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Sinais de esgotamentos econômicos, psíquicos e relacionais

Antes deste break imposto pela virulência contagiosa da COVID-19, nos colocávamos a serviço de ganhar e gastar


postado em 26/04/2020 04:00 / atualizado em 26/04/2020 11:22

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)


Tempos de isolamento têm sido extremamente produtivos para que, uma vez menos atarefados, possamos ter mais tempo disponível, ser menos consumidos pelo frenesi da vida corrida que o sistema nos impõe, já que o foco do capitalismo é o crescimento ilimitado. O incentivo ao consumo, a acumulação de bens, a indústria da propaganda fomentando as vontades de tudo ter, tudo muito e mais ainda.

Estilo de vida que mostrava sinais de esgotamentos econômicos, psíquicos e relacionais. Até então, antes deste break imposto pela virulência contagiosa da COVID-19, nos colocávamos a serviço de ganhar e gastar. Desfrutar e gozar de tudo o que o dinheiro nos permitia, ou nos endividava, para comprar e nos proporcionar um prazer ilimitado em busca da satisfação plena da felicidade. Um gozo desmedido e desigual.

Precisamos repensar a vida. Precisamos de muito menos. Com tempo à nossa disposição, a ruptura dos espaços comuns compartilhados antes do isolamento, podemos fazer outros planos. Desejamos o que vivemos?

O contágio vindo do humano apresenta-se agora como um perigo a ser evitado. Saímos pouco ou nada, nos comunicamos menos e restritos ao espaço virtual. Porém, os vírus estão nele também. Nele, na realidade e em tudo que nos cerca. Inclusive na palavra.

A palavra contém o risco de contágio. Ela nos contamina, nos induz, nos fere e nos salva, e é nosso meio de estabelecer laços com quem convivemos. Por isso, as análises on-line funcionam e trazem efeitos para aqueles que continuam suas análises – virtuais, pelo caráter excepcional do momento.

Praticamos maiores silêncios, ficamos quietos no nosso mundo, nossos lares, vamos mais devagar e, embora haja incômodo pelas tantas rupturas e perdas, ao mesmo tempo há conforto em uma vida menos estressante.

Abandonamos a vida frenética, uma epidemia psíquica, uma overdose de tudo, inclusive no meio ambiente, sofrendo com o retorno de agressões constantes, excesso de lixo, excesso de poluentes, excesso de exploração indiscriminada.

Vivemos a rebordosa do excesso, o retorno da verdade. Que o planeta não pode mais suportar a degradação, a depredação, a indelicadeza humana e ingratidão contra aquela que é nossa fonte de vida. A Terra é nossa mãe. A Terra sofre um colapso. Colapso planetário. Uma implosão vinda de mais de 30 anos de tensão e hiperestimulação geradora de depressões, drogadições, miséria convivendo lado a lado com imensas fortunas acumuladas nas mãos de alguns.

Esgotada, a Terra nos deteve de um modo contundente, nos freou com a peste vinda da nossa própria imundície. Obrigados a parar, estamos detidos a nos contentar com o possível e com severas limitações. Cumpriremos por respeito ao nosso mundo e ao nosso próximo.

Quero dizer que o homem almeja ser completo e dominar o real de tal modo ilimitado que só pode gerar adoecimento. Exigimos muito de nós, ansiamos a perfeição e pedimos que o outro e o mundo nos atendam e não falhem, que sejam ilimitados. Ora, as relações não podem ir além dos limites.

Aceitar as impossibilidades e os limites inclui tanto a natureza quanto as relações humanas. As impossibilidades existem e acatá-las é bom. Estabelecer limites é normalizador e ter limites não quer dizer cair na impotência, quer dizer ir até onde podemos, e nem um passo além, sob o risco de com este equívoco causarmos estresse e adoecimento e o fim do nosso próprio mundo. A hora é agora de pensar se queremos continuar neste caminho.

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