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"Estourou a pandemia e a menina acabou ficando"


20/09/2020 04:00


 
Tenho ouvido com frequência sons de crianças perto de minha casa e sei reconhecer quem os produz. Uma amiga tem uma afilhada que imagino ter hoje uns 9 anos de idade. Ainda bem pequena se mudou para outro estado, para a terra natal da mãe, pois os pais se separaram. Como a separação não foi amigável, todos saíram achando que estavam perdendo muito, o que de fato acaba acontecendo.
 
Entrar em acordo sobre com quem fica a guarda dos filhos é sempre muito traumático, principalmente quando tanto mãe quanto pai fazem questão de tomar a frente da educação e do convívio diário com eles. Nesse tipo de caso, onde mais de mil quilômetros separam a casa do pai da casa da mãe, a guarda compartilhada de forma igual tanto para um quanto para outro fica bem mais difícil.
Depois de muita disputa, decidiu-se que o melhor era a criança ficar com a mãe, mas o pai a recebe aqui durante fins de semana e feriados prolongados, se não estou enganada, num intervalo de três em três semanas. A mãe a coloca no avião lá e o pai a recebe cá.
 
Até que, no início de março, o que para uns foi coincidência para outros obra do destino, a menina estava em BH numa de suas costumeiras e esperadas visitas ao pai. Estourou a pandemia, junto com a ela a necessidade de isolamento, e por aqui a menina acabou ficando. Pegar um avião era arriscado, ônibus nem pensar, e o tempo necessário para o deslocamento de carro se mostrou inviável tanto para a mãe quanto para o pai.
 
Até hoje, a mãe, de longe, acompanha os passos da filha, que também faz questão de mantê-la atualizada sobre tudo o que lhe acontece, assim como a quantas andam suas fantasias. A mãe chegou a dizer que viria buscá-la, o pai chegou a prometer que logo que pudesse iria levá-la, e por inúmeras razões, que lhes são pessoais, desde que aprendera a andar a menina nunca passou tanto tempo na companhia paterna.
 
É interessante como o tempo trata de ajeitar as coisas. O pai gastou muito contratando um escritório especializado em direito de família, mas não houve juiz que encontrasse sentido em deixar a filha a cargo dele. Passaram-se alguns anos e a própria vida fez com que a decisão judicial fosse ultrapassada, mesmo que por apenas uns meses.
 
Durante a pandemia, muitas pessoas se separaram e outras tantas se reuniram por força da contingência. Eu mesma não vejo meus dois filhos desde 5 de janeiro deste ano. Mas, como consolo, ouvimos histórias felizes de outras pessoas, como a de um guarda florestal que me contou que a quarentena ajudou a reintegrar sua família.
 
Ele não sabe ao certo se por medo da morte ou se por terem caído na real sobre o quanto temos a perder remoendo mágoas, seus tios decidiram se encontrar em território neutro para uma conversa que era para ter acontecido há mais de 20 anos. Chorou-se muito, muito foi falado e remexido. Ao fim e ao cabo, concluiu-se o óbvio, mas difícil de encarar, que todos tinham razão ao mesmo tempo em que todos tinham culpa. Já que todos somos iguais, por que então não esquecermos os maus ditos e viver em paz?

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