(none) || (none)

Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. ASSINE AGORA >>

Publicidade

Estado de Minas Comportamento

Intérpretes


23/04/2023 04:00 - atualizado 20/04/2023 18:42

foto sobre idiomas


Línguas nunca foram meu forte. Já fiz todo tipo de curso de inglês e francês que, somados, dariam mais de duas décadas de estudos. Não sei se métodos ineficazes, professores malpreparados ou se o problema sempre foi a aluna (ou a vergonha dela). Fato é que descobri um pouco tarde, mas ainda em tempo, que melhor errar que calar. Então hoje misturo todos os idiomas numa única frase e, acrescentando muita mímica, acabo sobrevivendo.

Meu marido é o maior poliglota que conheço. Fala todas as línguas do mundo e, de fato, falar e compreender bem só mesmo o português. Com ele a tiracolo, nunca passo aperto, nem fome e muito menos fico perdida. Ao contrário do que o imaginário social vê nos homens, “eles não gostam de perguntar”, o meu interpela os outros no meio da rua para tirar dúvidas, mesmo quando não as tem. Tudo isso pra mudar de prosa, conversar com um desconhecido. E acaba conseguindo proezas.

É sempre ele o incumbido de fechar as viagens de nossas turmas de amigos. Como dá bom dia a cavalo, acaba descobrindo os melhores roteiros com os melhores preços e todos seguimos felizes atrás. Hiperativo como é, está sempre dialogando, como ele mesmo diz, nem que seja com si mesmo.

No meu caso, mesmo se eu fosse fluente em outras línguas, preciso de tradutores na maioria das vezes em que me aventuro pelo continente africano. Quanto mais se entra nos países, mais provável de se encontrar apenas gente que fale os dialetos e nada entenda da língua oficial imposta pelos colonizadores.

Como meu marido não me acompanha neste tipo de empreitada, preciso da companhia de tradutores. E eles são sempre personagens à parte. A primeira que tive falava inglês tão mal quanto eu. Talvez por isso nos demos tão bem. Era daquele tipo que, para tentar ser melhor compreendida, aproximava-se o máximo possível de meus ouvidos e falava pausadamente, o que me fazia rir muito e não entender nada.

Tive também ajuda de um moçambicano que, quando eu precisava falar algo que ele considerava triste, olhava pra mim e, indignado, perguntava: “logo eu, vou ter que passar esta mensagem?”, achando que sendo ele minha voz, também seria dele a culpa de decepcionar os ouvintes.

Em Madagascar, meu tradutor, um jovem malgaxe autodidata, aprendeu português sozinho, recorrendo a dicionários e a pessoas diversas. Mas o que mais me chamou a atenção nele foi sua capacidade de interpretar fisicamente o que eu dizia. Ele dramatizava minhas falas como se estivesse, não apenas entendendo o que eu dizia, mas sentindo, chegando ao ponto de me interpretar melhor que eu. 

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade

(none) || (none)