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Estado de Minas OPINIÃO SEM MEDO

EUA x Brasil e o caso Floyd: uma grande nação, só com uma grande Justiça

Paraíso da impunidade, temos muito o que aprender com o judiciário americano. O caso George Floyd é uma boa oportunidade


22/04/2021 07:19 - atualizado 22/04/2021 08:09

Derek Chauvin manteve por longo tempo joelho no pescoço de George Floyd e causou morte dele por asfixia(foto: Reprodução/Youtube)
Derek Chauvin manteve por longo tempo joelho no pescoço de George Floyd e causou morte dele por asfixia (foto: Reprodução/Youtube)


Os Estados Unidos - ou ao menos a parte decente do país norte-americano - celebram a condenação do ex-policial Derek Chauvin, pelo assassinato de George Floyd, em maio do ano passado, em Mineápolis, durante abordagem policial que resultou na morte, por asfixia, do homem negro com então 47 anos.

Reunidos desde a última segunda-feira (19), doze jurados consideraram Chauvin culpado em todas as três acusações a que respondia: homicídio doloso, homicídio culposo e assassinato de terceiro grau. A sentença, que sairá nos próximos dois meses, pode chegar a até 40 anos de prisão em regime fechado.

Em menos de um ano, portanto, a Justiça americana prendeu, processou, julgou e condenou o assassino. Nada de recursos infinitos, nada de idas e vindas, nada de faz-de-conta. Aliás, o ex-policial já saiu da corte algemado e seguiu direto para a cadeia, de onde só sairá após o cumprimento integral da pena.

CASO MADOFF

Bernard Madoff, um magnata de Wall Street, entrou para a história como um dos maiores golpistas do mundo. Preso em 2008, por ter criado e operado um esquema de “pirâmide financeira”, que resultou em perdas da ordem de 85 bilhões dólares, Bernie fora condenado, em 2009, a 150 anos de cadeia.

Nesta quarta-feira (14), aos 82 anos, o golpista faleceu na prisão federal de Butner, Carolina do Norte, em decorrência de uma doença renal. Em fevereiro do ano passado, já em estado crítico de saúde, seus advogados pediram o relaxamento da prisão para que pudesse passar os últimos dias e morrer em casa.

A despeito do prestígio e poder que tinha, além da idade e do estado avançado da doença - os médicos lhe deram no máximo mais 18 meses de vida -, o pedido de liberdade antecipada foi simplesmente ignorado pela Justiça americana, que não encontrou razão, nem mesmo humanitária, para atendê-lo.

LULA

Dias atrás, foi confirmada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) a suspensão de todas as ações que condenaram o ex-presidente Lula. A razão seria a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba nos casos em que o líder da quadrilha do Petrolão, segundo o MPF (Ministério Público Federal), foi acusado.

A surpreendente decisão chocou todo o País e, por que não?, o mundo, já que a alegada incompetência fora anteriormente analisada - e negada! - por ao menos nove magistrados, em três instâncias inferiores, sendo duas recursais, inclusive o Superior Tribunal de Justiça, além da 2ª Turma do próprio Supremo

Assim, decorridos mais de 3 anos de sua prisão, quando recluso por 580 dias, e mais de 4 anos de sua primeira condenação (foram duas), o ex-presidente Lula recuperou seus direitos  políticos e ficará livre, leve e solto, até o fim da vida, a despeito dos crimes que cometeu e do mal que causou ao País e à sociedade.

MALUF

Casos como o do ex-presidiário Lula da Silva são frequentes e corriqueiros no Brasil, por isso nem assustam mais. É sabido que o sistema de Justiça e o Poder Judiciário foram pensados e criados para não funcionar, ou melhor, para funcionar seletivamente e garantir a impunidade dos ricos, influentes e poderosos bandidos.

Por aqui, ou não se prende nunca ou se prende muito tarde e por pouco tempo. Mesmo casos de assassinatos cruéis ou estupros de menores costumam terminar em penas mínimas, e não raro, em prescrições. Quando há prisão, via de regra, acabam encontrando motivos para seu relaxamento antecipado.

Idosos e doentes presos, como Paulo Maluf (ladrão)Roger Abdelmassih (estuprador) e José Carlos Bumlai (quadrilheiro do PT) foram, em algum tempo ou definitivamente, colocados em prisão domiciliar. Traficantes e assassinos perigosos também encontraram, por ordem judicial, o caminho das ruas, como André do Rap.

BRASIL

Um grande país não se faz da noite para o dia. São necessários séculos, que, no caso, já os temos com sobras. Um grande país não se faz apenas com clima e geografia favoráveis, que também temos com fartura. Ou mesmo com um povo jovem, forte e trabalhador, base - ainda - da nossa pirâmide etária.

Um grande país se faz, aí, sim, sobre sólidos alicerces culturais e morais, oriundos de modos, costumes e regras rígidas de convivência, comportamento e respeito sociais. Se e quando um indivíduo, ou um conjunto destes, não observar integral e irrestritamente tais premissas, a Lei deve agir e prevalecer, de forma severa e ligeira.

Sim, o Brasil tem tudo para dar certo, ou melhor, teria, porque nos faltou o essencial: o coletivismo. Nascemos, crescemos e nos mantemos egoístas e corporativistas. Tratamos o próximo como se não fosse um compatriota. Construímos um Estado, não para nos servir, mas para nos servirmos dele. O resultado está aí.

ENCERRO

Somos um povo que se agride e que se mata impunemente. Cidadãos que desrespeitam cotidianamente as mais simples regras sociais. Uma elite (empresarial, política, financeira, intelectual etc) mesquinha, criadora e mantenedora do tal “sistema”. Ou “mecanismo”. Ou “establishment”. O “jeitinho brasileiro”.

Sou de uma geração que cresceu ouvindo os pais e avós: “o Brasil é o país do futuro”. Não mentiram. Erraram. Acreditavam piamente nisso. Talvez como fuga da realidade ou legítimo desejo de um lugar melhor para filhos e netos. Estou com 53 anos e não conheço este país. Não conhecerei e não enganarei minha filha.

Se alguém verdadeiramente deseja melhorar este inferno em que vivemos, precisará, além de muita força, fé e boa vontade, de uma dose cavalar de coragem para refundar o sistema de Justiça do Brasil. Não é ele, claro, mas principalmente, o maior causador - e a origem - de quase todos os nossos inúmeros e seculares problemas.


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