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Estado de Minas PADRÃO PERIGOSO

Só é possível ser feliz magra?

O que a alimentação da Bárbara do BBB 22, o desespero do Arthur Aguiar por pão, o emagrecimento do filho do Faustão e o casamento da Jojo Todynho têm em comum?


02/02/2022 11:11 - atualizado 02/02/2022 12:15

Jéssica Balbino feliz mostrando uma sobremesa
Jéssica questiona de a magreza realmente traz felicidade (foto: Paulo Tothy)

De acordo com familiares, amigos, médicos, nutricionistas, psicólogos, coachs, curandeiros, comentaristas, jornalistas e adolescentes tuiteiros, sim. Só existe um caminho pra felicidade neste mundo e ele não passa sozinho pela autorrealização, mas só é alcançado se a pessoa estiver dentro dos padrões: sendo magra, é claro. 


Atualmente, três casos chamam a atenção sobre isso: o da participante Barbara, do BBB22, que preocupa inclusive outros participantes, ao se alimentar exclusivamente de água, limão e ovos, além de álcool durante as festas. Bárbara tem um fenótipo de Barbie. Habita um corpo que nunca foi outra coisa senão desejado. Mas tem tanto pavor de ser gorda que desenvolveu um transtorno alimentar - e aqui nem vou entrar no mérito da produção do programa escalar uma pessoa que precisa de tratamento para estar confinada. 

Barbara chupando limão no BBB22
Os hábitos alimentares de Bárbara no BBB22 preocupa espectadores e colegas de confinamento (foto: TV Globo/Reprodução)


A gata acredita que o pior que pode acontecer com ela é ser gorda, então aposta tudo, inclusive a própria saúde, num corpo magro. E da-lhe goela abaixo a ilusão de corpos gordos são doentes e magros saudáveis. 

Do outro lado temos Arthur Aguiar, também participante do BBB22, que é casado com a “coach de emagrecimento”, Maíra Cardi, também ex-BBB. Maira deveria estar presa, ou, no mínimo ser responsabilizada pela desinformação que promove através das contas nas redes sociais. Certa vez, chegou a dizer - como alguém poderia checar? - que fez jejum de 7 dias. Irresponsabilidade do tamanho da conta com mais de 6,5 milhões de seguidores. 

Arthur Aguiar comendo pão no BBB
Maíra Cardi, esposa de Arthur Aguiar usou as redes sociais para reclamar que o marido estava comendo pão (foto: TV Globo/Reprodução)


Nos primeiros dias do programa ela gravou um vídeo braba porque o marido havia comido pão. Sim, gente! Pão. Para ela, que se defendeu dizendo que já havia “emagrecido” - e vejam, aqui a palavra entra quase no escopo da “cura”- mais de 500 mil pessoas e que ele “estragaria” o corpo que ela ajudou a conquista-lo. 

Me intriga o absurdo da frase. Seres humanos se alimentam. Quando é que se manter vivo virou estragar o que quer que seja? Sabe! 

Em tempo, as manchetes de alguns veículos deram conta durante a semana: “Filho de Faustão, João Silva chega aos 18 anos com 50kg a menos, fama e primeiro namoro”. Eu fico me perguntando: se ele fosse gordo não chegaria aos 18 anos? Não seria famoso? Não namoraria? Não seria filho do Faustão? 

Toda frase está atrelada ao emagrecimento do rapaz, colocando a fama, a maioridade e o namoro na conta do corpo. Como se tudo que ele tivesse vivido, até então, num corpo gordo não tivesse valor. Como se a vida realmente só tivesse início agora: não aos 18, mas no corpo magro. 

Antes dele não tinha subjetividade? Atrativos? Beleza? Se tornou depois do corpo?! Chega a ser perverso! 

E por falar em perverso, na última semana, publiquei aqui um texto sobre o preterimento afetivo que mulheres fora do padrão enfrentam. Muita gente se identificou. Mas fui duramente rechaçada no Twitter. Além dos clássicos: “é só emagrecer que passa”, uma horda de adolescentes com personagens de desenhos nos avatares me atacou em peso. Fui ao perfil deles e a maioria é, declaradamente, gordofóbica.

O motivo? Tem medo de se tornarem pessoas gordas e sofrer o que eles mesmos provocam. Entre os xingamentos mais leves, eles desejam a morte de pessoas gordas - ou que estas comam até explodir. Postam fotos e vídeos de pessoas gordas e as ridicularizam e, o mais grave: celebram há quanto tempo estão em jejum, postam foto do quão magros estão, comemoram juntos sempre que alguém passa mal ou desmaiam, se cortam e dão dicas de como se livrar da comida ingerida, incentivando a bulimia. Em nenhum destes perfis tem alguém preocupado com a saúde de ninguém. 

No meu tem. 

Estes casos explicitam que nunca foi pela saúde. Sempre foi por forçar todo mundo a caber num ideal de magreza, que vai saber, deve ser mais fácil de controlar. 

E, mais grave do que a inadequação que se submete corpos que por motivos vários não conseguem - ou simplesmente não querem emagrecer - está o descaso com a saúde em nome da saúde e, mais, o único caminho possível pra felicidade. 

Como alguém pode ser feliz sem nunca comer um pão? Como é que da pra ser feliz com água e limão? Quiçá um ovo?! O nome disso é tortura. 

