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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Bloco do Raposão arrasta Minas inteira e manda recado

O povo manda avisar a cartolagem: não atravessem o samba enredo da reconstrução


postado em 26/02/2020 04:00 / atualizado em 26/02/2020 14:57

Milhares de foliões cruzeirenses e de outras torcidas dançaram no embalo da bateria da Nação Azul(foto: André Araújo/Bloco do Raposão)
Milhares de foliões cruzeirenses e de outras torcidas dançaram no embalo da bateria da Nação Azul (foto: André Araújo/Bloco do Raposão)




Até os sinos silenciaram-se para ver o Cruzeiro no primeiro dia da festa pagã. Becos, adros de igrejas, sacadas, eiras e beiras enfeitaram-se com adereços azuis e brancos. As pedras tricentenárias das ruas de São João Del Rei, alegres, formavam blocos. Tocadas pelos raios de sol, trincavam, como quem – ansioso – batuca com as mãos o samba porvir.
 
Emanou um agudo tilintar no Largo do Carmo. O repique da caixa mandava avisar: “o Bloco Raposão vai passar nessa avenida azul popular”. Uma multidão começou a dançar, distribuindo sorrisos por entre o cenário do interior mineiro. O grave do surdo ditava o passo, como se anotasse gols atrás de gols. Cruzeirenses, atleticanos, flamenguistas, torcedores de todas as cores e mesmo quem não suporta nem ouvir falar em futebol. Uma massa heterogênea de gente feliz se abraçou, cantou, pulou carnaval, fardada de azul e branco.
 
O amor ao Cruzeiro é admirado por todos. Se um dia diretorias, cartolas e gestores de planilha da nossa instituição compreendessem a essência interiorana do “ser cruzeirense”, entendessem o real significado de sermos o time do povo, iniciativas monumentais, como o Bloco Raposão, seriam tombadas como “patrimônio imaterial” da cultura celeste.
 
O interior mineiro é azul e branco na sua esmagadora maioria, mas o estouro de alegria do Carnaval não é nossa exclusividade. É uma festa onde cruzeirense brinca com atleticano; interiorano pula junto com o da capital; rico divide avenida com pobre; operário pinta o sete com patrão. 
 
Carnaval jamais foi (ou deverá ser) jogo, onde busca-se superar o adversário. É época de dividir contentamento. No caso da Minas Gerais celeste, é momento até de dar a chance aos outros de provar a felicidade de ser Cruzeiro. Mas a quarta-feira de cinzas sempre chega. Se em outros clubes, a vida (e história) é uma eterna ilusão, no caso da Nação Azul, não podemos nos dar esse luxo, pois uma dura realidade nos aguarda.
O único gigante do futebol mineiro não nasceu em berço de ouro. Não tem patrono bicheiro, mecenas com mamadeira de dinheiro público ou aparelhamento dos poderes para lhe pagar estádios alegóricos, plumas e paetês. Nós viemos de uma velha guarda operária e imigrante, onde a vida dura não permite segunda chance.

Para nós, não há tempo para curtir ressaca. A volta à realidade nesse pós-carnaval é urgente, pois atingimos apenas o início do processo de reconstrução de um cemitério clandestino gigantesco deixado pelos sanguessugas e feudos familiares que mancharam a nossa história. Por isso, agora, quando as fantasias voltam para o barracão, e a política interna do clube vai tomar o lugar da leveza, fica o pedido por muita sabedoria, malemolência e cuidado às duas alas lançadas ao pleito pela “presidência-t
ampão”.
Sentem numa roda. Não deixem que a implicância de um ou dois por A ou B contamine um coletivo. Assim como não se permitam a vaidade pessoal acima do bem geral. Mantenham a legitimidade de se ter duas alas nascidas da mesma indignação (ou se unam). Façam do quesito “harmonia” o enredo de nossa escola. Portem a bandeira do respeito mútuo. Troquem estratégias e versos, como vocês mesmos fizeram no instante de extirpar os calhordas da gestão Wagner Nonato Pires Machado de Sá.
Se juntos ou separados, façam do pleito não um jogo, mas um carnaval, onde não exista espaço para retrocessos. Onde se deve rir para não chorar. Não atravessem esse samba da reconstrução, composto pelos senhores mesmos.


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