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Estado de Minas ENTREVISTA/PAULO SCOTT

O Brasil mestiço e racista é tema do novo romance de Paulo Scott

Nesta segunda (18), escritor vem a BH lançar 'Marrom e amarelo'. Dois irmãos, um de pele clara, outro de pele escura, simbolizam as contradições deste país que não assume sua própria identidade


postado em 18/11/2019 04:00 / atualizado em 20/11/2019 15:38

(foto: Renato Parada/divulgação)
(foto: Renato Parada/divulgação)

O Brasil tem dificuldade de se olhar no espelho

PAULO SCOTT

 

Marrom e amarelo, de Paulo Scott, leva para o universo literário uma discussão que o Brasil não consegue fazer de maneira honesta desde que o vermelho incandescente da árvore batizou esta terra habitada por indígenas e colonizada por portugueses por meio da exploração do saber e do trabalho de negros escravizados.

Filho de pai e mãe mestiços, Paulo nasceu com a pele clara – o que permite que seja lido socialmente como branco –, tem irmão de pele escura e primos loiros de olhos azuis. Muitas famílias brasileiras, como a do escritor porto-alegrense, contam com essa diversidade de fenótipos, embora os integrantes tenham o mesmo sangue. “Meu pai é marrom, meu irmão retinto. Mãe e pai são mestiços. Mãe puxada para espanhola, um pouco de índio chileno, um pouco de italiano”, diz ele.

Talvez o nome de uma cor dado ao país demonstre a sina desta terra em que a pele de quem a habita tem definido, em grande medida, se a pessoa vai viver ou morrer, rica ou pobre, letrada ou analfabeta. Marrom e amarelo trata da questão da mestiçagem e das identidades no Brasil, tendo como partida o ponto mais nevrálgico do debate: as cotas raciais.

O romance apresenta a história de Federico e Lourenço – irmãos, respectivamente, de pele clara e cabelo liso e de pele escura e cabelo crespo, vindos de família mestiça de classe média. Nesta entrevista, Paulo Scott fala de seu novo livro e das contradições da sociedade brasileira, que, na quarta-feira, celebra o Dia da Consciência Negra. Nesta segunda-feira (18) à noite, ele participa do projeto Sempre um Papo, em BH, ao lado do escritor Joca Reiners Terron.

O que o levou a escrever Marrom e amarelo?
Meus romances giram em torno da identidade. Em Ithaca Road (Companhia das Letras), escrevo sobre Narelle, uma australiana mestiça de inglês com indígena maori. Em Voláteis (Objetiva), o protagonista Fausto é um mestiço argentino. No plot desse livro já aparece parte do conflito. Já estava num poema do meu primeiro livro (Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros), em 2001. O Brasil tem dificuldade de se olhar no espelho e se ver como país negro, de ancestralidade negra e indígena. Tenho atenção à questão da identidade desde sempre. Não só à comunidade negra, mas também indígena. No Brasil, você tem pai retinto, mas diz que é branco se tem a pele mais clara. O Brasil se acha branco, mas não somos brancos para o resto do mundo.

A ideia que do Brasil branco vem de muito tempo, como podemos ver no objetivo de políticas para branqueamento da população brasileira. 
Política pública do país no final do século 19. No início do século 20, fomos a Paris dizer que o Brasil seria branqueado. O governo só deu educação para o povo em 1930. A ideia era que o negro não teria moradia e saúde e com isso seria eliminado. Mas essa coisa de o Brasil ter vergonha de ser negro tem mudado nos últimos 10, 20 anos. É um movimento muito especial, de orgulho de negros e pardos. Pardos que se reconhecem como negros. Duvido que os dois racistas no Mineirão se reconheçam como negros (referência a dois torcedores do Atlético que xingaram e cuspiram no segurança Fábio Coutinho, dizendo: “Olha sua cor”). Eles não são brancos. Têm pele mais escura do que a minha. São descendentes de negros e indígenas. Dois malucos, xingando o trabalhador. Mas o presidente endossa. Estamos caminhando para o conflito e toda sociedade vai perder com isso. Temos racistas no parlamento, que lutam contra as cotas. Mas, pela primeira vez, os pobres que tiveram acesso à universidade, a comunidade negra e indígena apresentam discurso articulado de enfrentamento. Mas a Paulista e os Jardins não querem gente preta do lado, quanto mais branco e rico, melhor. Querem que o trabalhador vá para a informalidade. Um desastre para o país. Temos um enfrentamento inédito.

