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Escola e tempo: o momento é ideal para dar novos significados a essa relação

"É urgente uma reflexão no âmbito escolar que articule passado, presente e futuro, pois é nessa articulação que devemos construir o presente"


postado em 30/12/2019 04:00 / atualizado em 30/12/2019 09:27

(foto: pixabay)
(foto: pixabay)
O tempo é um desses temas fundamentais da vida humana que, de vez em quando, voltam com força.  O fim do ano é um momento privilegiado para essa reflexão, também para a escola, organizada em tempos escolares, ciclos, períodos, términos e recomeços. É uma visão diferente do relógio, carregada de sentido e significados que marcam o viver de cada um de nós e de toda a coletividade.
Os dias chegam sempre pletóricos, um atrás do outro. Inexoravelmente iguais e diferentes, ao mesmo tempo. Iguais, pois são dias de 24 horas e tanto (o ano bissexto acerta os e tantos), e diferentes, porque a vida se encarrega de dar um sabor a cada hora, a cada minuto, a cada momento. Os desafios não se sucedem pura e simplesmente; eles quebram a rotina, a previsibilidade, o friamente programado. Por isso, rotina e imprevisibilidade se alternam de maneira tão cativante, como se o carrossel da vida nos chamasse, continuamente, ao passado e ao futuro, ao sabido e ao desconhecido, ao temor e à aventura.
 
O calendário marca o ritmo do nosso viver. O ritmo alucinante da nossa vida tem feito com que, no nosso sentir, o tempo “passe rápido demais”, “o ano voe” e esperemos, sempre expectantes, o nascimento do tempo seguinte, como se nele fosse mais fácil sonhar e realizar o que agora não conseguimos. É a necessidade de renascimento das coisas, dos projetos e de nós mesmos.
 
O filósofo Agostinho de Hipona, Santo Agostinho para os católicos (354-430), foi o primeiro dos grandes filósofos da antiguidade a tratar a questão do tempo, magistralmente e com profundidade, no capítulo XI do seu livro Confissões. “O que é, por conseguinte, o tempo?”, se pergunta. “Se ninguém me perguntar, eu sei; porém, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”
“É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras. Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras”, diz Agostinho.
 
O tema, sempre atual e instigante para o pensamento humano, também foi objeto de estudo de muitos filósofos modernos e contemporâneos, sob diversos ângulos, como Hume, Kant e Heidegger, entre outros.
 
Acompanhando as novas tendências, todo mês de dezembro os editores de Linkedin identificam nos seus feeds e escritos dos colaboradores quais serão as ideias que moldarão o ano seguinte. Sem surpresa, constatam que o benefício mais desejado no trabalho em 2020, será o tempo. Experiências de uma semana com quatro dias de trabalho se espalham pelo mundo. “Todos querem se sentir valorizados no trabalho, mas isso não deve prejudicar os outros aspectos da nossa vida. Nossas vidas pessoais estão sendo prejudicadas, e estamos começando a reconhecer isso”, diz.
 
E o que tem isso a ver com a escola? A contemporaneidade, rápida, efêmera e imprevisível, nos desafia a dar novo significado ao passado que nos fundamenta, ao presente que construímos e ao futuro que já projetamos, também nas escolas. Máxime quando temos fundamentado a nossa missão escolar na certeza, no ensino de verdades quase inamovíveis. É urgente uma reflexão no âmbito escolar que articule passado, presente e futuro, pois é nessa articulação que devemos construir o presente.
 
Os ciclos alimentam a ilusão, como se eles fossem, por si mesmos, capazes de redimir, perdoar, esquecer e recomeçar tudo de novo. A grande verdade é que o dia 1º de janeiro é apenas o dia seguinte ao 31 de dezembro, e que um ano escolar sucede a outro. Porém, é um marco que serve como estímulo, como reforço, como alimentação do sonho. E não há sonho sem rotina, assim como não há rotina sem projeto. E, mais ainda, o projeto há de ser construído para dar sentido a tudo para que, assim, se torne real.
 
Também a educação vive dos seus grandes projetos e das pequenas realizações, dos grandes planejamentos e dos dias escolares cinzentos, sem ordem e sem sentido aparente. A grande questão está, desde meu ponto de vista, em como preservar os fundamentos do passado, como enfrentar os desafios, os de sempre e os novos, que exigem resposta no presente, e projetar com lucidez um futuro de realizações. Estaremos, aí sim, construindo “novos bons tempos.”
 
Para isso, algumas perguntas e suas respostas tornam-se imprescindíveis para as escolas e o mundo da educação: Como são os nossos tempos escolares? O que eles carregam e em função do que se articulam? A quem servem e o que ajudam a construir? Como respondem aos anseios, preocupações e até angústias das crianças e dos jovens que convivem conosco? A escola se adaptou e responde às sociedades modernas? Como é o tempo dedicado a conversar com outros saberes, instituições e o mundo político? Essas são algumas perguntas que, sem dúvida, podem nos ajudar a dar novo significado ao “tempo escolar”, que não deve ser reduzido a “tempo acadêmico”, pois, afinal, é em ambientes escolares e de aprendizado que passamos uma boa parte das nossas vidas.
Como canta Renato Russo, “temos nosso próprio tempo.”  E é ele que temos que redimensionar e a ele responder.

Feliz Ano Novo e que bons tempos cheguem para todos!

l Francisco Morales foi diretor-geral do Colégio 
Santo  Agostinho-BH durante 20 anos. Atualmente, 
é diretor pedagógico do Grupo Educacional Vereda.

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