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Estado de Minas HIT

Na quarentena, a fuga de estar verdadeiramente sozinho foi constante

Compositor e cantor Renato Enoch conta que, aos 26 anos, encara a si mesmo de forma como ele próprio não conhecia


17/09/2020 04:00 - atualizado 16/09/2020 20:47


Mais um dia na contramão da demanda do mundo. Durante todos esses meses de quarentena, a fuga de estar verdadeiramente sozinho foi uma constante. Live num dia, videochamada no outro, planejar, gravar, editar, cuidar do cachorro, cozinhar, descer com o lixo, lavar a louça e, enfim, devanear sentado no piano. Nos dias mais lentos: série nova, videogame, ler um livro que enrolo há meses pra terminar, descobrir um filme que salvei há tempos na minha lista e, de novo, deixá-lo pra depois.

Muita gente não teve este direito: a possibilidade de se proteger em casa e descobrir uma rotina meio desgovernada, às vezes tranquila. É libertador e também aprisionante. Estou bem, mas me sinto estranho. Um dia de muita atividade, outro de não saber levantar da cama. Não consigo me lembrar de uma época assim, de conseguir ir tão fundo no meu processo criativo ou me afundar tão profundamente na minha depressão. Na contramão da demanda do mundo e das rotinas que percebo pelas redes, aumentar a produtividade e criar mais conteúdo não ficou mais fácil.

Sinto que só tenho conseguido mergulhar em oportunidades na beirada do prazo, talvez porque a cabeça está cheia com o disco que estou prestes a lançar. Nem por isso novas oportunidades deixaram de surgir, como essa. Discorrer sobre esse período. Há quanto tempo não escrevo um texto assim? Nos últimos anos, só escrevi em versos. Às vezes, não levo meus versos a sério, muitas vezes esqueço que os criei. Até que eu me lembro de que a música precisa de versos e que eu preciso de música. Cantar e produzir é necessidade e também escape, na quarentena não é diferente. Escrever, no entanto, é um dos momentos em que eu me encaro de verdade. Não é disso que eu estou sempre fugindo? Percebi que essa fuga se tornou impraticável, pelo menos agora.

Viver os meus 26 anos de idade durante uma pandemia global tem sido encarar a mim mesmo de formas que eu não conhecia. Já que estou me encarando, acho que cabe me apresentar. Meu nome é Renato Enoch, sou cantor, compositor e produtor musical. É assim que costumo me descrever, mas me veio que sou muitas outras coisas também. Sou artista independente, sou gay, sou meio geek, sou vegetariano, sou impaciente, mas sou bem-humorado e tento ser gentil. Convivo com a depressão há alguns anos e talvez eu tenha algum nível de fobia social. Às vezes, preciso me isolar. Mas, assim como muita gente, estou de quarentena e o isolamento deixou de ser ocasional.

Passo os dias em casa buscando o equilíbrio entre fazer arte sincera e ganhar dinheiro. Conquistei coisas que nunca imaginei, mas ainda não conquistei várias que eu sempre quis. Me pergunto por que quero o que quero. Travo batalhas entre o meu ego de artista e o meu medo de exposição. Sempre sinto que estou ficando velho e que tenho muita coisa pra desembolar. Não sei se estou e se tenho mesmo, mas deve ser isso que me faz achar tão difícil olhar pra dentro. Mais difícil ainda é entender que é privilégio poder olhar pra dentro e colocar pra fora, enquanto vemos o mundo, lentamente, desabar.

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