O que você pretende em sua literatura ao apresentar personagens mestiços?
É algo que me interessa. O Brasil seria mais forte se assumisse que somos negros e indígenas. Numa composição kantiana, os estudantes alemães entendem, desde crianças, a diferença entre querer e desejar. Para querer, você precisa saber quem é, saber quais são seus limites. Não ficar sonhando, fantasiando. O brasileiro não. Quer ser Cristiano Ronaldo, Neymar. Mas a pessoa não avança se não souber quem é. O brasileiro tem dificuldade de olhar para si mesmo. Mas a comunidade pobre, negra e indígena foi para universidade. As mulheres, em especial. Os líderes homens ainda não conseguiram fazer isso. FHC esboçou essa questão quando disse ‘eu sou mestiço’. No Brasil, a classe média não quer ver pobre do lado, no aeroporto, na universidade, no restaurante. Não quer ver nem gente pobre nem gente parda. A elite brasileira, e isso aprendi vivendo no Rio, quer manter o apartheid: manda o filho estudar na Europa, fala cinco línguas, manda dinheiro para fora do país. É a turma do Leblon, dos Jardins e da Paulista. Essa turma da Paulista não declara o dinheiro de aluguel dos apartamentos, é um bando de sonegador apoiando Sérgio Moro. É a revolução da moralidade brasileira. Um bando de sonegador. O dono da Havan, mesmo, pegou dinheiro do PT para fazer uma coisa e fez outra. A elite brasileira é hipócrita e apoia a concentração de renda para que o pobre fique cada vez mais pobre. O DPVAT, mal ou bem, dava amparo a pobres. Havia pedidos com fraudes, mas isso poderia ser resolvido. As reformas trabalhista e da previdência vão aniquilar com os pobres, mas os pobres ainda não entenderam. O Brasil está sendo destruído. Os racistas estão perdendo a vergonha de falar que são racistas.

Você fala das cotas raciais de uma perspectiva bem interessante, a partir de Federico, que vem de família negra, mas é lido socialmente como branco.
Federico tem identificação social branca e autoidentidade como pessoa negra. A mãe, quando teve dois filhos diferentes, não teve dúvida e disse: ‘Somos família negra’. Eu tenho irmão de pele escura. Tenho primos-irmãos negros. O parlamento brasileiro não quer espaço para o preto. A linguagem permite que possa se emancipar, enfrentar o rico, o patrão, gerente do seu banco. As mulheres negras vêm com linguagem qualificada. Vi a Karol Conka, em uma entrevista na TV aberta. Ela começou a falar algumas coisas. Os homens brancos começaram a ouvi-la e ficaram calados. A nossa elite é uma das mais cruéis do mundo. O que fazem com o Brasil é criminoso, não existe em lugar nenhum do mundo. E o governo permite que o brasileiro seja escravizado. A população não vê, e isso é culpa é dos intelectuais, da imprensa, da elite econômica. A elite não quer dar o mínimo.

Você parte de referências pessoais para escrever o romance. É interessante ver que Lourenço é que tem autoestima mais elevada, é socialmente querido, o mais enturmado e é amado por Federico.
Eles chegaram longe pela educação que o pai deles deu. O pai ocupa cargo importante socialmente. Meu pai foi o primeiro conselheiro negro do Internacional. Um cara negro que nunca baixou cabeça para branco. Mas (o livro) não é a história da minha família. Parto da minha família para construir essa ficção. Uma família negra que enfrenta o racismo altivamente. O irmão mais branco tem essa raiva, sempre em fúria. Mas ele não sabe o que é ser preto retinto, não é preto retinto. Não sofre o que o irmão sofre. Mas tem empatia, que branco não vai ter nunca. É o irmão que ele ama. Trata o irmão melhor do que ele próprio se enxerga. Vê o irmão de forma heroica. Federico já olha para o pai dele com mais crueldade.

