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Estado de Minas TIRO LIVRE

Como se faz um time copeiro

A equipe de chegada não se afoba diante da ameaça adversária. Não se desconstrói ao sofrer um gol. Não abre mão de sua estratégia nem sai atropeladamente em busca do empate ou da virada


postado em 19/07/2019 04:00

(foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)
(foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)


Jogos decisivos, raramente, são definidos sem emoção. No dicionário do torcedor, a palavra certa é sofrimento. Quando o duelo é temperado por velhas rivalidades, aí a temperatura sobe ainda mais. Assim foi o Atlético x Cruzeiro desta semana, que assegurou à Raposa passagem para mais uma semifinal de Copa do Brasil. O que pouca gente se atenta nesses momentos é como todo esse contexto travestido de sufoco ajuda a forjar equipes que, na linguagem do futebol, ganham a alcunha de “times de chegada”. E o Cruzeiro de Mano Menezes é um legítimo representante dessa linhagem.

Por vezes, a atuação, de tão pragmática, irrita o torcedor. Não são poucos os cruzeirenses a se sentirem divididos, desde a noite de quarta-feira, entre a satisfação pela classificação e a preocupação com a produtividade do time no Independência. Afinal, não é bom ver sua esquipe ser atacada praticamente durante os 90 minutos sem imprimir resistência. Em vez de um time reativo, os celestes queriam um time proativo, como pressupõe a escola da “Academia” que remete às origens.

De fato, o Cruzeiro aceitou o jogo atleticano no Horto. Mas já parou para pensar que isso pode fazer parte de um grande plano do treinador, uma filosofia à la Chapolin Colorado, segundo a qual os movimentos da Raposa foram friamente calculados? Pois Mano, Fábio, Fred, Pedro Rocha, o médico, o massagista, até o motorista que levou a delegação cruzeirense ao estádio sabiam que o Atlético ia apostar no ataque, não havia outra opção ao Galo, diante da derrota por goleada (3 a 0) no jogo de ida. Ao Cruzeiro, cabia se posicionar atrás, em ponto de contra-ataque, ou optar por apagar o fogo alvinegro desde a defesa, para diminuir os riscos. Mano escolheu a primeira alternativa. Nenhuma surpresa para quem conhece o estilo dele.

Mas é justamente com esse estilo – hoje tão contestado – que Mano leva o Cruzeiro à sua quarta semifinal consecutiva de Copa do Brasil. Um privilégio para poucos no futebol brasileiro, em que um técnico mal consegue passar de uma temporada para outra no emprego. Nessa lista, há duas finais e dois títulos, em 2017 e 2018. Mano é um treinador que conhece o caminho das pedras, e nas decisões a visão que essa experiência proporciona a ele ajuda a deixar seu time um passo à frente dos adversários.

Ele pode antever a tática do rival para construir sua estratégia. Nem sempre o caminho vai ser pelo futebol bonito. O objetivo é o resultado. Do resultado, vêm os títulos. Quando essa conta fecha, não dá para contestar. E a conta de Mano tem fechado.

Somando a essa vivência do treinador vem a estrutura de time. O Cruzeiro conta com um grupo qualificado como “cascudo”. Jogadores que, com a camisa azul ou por outras equipes, já estiveram em partidas decisivas, em disputas de títulos e que, por isso, criaram aquela casca necessária para encarar cenários de tensão. A espinha dorsal da Raposa é praticamente a mesma das semifinais anteriores, se não com muitos jogadores, pelo menos com elementos-chave. Estiveram tanto na conquista de 2017 quanto na de 2018 como titulares e assim permanecem o goleiro (Fábio), um zagueiro (Leo), um volante (Henrique) e dois armadores (Robinho e Thiago Neves). Retrocedendo um pouco mais, Leo, Henrique e Robinho também estavam na semi de 2016, em que a Raposa caiu diante do Grêmio. Dedé, Romero e Ariel Cabral são remanescentes dessa época, apesar de, por motivos diferentes, não terem toda essa sequência como titulares.

É essa combinação que geralmente faz um time de chegada. O copeiro, como a torcida gosta de definir. O próprio Mano Menezes admite que a tática de quarta-feira só obteve êxito porque ele tem esse time cascudo. “Nossa experiência de classificar assim, de ver que você passa sufoco mesmo, fez a gente levar essa classificação. Fizemos um jogo muito bom na quinta-feira e suportamos a pressão hoje (quarta)”, disse após a partida.

A equipe de chegada não se afoba diante da ameaça adversária. Não se desconstrói ao sofrer um gol. Não abre mão de sua estratégia nem sai atropeladamente em busca do empate ou da virada. Não se arrisca sem necessidade. Mesmo quando a fase não está boa – e tecnicamente o Cruzeiro não vive seus melhores dias, não há como negar –, essa aura de time copeiro dita o ritmo em campo. Ajuda a lidar com as adversidades e a assegurar o foco na meta. E isso extrapola o presente. É consolidado ao longo dos anos. Fica impregnado na camisa. Ela não joga sozinha, mas esse espírito se incorpora em quem a veste.

Quer a prova? Nesta temporada, o Cruzeiro tenta chegar à sua nona final de Copa do Brasil, em busca de seu sétimo título. Números superlativos. Nem todos esses troféus foram assegurados por grandes esquadrões, ou sem sobressaltos ao longo da campanha. Todos, contudo, ajudaram a formar a identidade do que é estar no clube.



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