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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

Ressignificar o lixo

Projeto de construção de presépio coletivo feito a partir de descartes é aberto ao público e convida comunidade a refletir sobre a responsabilidade de cada um na sustentabilidade


postado em 24/11/2019 04:00

A participação no projeto transformou a vida da italiana Maria Monda, que diz ter aprendido o valor da reciclagem (foto: Fotos: Jair Amaral/EM/D.A Press)
A participação no projeto transformou a vida da italiana Maria Monda, que diz ter aprendido o valor da reciclagem (foto: Fotos: Jair Amaral/EM/D.A Press)


Hoje é o último dia de oficinas do projeto Presépio Coletivo Casa Fiat, edição 2019, mas ano que vem tem mais. Aliás, tanto para quem participa da transformação de descartes em peças de arte quanto para os que visitam o presépio, em exposição a partir de quinta-feira (28), o legado permanece o ano inteiro. “Há cinco anos, estou no projeto. Nas oficinas, trabalhamos com material de reciclagem, recuperação, embalagens descartáveis, em muito inspirados também na coleta seletiva”, destaca Léo Piló, artista plástico especialista em resíduos urbanos na construção de arte e cenografias. “Vejo na coleta seletiva, reciclados e ressignificados uma grande oportunidade de novos suportes para os trabalhos artísticos – seja no Natal, no carnaval, no teatro, na decoração e em muitos outros meios. Com esse tipo de iniciativa, tocamos as pessoas para a importância da destinação correta do lixo, para uma visão mais sustentável e em acordo com as demandas e a qualidade de vida do planeta”, afirma o artista.

A professora italiana Maria Monda mudou-se para BH em 2015 e, por meio da web, soube da oficina de Presépio Coletivo. “Sou de Nápoles, cidade famosa pelos presépios, mas foi aqui no Brasil que vi uma maneira diferente de montar o símbolo natalino com coisas que a gente geralmente jogaria fora”, conta.

Ela destaca, ainda, o caráter colaborativo do projeto, e lembra que o artista e professor Léo Piló “recebe com muito carinho a sugestão dos participantes para a construção da obra”. Mas foi mesmo a questão da reciclagem e ressignificação de objetos, o papel ambiental, que tocou Maria e levou transformações para a vida dela. “Nas oficinas e após, com o resultado final, percebi como a gente não presta atenção no descarte de muitas coisas, que, nas mãos certas, são aproveitadas, geram renda e mesmo artefatos incríveis, a ponto de estar em museus. E olha que nem sou artista, mas aprendi que, por meio da criatividade e das manualidades, é possível criar coisas incríveis. Durante a exposição, é emocionante ouvir os colegas dizendo ‘fiz aquele pedacinho’. É uma sensação maravilhosa e transformadora.”
 
Grupo de voluntários trabalha com matérias-primas recicladas na montagem do presépio coletivo. Abaixo, o resultado do ano anterior
Grupo de voluntários trabalha com matérias-primas recicladas na montagem do presépio coletivo. Abaixo, o resultado do ano anterior
 
PEQUENAS AÇÕES 

Segundo a professora, a participação no projeto “mudou totalmente a perspectiva em torno dos descartes”. Ela cita a embalagem tetrapak (caixinha de leite) como exemplo. “Com uma caixinha, você pode criar flores, estrelinhas e muitas outras formas. Daí, pensa duas vezes antes de jogar no lixo e lembra de sempre fazer a limpeza, pois aquele material pode ser reaproveitado! O Léo sempre reforça também a importância e o papel dos catadores, além de ações para que cada um de nós tente diminuir o uso do plástico e outras matérias-primas poluentes. Eu, por exemplo, já não uso canudinhos. Levo a sacola reutilizável para as compras e privilegio sempre produtos de embalagem reutilizável. A iniciativa realmente trouxe mudanças de hábitos que amadureci. E foi lá que aprendi e adotei essa nova versão. Agora, acredito que um pouco que cada um fizer já faz diferença para a construção de um mundo melhor.”

Orgulhoso do resultado desses cinco anos de trabalho e já com saudade das oficinas, Léo Piló reforça o cunho transformador da ideia de reaproveitar e ressignificar descartes. “Seguimos crescendo, tocando mais pessoas, engajando e sensibilizando a população sobre as possibilidades da reciclagem, na arte e em outros meios. E isso é urgente porque, de forma geral, o Brasil recicla apenas 3% do lixo gerado. Os dados são alarmantes e o volume de coleta ainda é extremamente baixo. Convido todos para uma visita aos seis presépios que foram produzidos este ano e a repensar a atitude individual diante do descarte. O mundo fica mais bonito, e agradece”, encerra.
 
