico para trazer à tona aquilo que é. Não é por acaso que Aristóteles a chamava de “ciência da verdade”. “Verdade em grego é aleteia, que significa não ocultamento. Portanto, a verdade é um processo constante de desocultamento, de desvelamento.” Agora, na sociedade em que vivemos, as comunicações são tão rápidas a ponto de anular o lugar do diálogo. Ele costuma dizer que dialogar não é tanto buscar a razão, argumentar, ouvir o outro. É mais do que isso. “O exercício mais originário do diálogo é tentar entrar no horizonte do outro. E quando compreendemos o lugar de fala do outro, o horizonte do outro, nós valorizamos o outro como o outro.”
 
 
(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 

"O mundo de hoje é de múltiplas linguagens, de tal modo que é preciso, é urgente, reaprender a dialogar, reaprender a reconhecer o outro”

Padre Márcio Paiva, 
professor e chefe do Departamento de Filosofia da PUC Minas

 
 

DESINTELIGÊNCIA 


Infelizmente, de fato, enfatiza Márcio Paiva, na sociedade de hoje reina o que ele denomina de uma “espécie de desinteligência”. Bastou ver algo nas redes sociais que é verdade, já se toma uma posição e aquilo se multiplica: “Esta desinteligência da rapidez dos bytes faz com que as pessoas não se entendam mais. O mundo de hoje é de múltiplas linguagens, de tal modo que é preciso, é urgente, reaprender a dialogar, reaprender a reconhecer o outro”.

O professor instiga: por que reconhecer o diferente é tão difícil assim? “Em meio à diferença há algo que nos une, que é a própria humanidade, que é o fato de viver, de estar na mesma nação, no mesmo país, no mesmo chão, no mesmo tempo, numa mesma época. Será que isso não basta para nos unir?”

Para Márcio Paiva, a desinteligência leva as pessoas a tomarem atitudes muito rápidas e precipitadas. E, por vezes, violentas. Segundo ele, a filosofia questiona e tem de questionar constantemente sobre a verdade dos fatos e das coisas. Com a diferença que não está buscando poder ou manutenção do status quo, mas ela é crítica. E com outra diferença, a filosofia não se fecha em um discurso ideológico.

Para o convívio saudável existir harmonicamente, é preciso que todos saibam não só conversar, mas aceitar argumentos contrários, ouvir, mudar de opinião, concordar ou discordar e seguir em frente, não evitando o conflito, mas sem perder a perspectiva de que opiniões diferentes, divergentes são salutares, ne- cessárias. No entanto, diante do caos mundial causado pela COVID-19, a perversidade das notícias falsas, a comunicação violenta e falas carregadas de impaciência, desconhecimento, ausência de bagagem intelectual e cultural, somados à intolerância e ao descaso ao direito do outro, fazem do diálogo na sociedade brasileira uma torre de babel, ninguém se entende. Todos têm perdido. Como sair deste imbróglio?

É preciso aprender a ouvir de quem você discorda, não gosta ou desconfia. Marshall Rosenberg, psicólogo norte-americano e criador da comunicação não violenta, disse que toda agressão é uma expressão trágica de uma necessidade não atendida. Centrada no próprio umbigo, as pessoas decidiram se aconchegar perto de quem tem opiniões semelhantes e não se aproximar daquelas que pensam de forma contrária. A maioria não aceita ser contrariada na percepção de suas vontades, desejos, quereres, ideias e ideais. Assim, com olhos e ouvidos fechados, todos caminham para o lugar da intransigência, empacados em si mesmos. Pior para todo mundo. Um cabo de guerra sem vencedores e com vários feridos.

A filósofa, professora e escritora Marcia Tiburi, em seu livro Como conversar com um fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro, de 2015, em um dos capítulos alerta: “(...) falamos muito e pensamos pouco no que dizemos. (...) Seguimos deixando de lado a potencialidade de compreender (...)”. E continua: “(...) Entre uma ilha e outra onde deveria haver pontes, há todo tipo de escombros. (...) Como não conseguimos falar com o outro, falamos apenas para nós mesmos, aumentando a tagarelice e a produção de lixo linguístico. Falamos para nossos pares. Conversamos o mais do mesmo com quem pensa como nós. Isso acontece quando não somos contrariados, quando confirmamos o que já sabíamos. Saímos felizes de uma conversa em que somos contemplados narcisisticamente porque o outro, com se espelho opaco, nunca nos apareceu”.

