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Poeta compartilha a dor e a delícia do primeiro filho

Mônica de Aquino relembra a emoção de ouvir o coração da bebê, a gravidez de risco e o parto prematuro até a explosão de amor ao ter Manu nos braços


postado em 12/05/2019 09:00 / atualizado em 12/05/2019 10:18

Mônica de Aquino, poeta, com a filha Manu, de 9 meses: 'A maternidade é uma tarefa que deve ser compartilhada (acolhida) pela comunidade. Há a dimensão solitária e incomunicável, de renascimento, de reinvenção diária. Mas também a necessidade de partilha, de encontro, de que crianças sejam assumidas como um compromisso de todos' (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press )
Mônica de Aquino, poeta, com a filha Manu, de 9 meses: 'A maternidade é uma tarefa que deve ser compartilhada (acolhida) pela comunidade. Há a dimensão solitária e incomunicável, de renascimento, de reinvenção diária. Mas também a necessidade de partilha, de encontro, de que crianças sejam assumidas como um compromisso de todos' (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press )


O antes e o depois de se tornar mãe. Somente a mulher que escolhe gerar um filho é capaz de falar sobre a grandiosidade de colocar no mundo um ser de raiz eterna. Um laço que não se desfaz. A poeta Mônica de Aquino, de 40 anos, mãe de Manuela, a Manu, de 9 meses, confessa que ser mãe nunca foi um sonho: “Antes, era uma vontade meio difusa, misturada com curiosidade e dúvida. Acreditava que a tendência era eu não ser mãe, e estava (ou achava) tranquila com esse caminho. O desejo de ter um filho só se mostrou com clareza para mim em 2017, como parte de um desejo que não era só meu: quis ter um filho com o Gustavo, meu namorado à época, hoje meu marido, amigo há algum tempo. Ele, sim, tinha claro o sonho de ser pai. Aos poucos, e sem que eu percebesse direito, antes até do namoro, o sonho dele virou nosso. Quando decidimos tentar a gravidez, tudo aconteceu tão rápido, e o que seria um novo sonho já se impôs como realidade, desse tipo que absorve e muda tudo, inclusive o tempo, o próprio passado, o que se sabe de si”.


Para quem acredita, estava no destino. E a percepção de mulher grávida e transformada viria aos poucos. Para Mônica, como tudo foi tão rápido, ao saber da gravidez a primeira sensação foi de irrealidade. Ela conta que namorava há pouco tempo, mas um conjunto de fatores levou a sua médica à ideia de que poderia ser difícil engravidar. Nas surpresas da vida, “engravidei 15 dias depois de tirar o DIU. Acho que sei o dia: e aqui começam as transformações, uma percepção aguda do corpo que eu desconhecia. Eu soube que estava grávida, senti a ovulação, as primeiras mudanças nos seios, na barriga, na disposição física. E eu mesma desacreditava das impressões. Tento ser um tipo mais racional, era estranho estar nesse outro fluxo”.

Mônica revela que a gravidez muda muito a percepção do corpo. Há toda a beleza da barriga, de saber dentro do você o feto, mas há também uma série de limitações. “‘Gravidez não é doença’, insistem em dizer, muitas vezes como cobrança para que a gente siga dando conta de tudo da mesma forma. Mas, muitas vezes, parece doença. Ou parece exigir o mesmo tipo de recolhimento e recuperação que o adoecimento exige. São vários os ‘sintomas’. O que mais pesou pra mim, no início, foi o cansaço. Ao mesmo tempo, esperar pelo filho, senti-lo, sonhá-lo, ser parte de algo que transcende você, tudo isso traz uma outra força e alegria. Adorei estar grávida – pelo menos até descobrir a pré-eclâmpsia e ter de lidar com o tratamento.”

Houve um incidente na gravidez de Mônica. Quando descobriu a pré-eclâmpsia, ela precisou de uma série de remédios e injeções, além de repouso. A bebê nasceu com baixo peso, mas sem nenhum problema de saúde. Precisou ficar no hospital por um mês, afastada dos pais a maior parte do tempo, em um período de constante apreensão, espera e cuidado. Marinheira de primeira viagem, ela precisou viver a dor e a alegria ao mesmo tempo: “Foi solitário. Mesmo com pessoas à minha volta, tudo parecia incomunicável depois do nascimento da Manu. Porque algumas coisas só eu podia fazer. E sem tempo para o meu próprio luto (pelo parto que não foi o desejado), para me recuperar da cirurgia e da doença, para estabilizar o corpo. Eu tinha um bebê na UTI neonatal, que precisava da minha presença e de cada gota de leite que eu conseguisse tirar na ordenha manual, que virou minha nova rotina. Por um mês, morei numa sala de espera de um hospital despreparado para isso. E o dia a dia era tão pesado, que de certo modo dor e alegria ficaram suspensas, entrei em um certo ‘piloto automático’”.

