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O que conseguirá despertá-lo de seu apego infantilizado ao Princípio do Prazer?

Olhem ao redor, o coronavírus não matou apenas idosos, morreram pessoas de 40, 30, 20 anos de idade. É tempo de concessões, de fazer diferente, de esquecer suas preferências e cair na real


postado em 05/04/2020 04:00 / atualizado em 05/04/2020 09:34

Momento de se manter no Princípio da Realidade. Este princípio descrito por Freud aponta para o imponderável fato de que precisamos nos ater ao que é da ordem do necessário, do que será o melhor. Não o mais prazeroso. Se assim fosse, estaríamos no Princípio do Prazer.

E foi por isso que ele tanto falou na tal da castração. Aquela de que ninguém gosta de falar e de aceitar. Porém, ela é que normaliza e normatiza a vida e nos mantém dentro do nosso quadrado, sem pular a cerca. Nos obriga a sacrificar parte das nossas vontades e caprichos.

Em tempos de guerra, qualquer guerra, principalmente esta em que o inimigo é invisível e nós estamos desarmados, vulneráveis e indefesos, a única coisa que pode nos proteger são os limites. Os limite, as contenções são nossa única arma contra o vírus.

Não apenas os limites físicos, estes talvez sejam os mais fáceis de praticar. Mas os limites que nos lançam num plano mais sutil. Por exemplo, o plano psíquico. Devemos estar atentos para nós próprios, a angústia, a ansiedade e cuidando para não deprimir. Realizar o fato de que haverá perdas e não apenas financeiras, que dessas vamos nos recuperar, mas das afetivas, reais, como ver o sofrimento e a morte tão próximos, além do medo do contágio.

E embora muitos prefiram se apegar à negação, ao pensamento de que estamos exagerando que o vírus é uma gripezinha, desafiando a Organização Mundial de Saúde (OMS), criticando o presidente por não ser médico, o que é uma tremenda ignorância porque, para exercer a Presidência, cargo administrativo por excelência, se não for médico, é melhor. Precisa ser bom em relacionamentos e administração.

Os que desafiam o que se vê no mundo através da TV diariamente, gente morrendo como folhas secas caem no outono, os pedidos incessantes das equipes de saúde para que as pessoas não se arrisquem porque o sistema não suporta, não haverá leitos.

Para estes eu diria: continuem negando e vivendo a seu bel-prazer como se não existisse o outro e espero que a realidade, a perda dos próximos amigos e parentes, não seja aquilo que conseguirá despertá-los de seu apego infantilizado ao Princípio do Prazer. Olhem ao redor, não morreram apenas idosos, morreram pessoas de 40, 30, 20 anos de idade.

É tempo de concessões, de fazer diferente, de esquecer suas preferências e cair na real. É tempo de sacrifício e bom senso. De abrir mão da teimosia e ser solidário. Aceitar que a castração nos fará agir dentro do que é preciso e não do que queremos. A verdade que vejo que a COVID-19 colocou o mundo em melhor rumo: gente ajudando gente, políticos empenhados em ajudar o povo, empresários menos indiferentes aos pobres. Nem todos, mas grande parte.

Como nada é perfeito, vejam o que aconteceu. Neste momento, enquanto somam-se forças para atender a população, nem tudo são flores. Recebi uma carta-documento do corpo médico do Hospital Psiquiátrico Galba Veloso, fechado na calada da noite, sem conhecimento nem mesmo dos que lá trabalham para seus pacientes, para fornecer leitos para possíveis clientes da COVID-19. A pergunta é: para onde irão os internos portadores de sofrimento mental em quadros graves de surtos e que representam risco para si mesmo e para os outros?

Como poderiam ter sido todos transferidos para o Instituto Raul Soares, que se torna agora quase o único lugar de acolhimento com leitos da saúde pública do estado, e que também tem problemas de acolhimento? Ficarão abandonados, se tornarão marginais, moradores de rua, mendigos nos casos em que as famílias, de outras cidades e carentes, não possam acolhê-los? São pessoas vindas de todo o estado.

Infelizmente, como disse uma das médicas psiquiatras do Galba Veloso, é triste vestir um santo desvestindo outro. Que assim fosse, porque é urgência e uma exceção necessária, mas melhor seria sob acompanhamento médico dos pacientes – e isto não se discute –, o que seria mais apropriado e respeitoso. Muito triste.

O Ministério Público de Minas Gerais, no entanto, interveio e a Justiça obrigou a Fhemig a voltar atrás e manter os pacientes sob cuidados médicos no Galba Veloso. Foi uma vitória, mas eles podem recorrer da decisão. Vamos aguardar que a justiça seja feita.

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