Neste cenário, com poder viral e de persuasão, as notícias falsas (fake news) são um dos grandes obstáculos e desafios para a atual sociedade. Não há uma comunicação assertiva, principalmente, para lidar com a pandemia. A produção de notícia falsa se transformou em um mercado alimentado por pessoas influentes, poderosas e de interesses escusos. Com grande domínio da tecnologia, este crime é protegido pela dificuldade de rastreamento de quem contrata o serviço e de quem o executa. A legislação brasileira ainda não tem punição exclusiva. Está no Senado o projeto de lei contra as fake news (PL 2.630/2020), mas o texto encontra diversas resistências e ainda não foi votado.

Assim, a sociedade fica jogada à própria sorte, com níveis discrepantes de entendimento e percepção do que é fato real e fato inventado. Determinado o caos, salve-se quem puder. O lado bom é que sempre há um caminho, um desvio, uma esquina, um ponto de parada que jogará luz sobre a verdade. Basta querer buscar, se dar ao trabalho de pesquisar, informar-se em fontes comprometidas com o direito à fala de todos e para todos.
 
 
 
 Ausência de debates entre amigos e familiares

Narrativas em desarmonia. É importante estar atento à confusão entre conversar, dialogar, enfrentar as críticas necessárias e o ato de brigar ou destilar ódio ao outro quando se discorda. É preciso cuidar da palavra e da fala


(foto: Gerd Altmann/Pixabay)
(foto: Gerd Altmann/Pixabay)
 
O fracasso na comunicação, a dificuldade de as pessoas engendrarem uma conversa saudável e profunda surge do desencontro entre as palavras. É a interpretação da psicanalista e escritora Inez Lemos ao apontar que vivemos uma guerra de discursos, falas dissonantes, narrativas em desarmonia. Talvez esse desastre ao nos expressar possa ser explicado, segundo ela, pela ausência de debate entre amigos e familiares. Há uma confusão entre conversar, dialogar, enfrentar as críticas necessárias, e o ato de brigar ou destilar ódio ao outro quando ele discorda ou nos critica.

Para Inez Lemos, o ato de as pessoas estarem sempre priorizando conversar no lugar de atacar precisa ser mais cultivado nos lares brasileiros. “Muitos jovens não suportam ser criticados, ficam ressentidos, magoados. O que revela a falta de treino, hábito da boa arte de conversar. Versar sobre um assunto ou receber críticas a uma atitude inadequada. O conflito é salutar, é ele que propicia o avanço da reflexão, sem ele ficamos estagnados, cristalizados na falsa crença de que estamos sempre certos.”

Conforme a psicanalista, a educação doméstica que não exercita o debate na lógica dialética – quando parte do princípio de que há uma tese, uma ideia que deva ser checada, questionada, para, somente depois, a mesma se tornar verdadeira –, momento em que se faz a síntese, peca na consistência de argumentos. Ela ressalta que, embora a verdade não deva ser vista como algo absoluto, uma vez que ela depende de vários fatores, o importante é criar, entre os filhos, o hábito da boa conversa, o mecanismo de se questionar, como também ensiná-los a questionar o que leem. Principalmente em época de fake news.

Inez Lemos ensina que, quando a criança cresce num ambiente favorável às críticas, sem medo de debater, errar ou acertar, quando a perspectiva é a formação do pensamento crítico e consistente, haverá seres humanos mais seguros: “Gente que terá mais facilidade em se defender dos falsos profetas, os impostores da pós-modernidade”.

Contudo, para que essa prática ocorra, ela recomenda aos pais inserirem os filhos no ato de ler desde cedo. O amor aos livros surge do hábito da leitura. E esse acontece, geralmente, quando a criança presencia os pais envolvidos, cultuando litera- turas. Como, também, quando esses leem para os filhos desde crianças. “O amor às letras, ao contar histórias, é um aprendizado. Diz da cultura familiar. Como testemunhou Jorge M. Borges: ‘O maior acontecimento de minha vida foi quando descobri a biblioteca de meu avô’.”

