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Estado de Minas Comportamento

Sons da natureza

'Comemoro quando ouço a ensurdecedora corneta'


13/09/2020 04:00


 
Há quase 30 anos, decidimos morar na região da Mata da Mutuca, numa casa bem próxima à civilização e, ao mesmo tempo, da roça. Tanto que durante sete anos tivemos em casa galinheiro com todo tipo de aves, duas ovelhas e um carneiro que gostavam de brincar como se fossem cachorros. Inclusive, cães de fato sempre tivemos.
 
Chegamos a ter muitos pavões, a maioria rebelde, que se recusava a entrar no galinheiro no cair do dia. Foram presas fáceis das jaguatiricas e outros pequenos felinos que ainda hoje rondam por aqui, pois encontram água e alimento.
 
Há cerca de oito anos, fechei a criação porque meus filhos cresceram, partiram e acabou perdendo a graça ter todo aquele trabalho diário e constante. Até que, há alguns meses, encontraram quatro pavões perto de minha casa e nos ligaram acreditando serem nossos.
 
Confesso que recebi a notícia com enorme alegria, pois agora posso ouvir os berros que os machos dão, principalmente no meio da madrugada, para chamar as fêmeas a dezenas de quilômetros de onde estão. Para quem desconhece, é impossível imaginar a altura que eles cantam, o que, com certeza, incomoda muito quem tem sono leve.
 
Aliás, esse era meu maior problema quando eu os tinha. Cheguei a me levantar da cama as 3h30 para tentar negociar com um pavão que não deixava ninguém no entorno dormir. Abri a porta da casa de mansinho, com medo de encontrar algum vizinho, pois eu não teria coragem de encarar nenhum deles naquele momento. Olhei bem nos olhos do pavão, que ficou me encarando e mexendo a cabeça como quem não entendia nada. Ofereci tudo para ele em troca de ficar caladinho ao menos até as 6h. Foi a conta de eu dar as costas e ele me respondeu à altura a provocação.
 
No outro dia, com o coração em pedaços, pedi ao meu marido que me ajudasse a doar ao menos os machos, pois eu estava com muita vergonha de meus vizinhos mais próximos. Meu marido, nada precipitado, me pediu para esperar que ele encontraria alguma solução menos traumática. Na hora do almoço, cobrei dele uma atitude e ele ainda estava pensando. No final do dia, acabou fazendo o melhor.
 
Procurou cada um dos vizinhos mais prejudicados e relatou a eles meu incomodo. O primeiro vizinho reagiu rapidamente, dizendo “você não pode doar o corneteiro”. O outro revelou ser um grande mentiroso quando disse “eu nem ouço”. O terceiro riu, dizendo que o pavão o fazia companhia nas noites maldormidas, quebrando o silêncio entediante da mata.
 
Hoje, comemoro todas as vezes que ouço a ensurdecedora corneta dos machos com o conforto de não mais precisar me envergonhar. Aquele som já não é “culpa” minha, mas da própria natureza se expressando. E claro, não posso deixar de registrar a elegância e o clima de amizade que existe no cantinho onde moro, pois vizinhos assim não são fáceis de achar, principalmente sendo essa uma categoria de pessoas que a gente não escolhe ter ao lado.

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