O movimento negro costuma pontuar que o racismo é um problema dos brancos. Para você, lido socialmente como branco, como foi escrever esse romance?
O livro tem recebido retorno muito forte dos leitores. É muito bom. Não teve cobertura forte da mídia no início. A Folha de S. Paulo fez há duas semanas. O Globo, da cidade onde morei, fez primeiro. O Zero Hora está ecoando o livro agora. Ele ficou conhecido no boca a boca e veio em momento crucial. Debato a questão das cotas, com Federico na comissão, no terceiro capítulo. E olha que na comissão são só pessoas pró-cotas e antirracistas. Mas não significa posição uníssona. Tem o colorismo. Participei de debate com duas estudantes negras que tinham visões diferentes sobre ter namorado branco. Uma menina escreveu e depois apagou o post que pedia aos leitores negros opinião sobre Marrom e amarelo. Tem muitas manifestações na internet. Tem gente branca que diz que é a primeira vez que entende o negócio. Essa discussão tinha que ser aprofundada na ficção. Autores retintos têm trabalhos incríveis e devem ser chamados para falar. Sou negro pardo e não sofro racismo. Fui falar em Harvard, Nova York, Oxford. O debate sobre o colorismo é muito importante na América e na França. Com a notícia do livro se tornar pública, passaram a me chamar. Essa discussão ganhou o mainstream do mercado acadêmico e editorial. Já participei de debates com Ana Maria Gonçalves. Esse debate tem que ser ampliado. Os mestiços brasileiros têm que se assumir como negros e fortalecer a identidade negra. As pessoas estão se identificando, nos EUA isso é cada vez mais forte. As pessoas se dizem ‘apaches’, ‘sou latino’. A afirmação de identidade é muito necessária no mundo atual, em que está prevalecendo o pensamento racista, elitista, branco e de extrema direita, de maneira muito forte.

Em todo o mundo...
Trump é muito racista e não tem vergonha de se dizer racista. Bolsonaro é racista explícito, veja a questão dos quilombolas, mas tem aquele parlamentar retinto ao lado dele. Não se diz racista. Bolsonaro é racista porque nega o racismo. Ao negar o racismo, dá guarida e apoio psicológico a um bando de malucos. Aqueles dois do Mineirão são mestiços e estão repercutindo o racismo contra a ancestralidade deles. Temos negros pardos brasileiros aplaudindo o discurso racista. O discurso da segurança cegou muita gente. Parte negra muito forte na família do meu pai votou em Bolsonaro por causa da segurança, para colocar corruptos na cadeia. O Mano Brown, mesmo, disse que na comunidade um número importante de pessoas votaria Bolsonaro. As pessoas queriam segurança.

Fale um pouco sobre a sua escrita, que é muito ágil, quase o fluxo de pensamento.
Estreei velho na literatura, aos 34 anos. Tinha resolvido que o que importa não é habilidade, sofisticação, mas a singularidade, a voz única que só aquele autor pode dar. Venho com essa estética, essa dicção desde o livro Ainda orangotangos. Esse fluxo, dicção ininterrupta. Orangotango é bem escrito, mas é estranho. Estou ficando velhinho. Tenho 53 anos e as pessoas entenderam tenho dicção, minha voz própria. Aliás, isso está entendido desde o começo. Tanto que tenho espaço nas editoras. Tenho essa dicção: ‘Ele escreve assim. É o jeito dele’. Marcelo Rubens Paiva, um grande amigo, diz: ‘Quebra parágrafo, coloca pontuação’. Sabe aquele músico que toca de um jeito muito estranho? É o defeito do cara. É a marca do cara. Esse é o meu jeito. Não estou me comparando, ele é um gênio, mas olha a afinação de violão do Jorge Ben. Estou há quase 20 anos como autor publicado. Gosto de escrever desse jeito. Paulo Scott escreve estranho, mas é o jeito dele.

