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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Um rio de generosidade pelo Cruzeiro

Os garotos da reconstrução têm a chance de viver um sonho não alcançado por um craque cruzeirense


postado em 11/03/2020 04:00 / atualizado em 11/03/2020 08:18

Jogador da Seleção Brasileira no início dos anos 1990, Luís Henrique carregou a tocha olímpica em Pirapora (foto: Rio2016/Divulgação)
Jogador da Seleção Brasileira no início dos anos 1990, Luís Henrique carregou a tocha olímpica em Pirapora (foto: Rio2016/Divulgação)

O apelido era Zão. Possuía o capeta nas pernas. Pior, sabia controlá-lo como se fosse o domador de bestas do purgatório tamanha sua habilidade em conduzir a bola. Ereto, sem desvios, um máquina de produzir dribles. Voava em direção à meta de bambu do outro lado do campinho de areia. Seu dom tinha ares quase apocalípticos, mas o garoto era só completa doçura. Pele negra, tostada pelo sol do Norte de Minas. Uma bocarra para delinear o sorriso largo, roer pequi e caber os inúmeros gritos de gol, quase sempre anotado por ele mesmo e noutras, doado em passe aos colegas – do time sem camisa – nas peladinhas às margens do Rio São Francisco, em Pirapora.

Nasceu ali em 1968. Barranqueiro. Cresceu ouvindo o apito dos barcos vapores em partida para a porção baiana do rio da integração nacional. Nesse tempo de menino bom de bola, sua turma se encantava com dribladores como Joãozinho e Eduardo Rabo de Vaca.

Zão virou moço. Seguiu a calha principal da vida, longe do seu Velho Chico. Tornou-se Luís Henrique, um cracaço. Da Catuense paara Flamengo e Bahia. Do Palmeiras ao Mônaco e Seleção Brasileira. Disputou Copa América; destroçou – com gols e dribles diabólicos – a Alemanha de Matthäus e foi titular no início das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Mas de tanto domar o capeta nas pernas, ele lhe traiu. Lesionado, assistiu a vaga ir para Dunga.

Luís Henrique não foi campeão mundial. Certo dia, uma rádio foi lhe perguntar se não ter ido à Copa era seu maior amargor na carreira. Respondeu um “também”. Para em seguida, completar: “Do mesmo jeito que foi não ter jogado pelo Cruzeiro”.

***

Daniel nasceu na mais linda curva do São Francisco, em Januária. Mais ou menos no tempo em que Zão transformava-se em Luís Henrique. Antes de barranqueiro, já era cruzeirense. Todo filho do Norte de Minas nasce cruzeirense. Ao longo da vida, alguns se desvirtuam. São pouquíssimos. Aceitamos, pois o respeito às minorias está na nobreza do caráter.

O garoto cresceu sonhando azul. Nos banhos pelo rio mais cruzeirense do Brasil ou a cada Supercopa e Copa do Brasil conquistadas à exaustão naquela década de 1990. O amor incontrolável pelo Cruzeiro foi formando uma carapaça de torcedor apaixonado. Se o dom de seu conterrâneo de barranca, Luís Henrique, estava nas pernas, o de Daniel era ser generoso. Tornou-se médico.

Se hoje, no campo, nos falta recursos para termos um Luís Henrique, nas arquibancadas nos sobra a generosidade de torcedores apaixonados. Desprendimento para contornar, em algo mais leve, a dura caminhada da garotada da reconstrução. Dando-lhes tempo para chegarem ao ponto, no final do ano, de nos retornarem gigantes como o Velho Chico.

Sábado passado, nossa torcida cumpriu esse papel. Abraçou os garotos. Cantou, enquanto eles colocavam no peito o manto sagrado, dando alma à camisa, que por si só é capaz de jogar sozinha. Perdemos. Faltou-nos sorte. Sobrou-nos grandiosidade.

Do lado de cá, vivos na Copa do Brasil, é preciso manter o exercício do sábado, nos aceitarmos meninos, jovens como um olho d’água. Não significa passividade, mão na cabeça. Até mesmo os pequenos rios precisam mostrar força para romper cachoeiras.

Nesta noite, contra o CRB, estaremos diante de mais uma forte correnteza do revoltoso 2020. No campo, os garotos terão a oportunidade sonhada – e não tida – numa vida inteira por Luís Henrique. Já nós, nas arquibancadas, poderemos ser como Daniel. Generosos para com as limitações, mas lembrando sempre da responsabilidade de singrar esta temporada mantendo viva a característica natural do jogador ou do torcedor cruzeirense: a alma de campeão.

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