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Estado de Minas COLUNA TIRO LIVRE

O último jogo de Fred, ou o adeus de um especialista em gols

Só quando sair de campo no jogo entre Fluminense e Ceará, no Maracanã, vamos poder dizer que Fred foi. E ao ir, ele vai deixar lembranças boas em muita gente


07/07/2022 19:44 - atualizado 07/07/2022 22:51

Fred recebe faixa de agradecimento de torcedor do Fluminense
Fred recebe faixa de agradecimento de torcedor do Fluminense (foto: MARCELO GONÇALVES / FLUMINENSE)
Pode-se dizer que Fred é um centroavante à moda antiga. Aquele legítimo camisa 9, nunca tratou de inventar moda. Sabedor de que o lugar dele é na área, dali não sai. Faz valer cada centímetro daquele espaço, assim se fez homem-gol. Especialista em balançar as redes, conhecedor da arte de encontrar brecha nas defesas adversárias.

Não sei se você, leitor, percebeu os verbos das primeiras linhas desta coluna no presente. Fred é. Só neste sábado, quando sair de campo no jogo entre Fluminense e Ceará, no Maracanã, ele poderá ver a carreira como algo passado. Vamos poder dizer que Fred foi. E ao ir, ele vai deixar lembranças boas em muita gente.

Quem acompanha Fred ao longo desses quase 20 anos pode perceber que ele pouco mudou. É praticamente a mesma cara desde que foi descoberto pelo Brasil ao fazer o gol mais rápido do futebol, na Copa São Paulo de Futebol Júnior 2003: então jogador do América, chutou a bola do meio-campo, logo na saída de jogo, e sacramentou, diante do Vila Nova-GO, o lance que o tiraria do anonimato.

Aqueles 3,17 segundos históricos, no Estádio Ítalo Mário Limongi, em Indaiatuba, mudaram a vida do atacante.

Nesse dia, todo mundo conheceu o Fred do sorriso largo, o camarada bom de papo. Nada disso se modificou, nem tampouco o brilho no olhar com o futebol, herança forte do pai boleiro, Juarez, que seguiu de perto todos os passos do filho.

Na análise jornalística, o atacante também é ótimo personagem: inteligente, extrovertido e desembaraçado, sempre rendeu boas entrevistas. Vaidoso, como convém aos virginianos, costuma deixar escapar também o lado emotivo. 

Apesar de ter sido revelado pelo Coelho, criou forte vínculo com o Cruzeiro, onde teve duas passagens. Na primeira, indiscutivelmente melhor, entre 2004 e 2005, fez seu nome em solo nacional e carimbou o passaporte para a Europa, para defender o Lyon.

Na volta ao Brasil, para jogar no Fluminense – onde viria a se tornar, para muitos (inclusive o atual treinador, Fernando Diniz), o maior ídolo do clube –, estabeleceu um acordo virtual e pessoal: não comemoraria gols contra a Raposa.

Manteve a "promessa" onde quer que fosse o jogo: no Maracanã, no Engenhão, no Mineirão. Não fugia à obrigação de goleador. De frente para a meta celeste, cumpria seu ofício e marcava os gols. Mas assim que a bola tocava o fundo da rede cruzeirense, ele se recolhia, num gesto de respeito com o ex-clube. Acreditava que, dessa forma, ficaria bem com a torcida tricolor e não alimentaria a ira de que o idolatrava.

Em 2016, quando vestiu a camisa do Atlético, muitos se perguntaram: "E agora?". Criou-se até um certo suspense, digno de capítulo final de novela. Que Fred faria gol no Cruzeiro, pelo Galo, era muito provável, afinal, deveria seguir sua missão. Mas como reagiria? Teria coragem de ferir o coração celeste?

Em 12 de junho daquele ano, o mistério teve ponto final. Justamente na estreia pelo alvinegro, Fred estava frente a frente com a Raposa. No Independência, pelo Campeonato Brasileiro, Dia dos Namorados, o reencontro com um (ex) amor. E aqui vale um parêntese: Fred nunca escondeu sua torcida pelo Cruzeiro.

Naquela ocasião, no entanto, não teve jeito. Ele cumpriu seu papel de artilheiro, deixou sua marca aos 10 min do segundo tempo, quando o time celeste vencia por 2 a 1, buscou a bola dentro do gol e partiu para a comemoração com a Massa: ergueu os braços, levou a mão ao ouvido e mostrou a camisa à torcida. O Cruzeiro voltaria a marcar e a fechar o placar em 3 a 2, num jogo emocionante. 

Após encerrar sua passagem pelo Atlético, em dezembro de 2017, Fred contrariou cláusula estabelecida em contrato, retornou para a Toca da Raposa e iniciou um imbróglio judicial que até hoje não se resolveu. 

Por enquanto, aquele que é o último gol também seguiu o estilo passional do atacante, recheado de emoção. Domingo passado, ele fechou a goleada do Fluminense por 4 a 0 sobre o Corinthians, no Maracanã. Aos 45 do segundo tempo, bem ao seu estilo e na área, onde reinou. Foi o 199º gol dele pelo tricolor, levando os torcedores à loucura. Fred desabou em lágrimas.

Foi um aperitivo do que será visto neste sábado, contra o Ceará. Certamente, todos esses elementos estarão presentes. E para o ponto final ficar perfeito, com um gol de Fred.

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