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Estado de Minas

Fundadores do extinto Grupo Mineiro de Moda defendem mudanças no mercado pós-pandemia

Vivemos uma crise sem precedentes, mas, para entender como sair dela, é bom ouvir quem já passou por outros tantos desafios, como integrantes do lendário Grupo Mineiro de Moda


postado em 05/07/2020 04:00 / atualizado em 05/07/2020 11:46

Sonia Pinto e Liana Atelier(foto: Thiago Oliveira/Divulgação e Luiza Ananias/Divulgação)
Sonia Pinto e Liana Atelier (foto: Thiago Oliveira/Divulgação e Luiza Ananias/Divulgação)
O que esperar da moda pós-pandemia? Difícil prever qualquer cenário, ainda mais diante de tantas incertezas. Mas, neste momento, a experiência pode ajudar a enxergar mudanças necessárias para se manter em um mercado tão desafiador. O caderno Feminino & Masculino ouviu estilistas que fizeram parte do Grupo Mineiro de Moda e revolucionaram o mercado nos anos 1980. Todos passaram por muitas turbulências e chegaram ao ponto de fazer moda como acreditam. Com eles, temos que aprender mais sobre slow fashion, qualidade, conforto e atemporalidade.

Sonia Pinto admite que nunca conseguiu acompanhar a pressão da moda. “Nunca consegui entender aquela loucura nos anos 1980. Fui uma das fundadoras do Grupo Mineiro de Moda, fiquei seis meses e saí”, relembra a estilista, na época com a marca Printemps. Depois que “quebrou”, nos anos 1990, ela decidiu não trabalhar mais dentro de nenhuma regra do mercado e fez seu próprio calendário. Desenvolve e lança as coleções aos poucos (se o inverno rende até setembro, ela dá continuidade).

Isso faz sentido, porque Sonia sempre investiu em uma roupa atemporal. Há 10 anos, quando abriu a loja em São Paulo, ousou mostrar como suas peças antigas eram atuais. “Já colaboro com a sustentabilidade há muitos anos. Não concordo com nada descartável. Melhor ter uma peça boa do que 10 ruins, que vão entupir o mundo de lixo.” Por muito tempo, ela seguiu esse caminho solitária. Agora, acredita que não vai mais estar sozinha. “Todos vão ter que entrar nestas circunstâncias que a vida está mostrando. Não é fast fashion, comprar e jogar fora. Não é nada disso.”

Segundo a estilista, o momento é de simplificar, ou seja, fazer uma roupa casual e confortável. Na coleção de inverno, lançada em março, destaque para tricôs de lã e malhas. “Sorte que faço uma malharia muito bacana. Além de confortável, é fácil de usar. Dá para qualquer momento, desde ficar em casa até sair.” Peças de alfaiataria entrariam no lançamento de maio, que não aconteceu.
 
Sonia Pinto(foto: Thiago Oliveira/Divulgação)
Sonia Pinto (foto: Thiago Oliveira/Divulgação)

Aos 71 anos, Sonia confessa que está cansada de se reinventar, mas, como toda a família (são quatro filhos) depende da marca, não é hora de fechar e desistir. Ela diz que continua atenta ao que está acontecendo, com esperança, alegria de estar viva e fé de que isso vai passar, mas vai passar deixando tudo no chão. “O que vai resistir a esta parada brutal? Acredito em um trabalho mais verdadeiro, mais consciente e mais consistente, em tudo o que tem mais carinho, mais criatividade, mais sedução, mais poesia. Não só na moda, é uma mudança de vida, de atitude, de formas de cuidar do outro.”

A estilista se prepara para a inédita venda on-line. Apesar de não acreditar neste modelo, ela entende que esta é a única alternativa no momento. Prevendo um encolhimento, talvez até tenha que fechar as lojas físicas (BH e São Paulo), mas não vai perder o cuidado com as clientes. “A pouca venda está sendo maravilhosa pelo feedback. Isso me dá muito conforto, ânimo e alegria de saber que estava no caminho certo. A clientela é tratada aqui como parceira de vida, sempre cuidada com o maior carinho, não é descartável. Quem não tem ligação afetuosa com o seu cliente está ferrado.”

Faz tempo que Liana Fernandes, ex-Comédia, não segue o calendário da moda. Cansou de correr para criar uma coleção atrás da outra, quer ter prazer em fazer roupa. Hoje, ela define seu trabalho à frente do Liana Atelier como slow fashion de verdade, produção pequena, peças lançadas no tempo certo, sem seguir tendências. “A proposta sempre foi essa, a de consumo consciente, de uma roupa atemporal, de qualidade, de trabalhar com tecidos naturais, tentando chegar mais próximo da sustentabilidade”, explica.

