
Às vezes, Camila Pereira Zuconi chora ao lembrar das pessoas que deixou no pequeno município de Três Marias, Região Central de Minas. “Tem dia que paro e me pergunto: ‘Nossa, como é que está minha mãe? Como estão meus amigos?’. É bem difícil”, conta. Ela não se arrepende, porém, de ter saído de casa aos 14 anos, para estudar em Viçosa, na Zona da Mata do estado. E está convencida de que tomou a decisão certa ao voar para mais longe, Porto Alegre (RS), para cursar medicina. “O que me leva a continuar é saber que estou correndo atrás do que quero”, acredita a moça, hoje com 18 anos.
Camila aprendeu a conviver com a tristeza das despedidas, mas sua determinação também lhe rendeu alegrias. Uma delas foi saber que a redação escrita para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2011 recebeu a nota máxima: mil. OutraE foi ver o texto ser impresso em uma cartilha lançada pelo Ministério da Educação (MEC) no mês passado, para orientar os futuros participantes do Enem. A redação de Camila foi um dos seis exemplos escolhidos por especialistas da Diretoria de Avaliação da Educação Básica do MEC.
“Sempre levei a escola muito a sério. Procurei fazer o que me era pedido, e fazer bem feito”, explica Camila. A mãe da moça confirma. “Ela sempre foi estudiosa, nunca precisei insistir. Eu só botava limite, não deixava ir para festa em dia de semana”, lembra a dona de casa Maria Geralda Pereira Gonçalves, de 47 anos. Disciplinada, sim, mas Camila nunca foi submissa. “Muito malcriada, nossa! Desde pequenininha era respondona, mas depois fui entender que ela era mais autêntica, independente”, diz Maria.
E foi em busca de mais independência que a filha saiu de casa, em 2009, para cursar o ensino médio no tradicional Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (Coluni). “Eu soube que era uma das melhores escolas públicas do país”, justifica a jovem. “Mas foi principalmente porque eu queria morar sozinha, cuidar eu mesma da minha vida, depender o menos possível dos meus pais”, acrescenta. A garota hesitou antes de se resolver, pois ajudava a cuidar de seu pai, Carlos Zuconi, que havia perdido a fala e o movimento do lado direito do corpo, depois de sofrer um derrame. “Eu não queria ficar distante dele, mas sentia que devia seguir em frente”, diz ela.
Maria desejava que a filha, caçula de duas irmãs, não fosse embora. “Era uma companhia para mim, além de me auxiliar em casa. Toda a vida, foi trabalhadeira”, disse a mãe, que se rendeu ao saber que Camila havia sido a terceira colocada no “vestibular” do Coluni. “Como eu podia tirar isso dela? Acho que Três Marias estava pequena para Camila”, reconhece. Mais tarde, também Viçosa se tornou reduzida para a moça, que queria cursar medicina. Ela fez o Enem e, com pontuação de 787, matriculou-se na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.
MUDANÇA
Em janeiro, pouco antes de mudar-se para o Sul do país, Camila viu o pai morrer em seus braços, na casa em Três Marias. “Ele já estava muito fraco. Já não queria lutar mais, não tinha vontade de fazer fisioterapia, só ficava deitado”, descreve a filha, com a voz segura. Nem bem havia pronunciado esse adeus, a moça se mudou sozinha para a capital gaúcha, onde não conhecia ninguém. Hospedou-se em um hotel até encontrar colegas com quem dividir um apartamento. “Às vezes, me sinto só. Foi um pouco difícil me adaptar, por causa da distância. E deixar minha mãe na situação em que ela ficou, tão doente…”, conta.
MORTE
Depois da morte de Carlos, Maria desenvolveu herpes zóster, virose que, em geral, atinge pessoas cuja defesa imunológica foi debilitada em um período de estresse. “Cuidar dele (Carlos) acabou comigo. Eu sozinha não daria conta, teria que ter arrumado alguém para me ajudar”, reconhece Maria. A mãe, porém, escondia das filhas o cansaço. “Sofri calada. Eu não queria que elas soubessem, para não atrapalhar seus estudos”, justifica ela, que cursou até o segundo ano do ensino médio. Camila vem mostrando que o esforço da mãe não foi vão. “Mudei bastante, adquiri experiência, mas, a cada vez que volto a Três Marias, sinto mais carinho pelas pessoas que deixei lá. Sempre me despeço com o coração apertado”, confessa.
Manual do Enem 2012
O manual A redação no Enem 2012 – Guia do participante, no qual foi publicada a redação de Camila Pereira Zuconi –, tem 50 páginas e está disponível para download no site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (www.inep.gov.br). O guia explica em detalhes a matriz de correção das redações do Enem, aborda os pontos de avaliação da prova e as cinco competências cobradas pelos examinadores. O Ministério da Educação pretende distribuir o manual para 1,6 milhão de estudantes da rede pública, além de 100 mil cópias para professores. No Enem deste ano, a nota mínima da redação permanece a mesma, 500 pontos. As provas serão aplicadas em 3 e 4 de novembro
