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Estado de Minas ARTIGO

Pedro Casaldáliga viveu o que proclamava até as últimas consequências

Céus, rios e matas estão em festa com a partida deste bispo de coração lutador. Nós, um pouco mais órfãos


08/08/2020 17:13 - atualizado 08/08/2020 17:45

(foto: Daniel Ferreira/CBPress )
(foto: Daniel Ferreira/CBPress )
E aconteceu como ele mesmo profetizou, poeta que era:

Eu morrerei de pé, como as árvores. O sol, como testemunha maior, porá seu lacre sobre meu corpo duplamente ungido. E os rios e o mar serão caminho de todos meus desejos, enquanto a selva amada sacudirá, de júbilo, suas cúpulas. Eu direi a minhas palavras: não mentia ao gritar-vos. Deus dirá aos meus amigos: certifico que viveu com vocês esperando este dia. De golpe, com a morte, minha vida se fará verdade. Por fim terei amado!” (Pedro Casaldáliga, Profecia Extrema).

Pere Casaldáliga i Plá faleceu no passado dia 8 de agosto, na cidade de Batatais, interior de SP. O bispo emérito de São Félix do Araguaia tinha 92 anos de idade. Filho de camponeses, Pedro nasceu a 16 de fevereiro de 1928 em Balsareny, pequena cidade perto de Barcelona, Espanha. Entrou para a ordem dos padres claretianos onde foi ordenado sacerdote. Após uma breve passagem pela África, Pedro chegou como missionário ao Brasil em 1968, em plena ditadura militar.

Ele se estabeleceu em São Félix do Araguaia, MT, em 1971, sendo nomeado primeiro bispo da Prelazia. Na sua ordenação episcopal usou como símbolos um remo, uma cruz de madeira e um anel de tucum, marcando assim diferenças com a igreja tradicional e seus símbolos de riqueza e alinhamento com a burguesia. Morava numa casa rural pobre, com um estilo de vida espartano, coerente e próximo do povo. A sua luta se identifica com as causas indígenas, dos camponeses, retirantes e pobres. Enfrentou a ditadura militar e também o setor mais conservador da Igreja Católica sem arredar pé dos seus princípios e valores evangélicos.

Sempre defendeu que a Igreja deveria ter um forte papel social e se tornou uma das figuras mais relevantes da Teologia da Libertação. Junto com bispos da talha de Tomás Balduíno, Hélder Câmara, José Maria Pires,Waldir Calheiros, Luciano Mendes de Almeida, Antônio Fragoso, dom Paulo Evaristo Arns, Ivo e Aloísio Lorscheider, formaram uma linha eclesial de frente, representando uma igreja católica profética, denunciadora e defensora dos direitos humanos e das causas dos oprimidos, que será difícil de repetir. Evangelho autêntico, Cristo presente entre nós.

Pedro Casaldáliga foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), organizações que desempenharam um papel importante na transição democrática, assim como asseguraram a presença dos direitos sociais e indígenas na Constituição de 1988. Indígenas, terra, camponeses, matas e águas eram seus temas preferidos e sempre presentes em seus escritos. Apoiador das grandes causas da América Latina, a Pátria Grande, como ele gostava de chamar, visitou, a convite dos governos locais, Nicarágua sandinista e Cuba. Junto com a sua ida a Roma, na visita “ad limina” a pedido de João Paulo II, foram as suas únicas saídas nos seus 52 anos de Brasil. Nem a sua terra natal voltou a visitar.

Sofreu perseguição da ditadura militar e do próprio Vaticano, especialmente no papado de João Paulo II (1978-2005), passando por processos e acenos de expulsão do Brasil e da Igreja oficial. Nada disso o fez desistir da sua teimosia militante e da sua esperança ativa na construção do reino de Deus, já aqui entre nós. Permaneceu fiel e comprometido com o seu povo pobre. “Tenho fé de guerrilheiro e amor de Revolução. E entre evangelho e canção, sofro e digo o que quero”.
No dia 2 de fevereiro de 2005, e seguindo o Código do Direito Canónico, apresentou a sua renúncia como bispo de São Félix, prontamente acolhida pelo Vaticano.

Tive o prazer e o privilégio de conviver com ele do ano 90 ao 94, em São Félix, partilhando casa pobre, mesa, chinelos, espiritualidade, sonhos evangélicos e pastorais, numa jornada totalmente inesquecível e que marcou profundamente a minha vida. Longas conversas, momentos de reza e angústias, aprendizados de vida que ficam para sempre como sementes fecundas regadas pelo Araguaia.

“Ser o que se é. Falar o que se crê. Crer no que se prega. Viver o que se proclama, até as últimas consequências”. Esse e assim, era Pedro Casaldáliga. As matas e os rios, os corações lutadores e de boa vontade, as causas dos pobres e os céus surcados pelas garças do seu Araguaia que ele tanto gostava, estão em festa. Nós, um pouco mais órfãos.

Pedro, dá-nos a Paz!

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