A psicanalista enfatiza que muita coisa interessante pode-se fazer com as pa- lavras. Desenvolver o gosto em comentar as leituras, filmes, enfim, famílias que cultuam o ambiente das letras, da boa leitura com certeza estarão educando futuros bons cidadãos e bons profissionais. Lendo, aprendemos a pensar, a escrever e a falar. Livros, filmes e teatros de qualidade são eternos antídotos ao obscurantismo, à ignorância e à prática do pensamento fraco, falso, equivocado. E que tanto tem feito mal ao Brasil. Ela sugere aproveitar o isolamento social e desenvolver nos filhos o hábito de nutrir a alma com o simbólico, abandonar a linguagem técnica e mergulhar nas metáforas literárias.
 
 
 
(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press %u2013 7/2/20)
(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press %u2013 7/2/20)
 
 
"O conflito é salutar, é ele que propicia o avanço da reflexão, sem ele ficamos estagnados, cristalizados na falsa crença de que estamos sempre certos”

Inez Lemos,
psicanalista 

 
 
DESAFIOS DA SOCIEDADE 

Por outro lado, Inez Lemos lembra que a comunicação com a sociedade, em qualquer regime político, sempre foi um desafio por se tratar de matéria que envolve interesses divergentes. “Difícil haver uma hegemonia, mas sempre teremos que descobrir formas de questionar, pesquisar e refletir sobre as narrativas, os discursos que tentam nos dirigir. A única estratégia de nos defender de discursos manipulados, desonestos, sem ética e carregados de interesses privados, que fogem dos interesses da comunidade envolvendo aspectos públicos, é por meio de estudos.”

A psicanalista alerta que a saída é estudar, educar, questionar, refletir, pensar, repensar e elaborar. “Eis o caminho seguro contra as fake news, contra teorias conspiratórias, falas equivocadas.” Ela reforça a importância não só de combater as fake news, como também despriorizar uma educação politizada, ampla, questionadora, democrática e comprometida com os interesses da maioria. “Palavra, escrita, linguagem, mensagem – são elas que nos fazem, nos formam e nos marcam desde pequenos. O que reforça a importância de os pais cuidarem das palavras, do que vai dizer ao filho, do que o deixa ouvir, ver, sentir. Somos um pouco disso tudo, são essas impressões que nos compõem. Se queremos educar bem um filho, uma nação, devemos cuidar das palavras, das escritas e das falas.”

Guia prático

Como conversar com quem pensa muito diferente de você?

1 – Escute atentamente, sem interromper: O que nem de longe significa concordar com a opinião do outro. Escutar é uma habilidade essencial para bons diálogos. Treine olhando nos olhos, sem mexer no celular ou fazer expressões de desdém. Caso seja interrompido em sua vez, peça com gentileza e firmeza para que o outro  aguarde você finalizar seu ponto

2 – Rebobine a fita: Após escutar a outra pessoa, experimente dizer o que interpretou ter sido a fala dela e cheque se é isso mesmo que ela quis expressar, antes de avançar com sua resposta. Assim, evitamos assumir o que o outro quis dizer e eliminamos ruídos desnecessários. Isso mostra que prestamos atenção e que há real interesse numa conversa de qualidade.

3 – Elogie seu opositor quando fizer sentido: Valorize os pontos nos quais concorda com a outra pessoa. Um território em comum, por menor que seja, enfraquece a noção de que são inimigos mortais. Mas evite elogios excessivos. Isso pode criar a impressão de que está tentando manipular a outra pessoa.

4 – Tente compreender e validar as necessidades centrais da outra pessoa: Fazer perguntas é um ótimo jeito de fazer isso. Segue um exemplo prático: “Então, você está tentando dizer que igualdade salarial entre homens e mulheres é o ponto central de nossa conversa para você?”

5 – Antes de responder, respire: Diálogos construtivos são mais como cerimônias de chá e menos como uma partida de tênis. É normal respirarmos de modo mais curto e tenso em conversas duras. Respirar oxigena seu corpo e oferece tempo para escolher as palavras.

6 – Evite ironias, sarcasmo e linguagem corporal fechada: Quanto mais fechado e agressivo você fica, mais a outra pessoa tende a acompanhar esse comportamento.

7 – Assuma responsabilidade por suas emoções: “Eu me sinto assim quando você age de certa maneira” é bem melhor do que “você fez que com que eu me sentisse assim”. Na primeira frase, você assume que a emoção é sua. Na segunda, você culpa e acusa o outro.