(foto: leo lara/divulgação)
(foto: leo lara/divulgação)
 

"Convido todos para uma visita aos seis presépios que foram produzidos este ano e a repensar a atitude individual diante do descarte. O mundo fica mais bonito, e agradece”
Léo Piló, artista plástico especialista em resíduos urbanos na construção de arte e cenografias
Consumo e descarte


 CONSUMO E DESCARTE
Veja dados publicados pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) no Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil. Os dados são de 2017 e revelam que o Brasil produz 214.686 toneladas de resíduos sólidos urbanos por dia, o que equivale a pouco mais de 1 quilo de lixo produzido por habitante;

Na data da pesquisa, 59,1% do lixo coletado foi depositado em aterros sanitários, enquanto 40,9% foram despejados em locais inadequados, como aterros controlados e lixões;

Mais de 58 milhões de toneladas de resíduos sólidos foram descartados em locais impróprios;

Os números não incluem os resíduos de serviços de saúde nem de logística reversa de reciclagem, como o descarte de pilhas, baterias, lâmpadas, pneus e embalagens de defensivos agrícolas, por exemplo;

Por outro lado... 

Entre os 5.570 municípios brasileiros, 70,4% contam com algum tipo de iniciativa de coleta seletiva, sendo a Região Sul a detentora da maior cobertura, com 90,5% dos municípios com coleta seletiva.

LEMBRE-SE: Enquanto o papel e o papelão são decompostos em até seis meses, a madeira pintada leva 13 anos para ser absorvida pela natureza. O tempo de decomposição de certos tipos de plásticos e das embalagens tetrapak podem levar mais de 100 anos.
n Saiba a mensagem simbólica 
de cada um dos presépios: 

» Bambu: esperança e luz
As múltiplas possibilidades de uso do bambu, combinadas ao seu potencial sustentável, o transformam em uma referência do reaproveitamento de materiais recicláveis. Disponível em abundância na natureza, o bambu protege outras árvores, não compromete o meio ambiente, tem desperdício mínimo, é altamente maleável e dispensa tratamentos químicos.

» Tetrapak: fé 
O consumo dos produtos envasados com embalagem tetrapak faz parte do dia a dia de grande parte das pessoas. Confeccionar um presépio com base nesse material tem a proposta de possibilitar um novo olhar sobre o seu uso e a sua destinação. Na instalação, a tecnologia inovadora presente no tetrapak inspira uma cena futurista que ilustra a Sagrada Família, símbolo de fé. A cor prata escolhida para essa instalação remete à espacialidade e às estrelas, em alusão às conquistas humanas atuais e futuras.

» Papel: paz
O papel aceita tudo, já diz o dito popular. O presépio colaborativo inspirado em origamis terá a missão de suavizar essa máxima e chamar a atenção para o uso desse material. A cor branca foi escolhida para representar essa cenografia devido ao aspecto mais comum de apresentação do papel e com mais valor na cadeia da reciclagem. O branco simboliza respeito, generosidade e, sobretudo, a paz. Para a curadoria, é uma bandeira silenciosa, que combina leveza com disciplina e organização. O papel branco é, ainda, catalisador de novas ideias e inspira a renovação

» Papelão: família
O papelão tem alto índice de reaproveitamento e valor agregado, o que faz dele um importante aliado na preservação do meio ambiente. Na coleta seletiva, o papelão é bastante procurado, principalmente por corporações especializadas em reciclagem. Grande parte do que é produzido pelas empresas, dos mais variados ramos, é distribuída e comercializada em uma caixa de papelão. O caráter de proteção do papelão remete ao cuidado e ao zelo, assemelhando-se à função primordial das famílias, a do acolhimento. A cor craft mantém a essência e a originalidade do material que, nessa instalação natalina, ganhará formato de montanhas.

» Plástico: caridade
Altamente sintético, o plástico é polímero produzido a partir do petróleo. São tipologias diversas, algumas delas recicláveis, outras não. Dar visibilidade ao perfil multifacetado do plástico e ao seu efeito nocivo para o meio ambiente é o objetivo dessa instalação. A imagem da Sagrada Família será recriada com a aplicação de pedacinhos de objetos plásticos. A curadoria espera que o público seja seduzido de tal forma a não ter a coragem de descartar o plástico. A palavra associada a esse material é a caridade, que se relaciona com o meio ambiente. E, para marcar a dramaticidade presente na sedução desse material, a cor escolhida é a vermelha, em referência ao alerta, ao cuidado, ao perigo

» Madeira: humanidade 
A madeira é um material orgânico que testemunhou grandes triunfos da humanidade e está na base de invenções importantes. A relação entre o uso da madeira e as civilizações é histórica e, por isso, a humanidade foi a palavra escolhida para representar esse presépio colaborativo. O tom natural, a cor crua, será a referência principal dessa instalação. Na composição, serão empregados objetos que foram úteis um dia e, após destacados, ganharão uma nova funcionalidade


SERVIÇO

» Abertura:  28 de novembro

» Conceito: exposição das seis cenografias natalinas construídas coletivamente a partir do uso de diferentes materiais reaproveitáveis: plástico, papel, papelão, tetrapak, madeira e bambu

» Curadoria: Leo Piló

» Objetivo: prestar homenagem à coleta seletiva, trazer novas possibilidades para a reciclagem e incentivar as pessoas a ter uma nova visão sobre a vida e o consumo

» Matéria-prima utilizada: reciclados e cedidos pela Ilha Ecológica da Fiat, área de triagem e armazenamento de resíduos sólidos que funciona dentro da fábrica da Fiat, em Betim. Entre os materiais disponibilizados estão tambores, paletes e fitas de arquear de plástico e de metal, além de amostras variadas de plásticos coloridos


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