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Estado de Minas Comportamento

A fé move mais que montanhas

'Turbante bem enrolado e desenhado completa o traje usado para ver Deus'


12/12/2021 04:00

África igreja
Domingo cedo começa um desfile de cores e elegância difícil de se ver em outras culturas (foto: NIPAH DENNIS / AFP)

 
A fé é o que mais movimenta e sustenta a vida por estes lados da África, seja no campo de refugiados ou nas pequenas  vilas do interior da parcela mais ao norte do Malaui, onde  estou. Domingo cedo começa um desfile de cores e elegância difícil de se ver em outras culturas. Literalmente, aqui há a roupa para ir à igreja, a maioria evangélica. 
 
Os homens com calças retas, bem certas nos corpos esguios e batas, ambas as peças na mesma estampa, de preferência bem colorida, bem de fato. Elas com uma capulana (nome mais conhecido do tecido típico africano) ou titengue (nome usado pelos congoleses, comunidade majoritária no campo de refugiados) enrolada na cintura sobre uma calça fusô. Ou ainda vestidos obrigatoriamente bem comportados, cheios de babados e rodas na barra, já que da cintura até os joelhos são bem justos. Um turbante muito bem enrolado e desenhado completa o traje usado para ver Deus, que torna todas divinas. 
 
Não importa se há pouco dinheiro, se falta água, comida e roupa lavada. Difícil encontrar alguém, incluindo as crianças, que não esteja em sua melhor versão, mesmo que a única possível. Toda essa estética embasa o que Deus representa numa cultura onde o material, palpável, necessário para a sobrevivência física, está em último plano, não por opção, mas por condição. 
 
Canta-se Deus em todos os templos, não importa a figura ou nome que o encarne. Canta-se do mais fundo do coração, de tal forma que ecoa no nosso, não tão acostumado a ouvir a oração em forma de canção com tamanha devoção. Aliás, parece que por aqui todo tom é gospel, até mesmo quando o show de talentos não é promovido pela igreja. 
 
Muitas palmas, tambores, passos pra lá e pra cá, sorrisos largos, estalos de dedos e pequenos gritos aos moldes dos árabes tão presentes em suas exaltações e comemorações. A ode a Deus é regada a uma alegria que chega a ser incompatível com o que se vive dali pra fora. Onde encontram tanta força estas pessoas tão castigadas? Na fé, respondem. 
 
Não há como não encontrar Deus em um lugar como este. Encontra-se em cada uma dessas pessoas que sustentam sua vida em  razões que nossa vã filosofia realmente não  consegue explicar. Aqui se aprende de tudo um pouco, a começar  por agradecer sempre pelo que se tem, mesmo quando não se tem nada. 

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