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Estado de Minas

O Maluco Beleza do Cruzeiro

Depois de Rafaeis e Dedés, jamais gritarei nomes de jogadores, mas aplaudirei de pé o retorno de Moreno para reconstruir


postado em 19/02/2020 04:00 / atualizado em 18/02/2020 23:01

Salomé, faltou você ontem. Seu menino voltou. Ficou perplexo quando encontrou um mar de gente vestida de azul e branco. Hipnotizado pelos gritos dos “loucos”, emocionou-se. No peito, carregava o seu decreto de retorno, que dizia assim: “Eu sei que vão me chamar de maluco, mas que seja maluco pelo Cruzeiro”.
 
Amiga querida, seria lindo se no pé da escada estivesse você, entregando a ele um abraço e um beijo. Talvez se espantaria porque o menino com jeito de índio e dos primeiros gols lá dos idos de 2007 agora está um moço maduro, experiente. Tornou-se o Maluco Beleza Celeste. Veja só!
Depois de Rafaéis, Dedés, Thiagos, Fredes e outros calhordas da mancha de 2019 e da virada de costas deste início de ano, jamais gritarei o nome de qualquer boleiro (exceto gênios, pelos quais os mortais insistem em chamar de “jogador”, tipo Dirceu Lopes, Joãozinho, Piazza e Fantonis). Mas, Salomé, foi muito bonito aplaudir e incentivar o seu Marcelo Moreno quando aportou e jogou sobre sua pele novamente o manto sagrado das estrelas quíntuplas bordadas ao peito. Respeitá-lo pela escolha em retornar para casa faz parte da missão maior desse instante, a de reconstruir o único gigante de Minas Gerais.
 
 Sabe, Salomé, têm sido dias difíceis desde quando lhe vi passar pela última vez no seu Mineirão, ao final da despedida contra o Palmeiras. Assim como você naquela tarde de 8 de dezembro de 2019, com seu coração partido por entre o estourar de bombas e choros, hoje, seguimos um passo – lento – por vez e ainda sob as sombras do cemitério clandestino, repleto de ossadas de imoralidades e conchavos, deixado pela corja da gestão Wagner Nonato Pires Machado de Sá. Esse caminhar sem você ao nosso lado é ainda mais falseado, pois ainda é real o medo de um retrocesso, já que os feudos familiares e seus sanguessugas continuam a nos espreitar. 
 
 Mas minha ídola máxima das arquibancadas, quando seu Marcelo Moreno traduziu maluquice por amor ao Cruzeiro, senti o quanto ainda podemos fazer dessa reconstrução um novo tempo de nossa história. Vê-lo chegar e demonstrar respeito pelo maior (e verdadeiro) patrimônio do clube, nós, torcedores, trouxe-me um suspiro de alma. Daqueles que não passam pelo pulmão e nariz, mas, sim, pela parte do meu corpo dedicada a guardar saudade.
 
Certa vez, Salomé (acho que nunca lhe contei isso antes), um sertanejo das bandas da Bahia, perguntado sobre o que era “saudade”, respondeu: “Saudade, moço? Saudade é vontade de querer ver de novo”.
 
 Pois bem, Salomé, quando o Marcelo “Maluco Beleza Celeste” acenou na sacada da sede administrativa (que deveria ser rebatizada de “Sede Maria Salomé da Silva” e ter uma estátua sua a recepcionar qualquer visitante), bateu-me uma lapada grande de saudade. Saudade por lhe ver de novo nas arquibancadas do Mineirão, para juntos nos abraçarmos a cada novo gol de nosso – agora – artilheiro da reconstrução.
 
 Mas sendo isso impossível pelo assassinato por desgosto cometido contra a sua vida terrena, Salomé, vou levar comigo a sensação de que a cada tento anotado, daqui por diante, nosso Flecheiro apontará o arco imaginário e os dedos pontiagudos para o céu, mirando a seta de alegria para você. Certo de que alcançará o sorriso largo dessa senhora de cabelos loiros e unhas pintadas de azul nas mãos agarradas à sua raposa. Fecharei os olhos, mergulharei num silêncio absoluto, mesmo com meus companheiros de torcida em êxtase, e escutarei só o seu suspiro amoroso dizendo: “Ah, meu menino Marcelo!”.

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