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Estado de Minas Comportamento

Questão de ponto de vista

"Apenas fazem, não falam"


23/08/2020 08:15 - atualizado 23/08/2020 08:22


Desde o início da quarentena, em março, assumi a tarefa de ajudar algumas instituições que prestam auxílio a determinadas comunidades   carentes. Meu trabalho é apenas de intermediação. Sempre, uma vez por semana, um amigo busca uma quantidade de suã no frigorífico Imperatriz, em Sabará, que gentilmente fez conosco uma parceria. Em Belo Horizonte, nos encontramos quando passo a carne congelada para meu carro e sigo direto para os locais que esperam minha chegada ansiosamente.

Abrigos, asilos, creches, grupos de pessoas que trabalham com aqueles que por agora vivem nas ruas e casas de acolhida de pacientes portadores de doenças crônicas. Já conhecia algumas de trabalho que desenvolvi anteriormente e outras fui tendo o prazer de descobrir sua existência. Alguns pontos têm me chamado muito a atenção nesse trabalho.
 
A suã, considerada saborosa, tem muito osso, ou seja, carne de fato não é em grande quantidade. Chega a ser desprezada, por não ser de primeira. Mas não houve uma única instituição na qual cheguei em minha primeira visita que não fizesse festa ao receber o que eu levava.
 
A cozinheira de um abrigo bateu palmas ao ver aqueles sacos grandes, cheios de suã. “Adoro preparar e gosto mais ainda de comer”, repetia ela. “Pode trazer sempre que tiver.” Eu, cozinheira ignorante, pensando no trabalho que dá cozinhar aquela quantidade, tive que engolir calada toda aquela alegria.
 
Outra agradeceu destacando a riqueza em proteínas e tudo de bom que aquilo tudo representava para os assistidos, que dependem do alimento adequado para o tratamento ao qual são submetidos. Conclusão, nunca pense que o que se dá com amor vá ser recebido de forma diferente, por mais simples que seja. Suã para eles é filé mignon. E de fato o é. Quem vai discutir? Eu, jamais.
 
Certa vez, quando eu entrava no carro depois de carregar uma boa quantidade de legumes que ganhamos para serem entregues às instituições, aproximaram-se de mim, muito timidamente, dois porteiros funcionários da empresa doadora. Ouviram-me contar que eu também entregava suã em instituições.
 
Queriam me sugerir um local “bem pobrezinho” que acolhia crianças e adolescentes bem perto dali. Anotei tudo e perguntei o nome deles para dizer quem havia me encaminhado. “Fala que foi nós daqui.” Brinquei dizendo “é nós daqui mandando para vocês daí?”. Eles riram e confirmaram. Simples assim.
 
Não que não queriam assumir a responsabilidade que lhes cabia. Apenas não dão importância a ser reconhecidos. Apenas fazem, não falam. Simples assim.

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