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Estado de Minas

'Não cabe a desculpa da pressa, o trabalho mora em casa'

No Diário da quarentena, Cris Guerra escreve sobre o período em que 'é do que não dá lucro que o tempo se ocupa'


23/09/2020 04:00

Diário da quarentena

Trivial, simples, cotidiano

Por Cris Guerra

Cento e oitenta e cinco dias, um seguidinho do outro. Nem um hífen, nem uma viagenzinha pra pôr vírgulas na convivência. Saídas raras, louças insistentes, roupas sujas lavadas em família – nem sempre na lavanderia. A mãe apura o climatério, o filho adolesce confinado. Dia desses disse bom-dia e quase matou a mãe de susto. Que voz era aquela, achou que era ladrão. Está certo, foi o tempo que roubou a infância do menino e ele cresceu descansando, que nem a massa de pizza que a mãe agora sabe fazer. Não restou roupa que sirva, paciência. Por ora, basta o pijama e um sofá. Depois penso nisso, ela repete em voz alta, sem saber onde estará esse depois que ela imagina. O devagar passa rápido neste mundo que acabou mas continua.

Ontem mesmo era fevereiro, setembro já vai pelo meio, que ano foi esse, amanhã tem prova, o que faço de almoço agora? A louça se multiplica, a conta de luz aumentou, ninguém faz planos a não ser o vírus. Uma degustação de medos, um festival de sentimentos pontiagudos.

O vírus ocupa as ruas, leva pessoas queridas, rabisca planos de negócios, rasga vouchers de viagens, ri dos nossos projetos. Ele agora é dono da bola. Finca o pé mas não se mostra, somos nós os expostos. Está no que não está. Na manchete do jornal, na máscara do vizinho, no sujeito que não usa máscara e vem vindo em nossa direção. Em casa ele é fantasma.

Tem futuro, não tem futuro, volta aula, não volta aula, olho o gato sem ver o gato, que gateia como de costume sem saber o que é amanhã. Ela sonha receitas bobas, bicarbonato e leite de magnésia, que mate o danado como se lavam pratos. E lava. A louça, a roupa, o chão, o banheiro, as mãos. Tenta lavar a alma enquanto sente medo. Segue lavando o medo pra espantar o tédio.

Entre uma manchete e outra, estende a roupa e envia um e-mail pra não ouvir as verdades que o silêncio diz. Teme a sobrevivência enquanto cuida dela, esse trabalho que dá trabalho e dura pouco, amanhã começa de novo. Cansou de sentir saudade. Pessoas, abraços, certezas. Não tem jardim em casa, mora em apartamento, na pele cultiva flores. A poeira grita num canto, a insônia remexe as gavetas e é do supostamente improdutivo, do que não dá lucro que o tempo se ocupa. Não cabe a desculpa da pressa, o trabalho mora em casa. Em 24 horas, quatro estações a atravessam: acorda inverno e vai dormir outono, farta de um dia quente de verão. Quem sabe amanhã é primavera. Apura-se o ritual de perder tempo. A vida agora mora no detalhe.

Os pássaros cantam na frente de casa. A panela no fogo cozinha o jantar, o filho picou alho mais cedo enquanto dialogavam em silêncio. Com o vento, a persiana bate na janela, o carrinho no supermercado da esquina faz coro com a louça do vizinho. Tudo se apequena frente ao caos à nossa volta. Nunca fez um hoje tão forte. 

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