Liana já fazia o que virou prioridade no momento. Tanto que fechou parceria com uma loja em São Paulo no meio da pandemia, justamente pelo conceito da marca. Na coleção 5 (a mais recente), o conforto segue como fundamento. “A peça, além do conforto, tem que acariciar você.” Tricoline e voil de seda estão entre os tecidos mais usados. A estilista continua explorando o tie-dye em parceria com um artista plástico e também transformou uma gravura da filha, Ana Grebler, em estampa. Destaque para as capas (com modelagem de overcoat, mas leves).
 
Liana Atelier(foto: Luiza Ananias/Divulgação)
Liana Atelier (foto: Luiza Ananias/Divulgação)

Adaptação e inovação são as palavras da vez para Liana. A marca, que não vendia nada on-line, estruturou seu site quando a pandemia chegou e já consegue ter um número significativo de pedidos por semana. A estilista também se voltou para as sobras de tecidos e desenvolveu (poucas) peças, que não estavam no planejamento. Alguns moletons, por exemplo. “Peguei muito tecido que tinha e fiz reaproveitamentos, isso tudo dentro da sustentabilidade. Tudo pouquinho, dentro do que dava, usando as modelagens que já tinha. A gente vai se reinventando.” 

DIÁLOGO 

A estilista está animada com as discussões em torno das mudanças do mercado. Para ela, tudo na indústria da moda tem que ser repensado, inclusive a quantidade que se produz, já que o mundo está saturado de produtos não essenciais. Liana defende a urgência de entender as necessidades do consumidor, propondo um diálogo mais aberto e mais honesto. “Não é mais fazer e comprar roupa para acabar daqui a três meses. Acho que o consumo tem que ter mais significado, a qualidade vai ser fundamental, e as marcas vão precisar trabalhar com mais responsabilidade, inclusive social.”

Inovação, criatividade e diferenciação são conceitos que ganham força em tempos de crise. O polo calçadista de Nova Serrana, na Região Centro-Oeste de Minas, está nesta busca desde janeiro e, com pandemia, ela se torna ainda mais necessária. “A cidade tem um histórico de fazer produto barato e cópias de marcas estrangeiras, sem trabalhar criatividade e identidade. Acho que a diferenciação é importantíssima para as marcas, ainda mais agora”, aponta Monica Baptista, que coordena o centro de design criado pelo Sindicato Intermunicipal da Indústria do Calçado de Nova Serrana (Sindinova).

Uma das fundadoras da extinta marca de sapatos Frizon, a designer ajuda as fábricas a incluírem informação de moda nas coleções. Inicialmente, participam 20 fábricas, mas a iniciativa deve beneficiar cerca de 800 empresas da cidade. O trabalho envolve buscar a identidade da marca, em qual nicho de mercado focar, onde existe mais possibilidade de se destacar, qual estilo seguir. “Depois de 42 anos de carreira, é muito gratificante participar de um processo de evolução de Nova Serrana. Para mim, é um desafio mudar a mentalidade e a cultura da cidade.”

Com a retomada da economia, Monica enxerga que os clientes vão comprar menos e melhor, por isso é tão importante a busca por produtos diferenciados. “Numa época de crise, o lojista pesquisa mais, então as fábricas devem sempre estar prontas para encantar e surpreender. Daí a necessidade de mostrar, mais do que nunca, uma identidade inquebrável.”

A pandemia acabou influenciando diretamente no desenvolvimento das coleções, já que as empresas estão sem perspectiva de quando serão os lançamentos. “Tenho procurado fazer produtos mais atemporais, num estilo minimalista e contemporâneo, focando em qualidade, inovação e conforto, que vão servir para inverno e verão.” Além de escolher itens que duram mais tempo no armário, a designer acredita que o consumidor buscará cada vez mais conforto. Monica aposta nos flats (sapatos sem salto), incluindo sandálias rasteiras, flatforms e sapatilhas. Os saltos grossos também entrarão nos catálogos.

Mais valor à criatividade

Parece um recomeço. É assim que Terezinha Santos se sente nesta reviravolta do mundo. Segundo ela, é um recomeço para a sua geração e também para a nova geração. Todos vivem um momento de mudança de valores, de colocar o planeta e a sociedade em primeiro lugar e entender que precisamos de menos para viver. “O vírus vai trazer grandes consequências. Tem o lado ruim de reduzir as oportunidades de emprego, mas vejo como consequência dar mais valor à criatividade”, comenta a estilista, que integrou o Grupo Mineiro de Moda com a marca Patachou e hoje comanda o TS Studio.
 