8 – Não tenha vergonha de falar não sei: Voltar atrás quando necessário e fazer perguntas bobas: quando temos coragem de nos colocar vulneráveis, a tendência da outra pessoa a agir parecido é maior.

9 – As pausas sábias: Caso o diálogo se torne agressivo demais ou pouco construtivo, considere seguir a conversa em outro momento. Assuma que não está bem, peça desculpa e diga que seria melhor dialogarem em outras condições. Sugerir uma nova data, se daqui a uma hora ou daqui alguns dias.

Habilidades e atitudes 
que todos podem treinar

1 – Desenvolver mais equilíbrio emocional
2 – Comunicar de modo menos violento
3 – Cultivar empatia pelo outro
4 – Evitar posturas radicais
5 – Pedir desculpas quando for agressivo
6 – Estudar e melhorar os seus argumentos
7 – Não ter vergonha de admitir que não sabe algo e fazer perguntas

FONTE: Pesquisa feita pelo Instituto Avon e o site Papo de Homem em todas regiões do país para diagnosticar os maiores obstáculos dos brasileiros na hora de interagir com outras pessoas quando o assunto é gênero. No entanto, as ponderações são válidas para qualquer conversa, sobre qualquer assunto.

 
 
Argumentação propositiva

Notícias falsas sempre foram produzidas pela sociedade. A distorção de fatos e a desinformação são, historicamente, uma postura dos seres humanos para desestabilizar e desorganizar a vida coletiva

 (foto: John Iglar/Pixabay)
(foto: John Iglar/Pixabay)


O debate sobre a responsabilização dos que criam e propagam notícias falsas está em pauta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no Supremo Tribunal Federal e no Congresso. Enquanto o Brasil aguarda a decisão final, a sociedade tem de lidar com as fake news assustadoramente quando se trata da saúde, das informações reais e mentirosas a respeito do novo coronavírus. Ricardo Castro, psicólogo e professor do curso de serviço social da Estácio, antes de mais nada, lembra que sem uma comunicação assertiva, séria, compromissada e com argumentos embasados nas instâncias referências para o combate à pandemia, tenderemos a fracassar no enfrentamento à COVID-19. “A comunicação deve ser clara, precisa, transparente e embasada técnico-humano-cientificamente para que possamos garantir o fim dessa experiência terrível para toda a sociedade, garantindo um maior número de sobreviventes.”

Ricardo Castro reforça que a possibilidade de falar e ser ouvido e, consequentemente, construir uma relação de troca com as outras pessoas é constituinte da condição humana. Somos seres de linguagens e, dessa forma, o diálogo, compreendido enquanto troca de ideias, conversação e interação, é fundamental para que possamos manejar conflitos, antagonismos, diferenças e, também, conexões, aproximações e consensos. “O diálogo é um dispositivo central na solidificação de uma sociedade democrática, uma vez que ele potencializa o movimento dos pensamentos, das ideias, das reflexões, das críticas e das autocríticas.”

Em momentos de crise tão severos, como esse da COVID-19, o diálogo, sobretudo, informacional, é de extrema importância porque ele ganha, neste contexto, um status preventivo e educador. “Em casos emergenciais, com a ameaça do novo coronavírus, as divulgações informacionais das condições da vida real das populações são importantes para que os órgãos responsáveis tomem medidas mais eficazes de prevenção e combate e para a conscientização da população.”

Longe de ser, apenas, conversas casuais, as trocas humanas, diante de uma pandemia, ganham um caráter de produção da vida. Ele lembra que o caos já está instalado no mundo. Não há como fugir. A fala, o diálogo e as conversas devem servir para que todos encarem a realidade, evitando o negacionismo, mas, atentando-se para como é possível ultrapassar essa história seguindo todos os cuidados individuais e coletivos necessários.
 
 
(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 
Para viver em coletivo não é preciso que nós pensemos iguais, mas é preciso que possamos encontrar eixos comuns respeitáveis para que possamos exercer a nossa diferença na mesma sociedade”

Ricardo Castro, 
psicólogo social, professor da Estácio
 
 
FATOS HISTÓRICOS 

Na análise do psicólogo e professor, as narrativas negacionistas, revisionistas e relativistas de questões, problemas e situações humanas graves, importantes e marcantes são uma característica histórica da sociedade. Ele destaca que há vários exemplos de fatos históricos e contextos que tiveram as suas tragédias diminuídas e/ou desconsideradas, sobretudo, por grupos e setores políticos, econômicos e religiosos que, por diversos motivos, tentam relativizar uma questão a ponto de banalizá-la enquanto um problema da sociedade.