Assim, Mônica conta que há meses não podia se dar ao luxo de sentir: “Durante a pré-eclâmpsia, tomando medicamentos pesados, convivendo com todo o medo do que poderia ser uma prematuridade extrema, eu tinha de estar ‘tranquila’ e ‘equilibrada’ porque o estresse poderia piorar o quadro. Mas eu ainda tinha a companhia cuidadosa do meu marido, dentro do mesmo processo, dividindo as angústias. O nascimento da Manu me deixou mais só. Ninguém poderia entender a confusão de hormônios, o sofrimento da ordenha, o cansaço, os dedos que doíam, a impossibilidade do choro, a pressão que não voltava, a ambiguidade de olhar tantos casos piores à minha volta e pensar ‘na minha sorte’”.
Mas Mônica diz que ainda mais solitário foi ir para a casa com um bebê que não pesava nem 1.800kg (ela nasceu com 1.115kg), já não ter o suporte do hospital, sentir o medo redobrado e ter protocolos ainda mais difíceis, com uma bebê que aprendia a mamar. “Eram tantas obrigações, que não consegui criar um laço tranquilo com a Manuela. A maternidade virou uma série de tarefas a cumprir. Tive medo de não saber ser mãe e ainda precisei de lidar com a cobrança da família e com a minha própria. Demorei alguns meses para aprender, de novo, a naturalidade, a fluidez daquele novo amor, na medida em que me distanciava de algumas supostas obrigações e modelos. Até que, já com quase quatro meses, eu a Manu começamos a nos reconhecer. E tudo passou a ser natural.”

O LIVRO QUE DÁ VOZ Mônica conta que, em parte, consegue traduzir o que sentiu ao ter Manu nos braços, em casa. Mas “há uma dimensão avassaladora que ainda tento compreender. No que é possível dizer com palavras, acho que os poemas são a melhor tradução”. Tanto que o livro, Continuar a nascer, que será lançado no início do segundo semestre, pela Editora Relicário, foi uma espécie de catarse: “Apesar de o livro cobrir um período inicial da vida da Manu, que não vai até a ida para casa, os últimos poemas já foram escritos em casa, com ela dormindo do meu lado no berço. Isso porque a primeira fase da vida da Manu me deixou muda. E só aos poucos fui recuperando a voz. As últimas poesias escritas, assim, já estão de certa forma transformadas pelo que era ter ela ali comigo: e reler os poemas segue transformando o que é tê-la agora. São poemas para mim sempre mutáveis, dinâmicos, que me ajudam a entender tudo o que ainda não sei dizer”.

Mônica diz que o livro é um presente para ela, Gustavo e Manu. Um registro de um período tão intenso e definidor das suas vidas por meio de uma linguagem que mais é capaz de dizer essa intensidade: a poesia. “É a vontade de guardar tudo o que continua a nascer com a gente. Espero que os leitores sintam a sinceridade de tudo o que está posto ali e que essa sinceridade seja, talvez, uma ponte, uma voz que reverbera sentimentos que não são só meus. Quem sabe uma companhia para que outras mães e pais não se sintam tão sozinhos nessa experiência extrema que é ter um filho.”

Além desse livro, Mônica já publicou Sístole, Fundo falso, Fio da memória, Muitos jeitos de contar uma história, Gato escaldado, Cabra cega e Um coelho de cartola, e participou das antologias Roteiro da poesia brasileira, A extração dos dias. Agora, prepara seu próximo volume de poemas Mofo em floração.

Para Mônica, a maternidade é um processo diário, escolhido e construído: “A vida muda completamente com as demandas da nova rotina. Mas não acho que, de repente, somos outras e tudo se encaixa. Nossos desejos de antes ainda estão lá, as frustrações, a saudade do que se perdeu. A vida precisa ser reinventada. O amor, realmente, é algo diferente de tudo que já se experimentou. E me lançou não só nessa aventura de um novo amor absurdo, mas também para um sentido maior de comunidade, de precisar do outro. Agora, vejo-me participando de grupos de mães, trocando incertezas e experiências, questionando a ‘independência’ que eu imaginava ter. Talvez o novo sentido seja este: perceber que fazemos parte de algo que nos transcende. E que, ao mesmo tempo em que temos alguém que depende completamente de nós, precisamos do outro. Aceitar essa vulnerabilidade; descobrir a força dela (passo difícil de dar)”.

Uma pílula...

O leite tem a constituição do sangue


O leite tem a constituição do sangue.
Sangue branco, nomeia o médico
e imagino a cor-aurora, os seios como sóis.
Na boca do bebê, reinventa o circuito:
mãe e filho são de novo um corpo.
Mas você é pequena demais para o esforço
fios te alimentam em outro útero.
Meu corpo ignora a inutilidade do fluxo
alimenta o lençol, o vestido
que voltam à matéria orgânica, úmidos

sou o húmus da casa
sou a medida do desperdício
sou o adocicado da perda que ainda é promessa.

Escolho um vestido florido, roupa de cama com flores
o leite vaza, escorre, inaugura jardins.
Aprendo a colher o leite com as mãos
para ofertar a você, menina, este lírio branco
de alvéolos antigos, macerados na espera.

Ainda não sei o que é fome, o que é corte e o que é calma
nesta manhã excessiva, prolongada
que continua sendo a sua chegada
(sangue branco, poderia ser desta vida que nasce o nome).


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