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Estado de Minas

Visibilidade trans

Conheça histórias de jovens e adolescentes que lutam para ter liberdade de viver no gênero com o qual se identificam, com o apoio dos pais e a ajuda da medicina


postado em 08/03/2020 04:00 / atualizado em 07/03/2020 23:03

Ailim Cabral
 
 
 
Maria Eduarda com uma foto da época em que ainda era chamada de João VictorMaria Eduarda com uma foto da época em que ainda era chamada de João Victor(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Maria Eduarda com uma foto da época em que ainda era chamada de João VictorMaria Eduarda com uma foto da época em que ainda era chamada de João Victor (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

Quem sou eu? Essa é uma pergunta que praticamente todo mundo já se fez em algum momento da vida. São diversos os motivos que nos levam ao questionamento de nossa identidade. Para algumas pessoas, porém, as dúvidas vão além das filosóficas e têm a ver, literalmente, com o que elas veem no espelho. É a chamada transgeneridade.

Por definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de uma “incongruência de gênero acentuada e persistente entre o gênero vivido pelo indivíduo e aquele atribuído em seu nascimento”. Ou seja, pessoas transgêneras são aquelas que não se identificam com o sexo biológico no qual nasceram – condição cercada de tabus e preconceitos, que acabam causando confusão e dificuldade de aceitação da própria identidade em crianças, adolescentes e adultos.

Especialista no tema e pioneiro no Brasil, o psiquiatra Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (Amtigos) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), explica que a identidade de gênero, seja ela trans, seja cisgênero, se estabelece nas crianças em torno dos 4 anos. “Por volta dessa idade, elas iniciam uma confirmação, por meio de perguntas sobre ser menino ou menina, e uma busca pela validação dos pais.”

Para o especialista, diversas crianças e jovens percebem, desde muito cedo, que há algo de diferente neles mesmos, muitas vezes sem conseguir compreender – uma vez que o tema ainda é tratado como tabu e tem pouca visibilidade. Esse foi o caso de Maria Eduarda Maia Gomes Pereira, de 13 anos. Duda, como hoje é chamada, nasceu João Victor, mas, por volta dos 2 anos, os pais perceberam que a criança se aproximava muito mais de tudo relacionado ao universo feminino do que ao masculino.

A mãe, a professora Patrícia Maia Gomes Pereira, de 50, se lembra de que, quando a filha começou a falar, dizia que queria ser igual a ela – e não ao pai –, além de sempre preferir os brinquedos e brincadeiras típicos de meninas.

Quando Duda tinha cerca de 4 anos, os pais, percebendo que a criança sofria, a levaram ao psicólogo. “No início, achávamos que ela era um menino que seria gay, e estávamos tranquilos com isso, nunca foi um problema”, explica Patrícia. A procura pelo profissional foi motivada porque, mesmo tendo toda a liberdade para se expressar, brincar e vestir o que quisesse em casa, Patrícia e o marido percebiam que Duda continuava angustiada, e não conseguiam ajudá-la.

As consultas não tiveram muito resultado, os profissionais diziam que era muito cedo para definir questões de sexualidade e diziam que a identificação com a mãe era normal em crianças mais novas. Quando Duda tinha 8 anos e estava no terceiro psicólogo, os pais perceberam que ela sofria por não se encaixar em papéis que eram esperados “dele (João Victor)” socialmente, e viam a sua frustração.

REPRESENTATIVIDADE 

Na época em que era João Victor, Duda chorava ao usar roupas “de menino” e não gostava do próprio nome. Patrícia conta que, apesar de se preocupar com o preconceito e a violência do mundo exterior, em casa deixavam claro que a filha podia ser quem quisesse, mas nem Duda nem os pais estavam familiarizados com a transexualidade.

Um dia, quando Duda tinha entre 9 e 10 anos, viu uma personagem trans em uma novela e disse: “Eu acho que é isso que eu sou, mamãe”. Nesse momento, Patrícia conta que foi pesquisar, viu uma reportagem do médico Dráuzio Varella e pensou: “Matamos a charada, ela é trans!”.

Depois disso, a família passou a compreender melhor o processo, ler, se informar e iniciar o processo para que a filha pudesse ser, por fora, quem ela sempre foi por dentro. “Vemos a necessidade de falar sobre isso, contar nossa história. A Duda sofreu muito, e nós também, porque não tínhamos conhecimento, informação, não se ouvia falar sobre isso.”

LEIA MAIS SOBRE VISIBILIDADE TRANS
Páginas 3 e 4



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