Trabalhando em Nova Serrana desde janeiro, Monica Baptista diz que a diferenciação será fundamental pós-pandemia(foto: Rhodes Madureira/Divulgação)
Trabalhando em Nova Serrana desde janeiro, Monica Baptista diz que a diferenciação será fundamental pós-pandemia (foto: Rhodes Madureira/Divulgação)
 
A moda terá que ser muito mais criativa pós-pandemia. Diante da escassez (de dinheiro e matéria-prima), Terezinha entende que o desafio será mostrar que menos pode ser muito mais, e daí podem surgir muitos talentos. “Nós estávamos numa compulsão por muitas coleções, muito excesso, uma demanda muito grande por novidades, fazendo, fazendo sem parar. Acredito na busca por um estilo individual, fazer algo que tenha significado para você mesmo, com mais tranquilidade, com menos cobrança, mais respeito, produtos mais atemporais verdadeiramente”, analisa.

Um dos pontos de discussão urgente, na opinião de Terezinha, é reconsiderar verdadeiramente a sustentabilidade em tudo o que envolve a moda. Para ela, a sustentabilidade tem que ser um dos pilares da indústria da moda. “Se você não consegue fazer com que tudo aconteça, pelo menos tem que começar a pensar diferente verdadeiramente, para incorporar a sustentabilidade em vários pontos da sua própria vida, do seu trabalho, em ações verdadeiras”, pontua.

O TS Studio já estava de olho em novas oportunidades de negócios e há um ano vem desenvolvendo uma plataforma que se encaixa bem no momento. A Uniformes Net surge como uma solução tecnológica para que confecções de uniforme entrem no mundo digital. “Entendemos que o mercado de uniforme é muito off-line, a moda corporativa é muito dependente de visitas presenciais, então criamos uma plataforma on-line”, explica o diretor-executivo do TS Studio, Rodrigo Santos. O cliente entra no site, onde encontra fotos produzidas e tabela de medidas para escolher as peças.

Segundo Rodrigo, existe a possibilidade de usar esta mesma plataforma para vendas de atacado. Como haverá restrições a feiras por um tempo, a ideia é facilitar o contato das marcas com os lojistas.
 
Para Terezinha Santos, fundadora do TS Studio, a sustentabilidade tem que estar no centro das discussões da moda(foto: Weber Pádua/Divulgação)
Para Terezinha Santos, fundadora do TS Studio, a sustentabilidade tem que estar no centro das discussões da moda (foto: Weber Pádua/Divulgação)
 
O estilista Renato Loureiro acha difícil fazer uma previsão do que será a moda pós-pandemia, mas já enxerga algumas ações como certas, entre elas diminuir o tamanho das coleções e repensar o calendário de lançamentos semestrais. Uma das possibilidades seria, de uma coleção para outra, reeditar os campeões de vendas. “Quando terminar de vender uma coleção, você descobre o que teve mais aceitação e pode voltar com as peças em outro tecido, com outra manga, mas reaproveitando a modelagem. Isso pode ser feito com velocidade maior e menos investimento”, aponta.

O momento também traz reflexões sobre os desfiles, que, segundo Renato, “há muito tempo não estavam mais cumprindo o papel de gerar desejo no consumidor final”. “Essa pandemia pode provocar uma criatividade diferente e vir com um conceito novo que possa empolgar mais. Os desfiles já estavam sofrendo desgaste, pelo valor que gasta e pela velocidade acelerada do mundo.”

Nos anos 1980, quando o Grupo Mineiro de Moda despontou, os desfiles duravam de 25 a 30 minutos. Passado um tempo, a apresentação de 15 minutos do estilista Inácio Ribeiro (conhecido como Papaulo) para a extinta marca Mabel Magalhães, na São Paulo Fashion Week, foi classificada por uma crítica de moda como desfile-relâmpago. “Hoje se faz um desfile em cinco minutos”, compara. Sem falar que o consumidor já quer comprar aquela roupa logo que as luzes se apagam.

Olhando para o futuro com entusiasmo e sabedoria, apesar de estar com vários projetos em suspenso, o estilista não acha que os desfiles vão desaparecer. Renato concorda com a italiana Dolce & Gabbana, que diz não enxergar outra forma de colocar seu produto à venda que não seja na passarela (o próximo desfile, presencial, está marcado para daqui a 10 dias). Na opinião dele, a passarela eleva o desejo pela roupa. Mas, é claro, a realidade será diferente. “Acredito em sessões privê só para a imprensa, depois só para compradores especiais, com distanciamento e máscara até que a vacina contra o vírus saia.”

Renato diz que ainda tem quem não consiga comprar roupa sem vê-la de perto, por isso aposta na permanência dos desfiles e das lojas físicas (em menor quantidade). Para ele, os pontos de venda vão funcionar como guias para as compras pela internet. “Não acho que as lojas vão fechar e virar só on-line, as marcas precisam ter uma loja-conceito para mostrar sua proposta para o consumidor. Além disso, você pode tocar na roupa para saber se o tecido é agradável, confirmar se o sapato tem a mesma proporção da foto, sentir o cheiro do perfume. Não vejo substituto para isso.”


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