Isso é muito bom, porque há certa saturação de um jeito de escrever e entender a literatura.
Sim. Clone da literatura americana contemporânea. Estou muito feliz por grandes casas literárias se abrirem para a diversidade, mas por causa de um fluxo mundial. Muitas estrelas negras no mainstream. Vejam Chimamanda (Chimamanda Ngozi Adichie, feminista e escritora nigeriana). Aqui no Brasil, críticos na Folha de S. Paulo aplaudem a versão brasileira da Granta, revista inglesa. A lista de todos os escritores, não estou me lembrando de todos agora, tirando o Jatobá, todos são autores brancos – sendo que, para os padrões cariocas, o Jatobá também é considerado uma pessoa branca. Dá para dizer que naquela seleção falta diversidade racial maior. Porém, o resenhista escreveu com felicidade que autores escrevem sem regionalismo. Como se fosse virtude ser genérico urbano, branco brasileiro. É retrocesso.

A seleção reuniu textos de 20 autores com menos de 40 anos. Foi em 2012.
A questão aconteceu em outro momento, a composição da Granta hoje seria diferente. De qualquer forma, as narrativas da revista, independentemente da composição étnica dos escritores, são muito de classe média alta, instruída. Tirando o texto do Jatobá, pelo que me lembro, falta diversidade maior. Tenho certeza de que se a Granta fosse sair hoje, seria de outra forma. Naquela Granta, tem uma coisa que mais me chama a atenção: Santiago Nazarian ter ficado de fora. Ele participou e mandou texto. De uma forma mais sintética, sem querer ser leviano e fazer crítica mais apressada de processo do qual participei e é bem mais complexo, se hoje a revista acontecesse, ela teria outra composição se pegasse os romancistas mais jovens. Naquela seleção falta diversidade racial. Ela teria outra composição. Mostra como o mercado editorial brasileiro mudou nesses últimos cinco anos.

Em Ainda orangotangos, você já fala da questão do racismo. Há diferença de abordagem em relação a Marrom e amarelo?
A diferença entre os dois livros é o tratamento do racismo no Ainda orangotangos. Embora sejam contos, de estrutura diferente do romance, o racismo não ocupa o centro da narrativa. Apenas de um conto. Não condiciona tanto o que caracteriza aquele livro. Mesmo no livro de poesia Senhor escuridão (Bertrand), o racismo não é presença absoluta, divide espaço com outras temáticas, embora haja pelo menos 20% de poemas ali que tratam direta ou indiretamente de racismo. É um pouco difícil dizer a tônica da abordagem, na verdade são muitas questões que acabam me determinando na escrita. O racismo é só uma delas. Mesmo em Marrom e amarelo, não é só a presença do racismo. Uma coisa que o distingue de todos os outros é que ele tem o propósito de trazer o racismo para o centro da trama e pautar a narrativa. Os outros livros não têm isso tão central. Mas em Ainda orangotangos há um conto centrado na temática do racismo. O romance Voláteis tem uma personagem coadjuvante, o Machadinho, um pardo claro, que tem conversa com a avó negra retinta no Parque Farroupilha, em Porto Alegre. Pelo menos no trecho do romance, a questão é muito central. Embora nenhum dos dois fale de racismo, tem essa reflexão. A tônica do Ainda orangotangos são as pessoas marginalizadas em vários graus, não é só a questão racial, mas a questão de depressão, do estado limítrofe, do borderline psicológico e psíquico. Tem muita loucura e muita violência. Orangotangos é um livro de contos girando em torno de pessoas limítrofes em relação à saúde mental, muito visível naquele livro, o que não é tão forte em outros livros que escrevi.

(foto: Alfaguara/reprodução)
(foto: Alfaguara/reprodução)

MARROM E AMARELO
. De Paulo Scott
. Alfaguara
. 157 páginas
. R$ 49,90
. R$ 34,90 (e-book)
. Os escritores Paulo Scott e Joca Reiners Terron participam do projeto Sempre um Papo, nesta segunda (18), às 19h30, na Sala Juvenal Dias (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Entrada franca.



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