Mas, claro, tem os defensores da “mágica”: “é só fazer uma bariátrica”. E da-lhe cirurgia de alto risco pra atender a demanda do outro e ganhar o card do direito à felicidade. Recomendam a pratica como quem recomenda extração de dente siso ou colocação de lace, ainda mais simples, indolor e transformador. 

Na prática, além dos riscos - que é pauta pra outra coluna - a felicidade não vem. Não é imediata. E eu sempre gosto de exercitar a pergunta: você mutilaria seu corpo pra acessar afeto?! 

Falando em afeto, o recente casamento da Jojo Todynho escancara o entendimento social de que a mulher gorda não merece ser amada. Ela se casou após cinco meses de relacionamento com um homem jovem, brando e magro. Rapidamente, a maior parte dos comentários davam conta de que ele estaria com ela interessado no dinheiro dela ou em qualquer outra coisa que não na pessoa que ela é, além de sugerirem que, rapidamente, ele irá atrás de uma mulher magra. 

Jojo Todynho em seu casamento
As intenções do noivo é questionada por internautas no casamento de Jojo Todynho (foto: Reprodução)


Novamente, é cruel. É cruel em diferentes níveis, mas demonstra como, no imaginário coletivo e social, a mulher gorda não só é privada de afeto, como deve permanecer assim. Se ela for uma pessoa pública e demonstrar como está feliz no corpo que tem, se casando e tendo um enlace com alguém padrão, vão tentar desacreditar disso de todas as maneiras. 

Quando as pessoas pensam que ele pode estar com ela por interesse - e nem tô falando de verbalizar isso ou jogar em comentários maldosos nas redes não - é porque sentem, e alguma forma, o que a gente chama, ora ora, de gordofobia, que é, nada mais, nada menos, do que a fobia dos corpos gordos. São, claramente, pessoas que acreditam e entendem que mulheres gordas não podem ser amadas, não podem se casar, não podem ser felizes. E reforçam o título deste artigo: só dá pra ser feliz magra?

Pra quem acredita nisso, sim! 

Sei que me encontro num lugar, talvez privilegiado, de ter atravessado esse caminho sombrio e ter entendido que não faço questão desse afeto, se ele for pela minha forma física apenas. Mas consigo entender quem faz. 

Só é possível ser feliz magra? Não! Mas talvez a vida seja mais gentil e generosa com quem não precisa se esforçar o suficiente para sê-lo, e, naturalmente, acessa afetos e oportunidades, em nome da distinção e do preterimento de quem não passa por estes lugares. 

Dia desses minha amiga saiu com um cara de um app de relacionamento. Ao chegar, a primeira fala dele, acompanhada por uma imagem dele gordo foi: “duvido que se eu ainda fosse assim você sairia comigo!” 

Me provocou em muitos lugares, porque eu entendo o que ele diz. Eu tenho, no meu entorno, um monte de gente que me adora, me admira, me acha foda. Essas pessoas, secretamente, desejam que “eu um dia resolva ser feliz e emagreça”, assim, elas até poderão se relacionar comigo. Sair de mãos dadas, postar foto, etc! Caso contrário, serei a eterna melhor amiga gorda - já que não me sujeitarei ao papel das sombras de relações. 

Mas, entendo o que ele disse, embora ache gordofóbico consigo mesmo e com quem não fez a escolha da mutilação. A grande questão é: ele está mais feliz?
A fala nos mostra que não. Como pessoa em sua subjetividade, ele é o mesmo. Só que agora, acessa o desejo e, talvez, o afeto. 

Contudo, penso ser criminoso - porque cansei de usar o adjetivo perverso - fazer uma pessoa acreditar que se ela se mutilar, ficar meses só ingerindo líquidos, perder a saúde, criar nóias, etc, ela vai ser mais feliz. 

Ou vai poder ir à praia, à piscina, comer publicamente sem ser julgada, ser paquerada, ser desejada. 

Vale isso tudo? 
E talvez essa seja a pergunta de milhões. 

É tão importante assim agradar ao outro na ilusão de que isso trará afeto, acessos e felicidade ou é mais confortável ser feliz sendo quem se é, se amando e se cuidando, sem que pra isso sejam necessários comportamentos doentios? 

Vale se adoecer pra acessar afeto? 
Desconfio que não. E sigo, sozinha. 

Por aqui, sigo tentando ser melhor a cada dia: comendo o que sinto vontade, me relacionamento com as pessoas que não exigem - ou sequer sugerem - que eu deva me diminuir pra caber. Cultivando afetos que eu posso assumir e me assumem, publicamente - e falo de amores e de amizades.

Sigo fazendo o que tenho vontade, exibindo meu corpo onde quer que eu sinta que devo exibi-lo e mais: fazendo dele uma máquina de experimentação, de prazer, de gozo, de viver todas as delícias que eu puder, enquanto há tempo.

Não perderei mais, nesta vida, um segundo sequer tentando ser magra para agradar o outro, a sociedade, quem quer que seja. Eu me amo assim e nem toda negativa de afeto do universo será suficiente para demover o que construí pra mim, sendo eu mesma. Que bom! 

Feliz seria uma aposta muito alta, mas cada dia mais confortável com quem sou e escolhi ser. De mãos estendidas e braços abertos a acolher quem quiser vir por este caminho também. Bora? 

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