O início do ano muitas vezes fica marcado como sendo o tempo de fazer arrumação. Há quem deseje realinhar o corpo com dietas algumas delas milagrosas depois de uma temporada desregulada. Outros fazem planos para os próximos doze meses, vários deles recorrentes que insistem em se manter no topo da lista, com a promessa de que dessa vez sairão do papel ou da mente como caso encerrado.
Entre os planos mais fáceis de colocar em prática, porém nem sempre livre de sofrimento e de dúvidas, é a arrumação dos armários. Os enfeites de Natal precisam entrar em estágio de hibernação novamente o que pede espaço que, como num passe de mágica, já foi preenchido desde que Papais-noéis e gnomos ganharam e perderam suas semanas anuais de celebridades.
O espírito consumista para alguns vem sendo substituído pela realidade nua e crua, além de incômoda, de que muito do que se tem não os são mais útil ou nunca o foram. Fim de ano traz sensação de fim de linha, necessidade de recomeçar por mais que não passe de um dia atrás do outro, como outro qualquer.
Esse ano quero fazer diferente! Repetimos e ouvimos falar como se fosse um mantra que, como tal, nada significa se não dermos a ele um significado além de simplesmente repeti-lo e repeti-lo. Eu que o diga, já que não desenvolvi ainda a capacidade de meditar, esvaziar a mente para entrar em um estado outro que não seja o de alerta. Incapacidade mesmo, ou talvez algo ainda mais chulo. Confesso. Meditação e mantras para mim se convertem em sono profundo e lá se vai mais uma tentativa nobre, reconheço.
Sou da ação o que não quer dizer que desmereça os capazes de entrar em alpha, alterar o estado mental, ou como queira chamar. Pois bem, foi acompanhando a tarefa de algumas amigas de começar o ano se desfazendo de roupas que não lhes servem mais, por que não cabem no corpo, na idade ou no estilo, que me veio a ideia de escrever estas palavras, apelativas pode-se dizer.
Fui deixar umas peças de doação na Casa do Caminho, ponto de apoio à pacientes com câncer em tratamento em BH, quando ouvi da recepcionista que sempre me ajuda a descarregar, carregando um enorme sorriso: “Patrícia, ajude-nos passando uns contatos seus pra gente ampliar nossa rede de colaboradores porque os três primeiros meses do ano são os mais difíceis.
Sei muito bem disso porque também sofro as consequências dessa escassez sazonal. Em março parto para mais uma de minhas empreitadas a caminho do continente africano. Passarei 12 dias em uma vila Moçambicana e 18 no sul de Madagascar, em meio a mais terrível falta de tudo o que por aqui sobra, a começar pela água. Mais uma vez montarei oficinas de costura e ensinarei os primeiros passos dessa arte tão valorizada por aqueles lados, mas tão difícil de exercer devido aos alto custos dos mais rudimentares equipamentos como agulha, linha e tesoura.
Compro tudo e levo com dinheiro das coisas que produzo junto a amigos colaboradores, assim como vendo peças de brechó, vintage, retrô ou modernas em bom estado. De roupas a adornos, enfeites de gente e utensílios de casa, tudo o que possa ser desejado por alguém. É inacreditável os tesouros que a maioria das pessoas mantém em seus armários que quando decidem juntar tudo e doar se transformam em agentes de transformação de realidades miseráveis. Portanto, se ao acaso for tocado ou tocada pela fada da arrumação, mande-me um e-mail que num simples toque alguém chegará até você para buscar. patriciaespiritosanto@yahoo.com.br