Ricardo Castro enfatiza que as notícias falsas sempre foram produzidas pela sociedade. O fato é que agora, em função dos processos da evolução da própria lógica comunicacional, que, ao longo dos anos, tem facilitado o acesso, o consumo, a divulgação, a criação e compartilhamento de informações por meio das mídias virtuais, temos que lidar com a proliferação em nível global. “E é certo que, em um país desigual como o Brasil e com um letramento digital ainda muito problemático, as pessoas consomem e divulgam notícias falsas sem crítica e sem checar a qualidade das informações. No entanto, há aqueles que sabem bem desse potencial desinformativo, mas, ainda assim, criam e divulgam com fins perversos de confundir e desinformar a sociedade, visando obter algum tipo de vantagem”, afirma.

O professor lembra que o conflito e o antagonismo são constituintes de qualquer sociedade onde se defenda a pluralidade de ideias e posições. O problema, em se tratando de Brasil, foi quando a diferença de posição começou a ser utilizada para a impossibilidade da conversa e não para fomentar uma disputa argumentativa em torno das distintas visões de mundo que existem.

Se pensamos, radicalmente, diferente, devemos ter a capacidade crítica de apresentar visões distintas e argumentar sobre elas. “Nos últimos anos no Brasil, o que houve não foi um aumento do conflito – que é constituinte da nossa história – mas uma naturalização de polos opostos. Isto é, uma polarização pouco aberta ao crivo do argumento. Veja bem: para viver em coletivo não é preciso que nós pensemos iguais, mas é preciso que possamos encontrar eixos comuns respeitáveis para que possamos exercer a nossa diferença na mesma sociedade.”

Para Ricardo Castro, a tragédia brasileira atual é que temos negado o potencial transformador do argumento e da crítica para sustentar uma posição bélica acusatória e pouco propositiva. “Acredito que o grande balizador de um bom posicionamento é a possibilidade de esse posicionamento estar aberto à crítica e à sua potência argumentativa. E para que uma comunicação, de fato, ocorra, devemos partir do pressuposto de que o conflito e a divergência não são um problema por si só.”






Como saber se uma notícia é falsa?

1 – Fique com um pé atrás com as tais correntes de WhatsApp, principalmente aquelas que não citam fontes.

2 – Checar informações em meios de comunicação tradicionais. Use o Google. Se uma corrente de WhatsApp faz uma revelação bombástica que não se encontra em nenhum veículo de comunicação (jornais, sites ou revistas), talvez seja a hora de começar a desconfiar da veracidade da notícia, não é mesmo? O mesmo vale para notícia em blog ou site. Pesquise.

3 – Ficar atento à identidade do autor da postagem ou do texto que se está lendo. Quem é essa pessoa? Para quem ela trabalha? O que é esse site ou blog para quem essa pessoa escreve? Será que esse veículo (blog, site) tem credibilidade?

4 – Fique atento às datas. É comum notícias que não são fakes, mas são antigas. Convém abrir a notícia e verificar a data em que ela foi escrita. Isso pode evitar sérios equívocos.

5 – Antes de compartilhar, checar. Você é responsável por aquilo que compartilha.

6 – Felizmente, há gente disposta a combatê-las. Há agências que checam a veracidade das informações veiculadas na internet. Algumas delas:

» Fake Check: nilc-fakenews.herokuapp.com
» Agência Lupa: piaui.folha.uol.com.br/lupa
» Fato ou fake: g1.globo.com/fato-ou-fake
» Agência Pública – Truco: apublica.org
» E-Farsas: www.e-farsas.com
 
 
Consequências das fake news

1 – Linchamento de inocentes (justiça com as próprias mãos)
2 –Prejudica a saúde pública (Ex: movimentos antivacinação. Pessoas contrárias disseminam notícias falsas de que a vacina faz mal e criam resistência, colocando a população em perigo)
3 – Homofobia
4 – Preconceito
5 – Xenofobia
6 – Legitimação da violência
7 – Propagação de mentiras difamatórias
8 – No campo político, risco à democracia
 
 

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