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Estado de Minas ESPUMA ESSENCIAL

Por uma dose generosa de perdão

De como amor, perdão e alma cervejeira bebem da mesma taça


postado em 15/11/2019 04:00


Zubão estranhou um tanto quando a irmã, depois de almoçar, comer a sobremesa com aquela calma que era só dela e tomar o café de coador, soltou a frase que desconcertava:

– Será que a gente pode conversar?

Ele a mirou entre surpreso e preocupado, porque já vira tragédias serem anunciadas assim. Até tentou quebrar o clima que se desenhava desconfortável. Alisou as gotas suadas do copo de cerveja, jogou uma castanha-do-pará na boca e balbuciou:

– Mas já estamos conversando...

– Ah, foge do olho no olho não...

Ele caçula, ela a mais velha, haviam travado esses diálogos secos antes. Aos 17, aos 20 e poucos anos, mas agora, beirando os 50?

– Tá bom, tá bom, vamo lá. Desembucha.

A irmã deu aquela pigarreada padrão ao introduzir um assunto mais espinhoso. Não fez curvas.

– Estamos preocupados com você.

– Ué?!?! Estamos? Estamos quem?

– Eu, mamãe, sua mulher...

– Peraí, lista grande, hein... E qual é a preocupação, afinal? Eu trabalhando firme, impostos em dia, saúde normal...

A irmã, sobrancelha delicadamente definida, as maçãs da face já com os vincos da maturidade, e uma voz que lembrava tiazinhas em confessionário, sempre com tom meio de lamentação, meio de culpa. Apesar disso, figura firme.

– A preocupação é com cerveja.

– Ops! Com cerveja? Mas do quê, exatamente? Bebo cada vez menos. Até perdi peso no último semestre...

– Não, não, não. Não é com beber. É com ‘viver’ cerveja. Você não pensa, não fala, não elabora nenhum diálogo mais que não tenha cerveja artesanal no centro. Religião, você cita a cerveja em velhos rituais. Futebol, você trata de pôr cerveja no meio. Turismo, você faz o cálculo de consumo pros dias de viagem...

– Mas, Marisa, a bebida é engenho da humanidade desde sempre. E a cerveja tá lá...

– Ah, aquela história dos sumérios de novo? Não enjoa, é?

Quando ela projetava os lábios na direção do nariz e olhava para o alto, era sinal de contrariedade ou impaciência.

– Olha pra você! Em que se transformou...

– Opa, calma lá. O que significa isso? No que me transformei? Sou o mesmo faz anos. E até acho isso chato. E esse papo não tá soando como julgamento ridículo?

– Ah, você não é a mesma pessoa não. Cadê sua coleção de vinis? Onde foram parar as camisas de time que enchiam seu guarda-roupas? E os postais da década de 20? Viraram qualquer coisa que se relacione a cerveja.

O ambiente ganhava um ar pesado e Zubão sinalizou, pedindo um respiro. Repôs o copo e, do nada, o afastou, como se representasse algo amaldiçoado.

– Só uma coisa: por que a Ju não está nessa nossa conversa? Se imagino que foi ela quem pediu esse, sei lá, socorro a vocês. E você, Marisa, não acha invasivo? Pra mim, é intromissão, me desrespeita, como se eu fosse doente, dependente.

A irmã fez menção de chorar, mas segurou, porque tornaria tudo dramático. Mediu as palavras.

– Não é intromissão, de jeito nenhum. Desculpa se sentiu assim. É zelo, cuidado com quem a gente ama. E sua mulher já lhe disse a mesma coisa, só que de modo cifrado. Como não adiantou...

– Ops!! Qual a solução? Internar? Camisa de força? Tarja preta?

Marisa pensou em se levantar, ir embora. Respirou. Recuou.

– Olha, a gente não falaria disso se não te amasse, se não te respeitasse. É que tudo em excesso tira uma pessoa do prumo. É sobre isso. Exagero, tara...

– Cumé? Tara? Aí vocês viajaram...

– Sério? Jura? Olha sua área de serviço. Sua despensa. Taças, canecos, garrafas de toda parte, caixas com tampinhas pra todo lado, não sei quantos álbuns de rótulos, latinhas...

– Porra, cês tão me vigiando agora? Chega! Acabou!

A irmã pôs a mão sobre a mão dele. Como o acalmava desde os tempos de adolescência com aquele gesto.

– Olha pra mim. Vamos fazer um pacto. Que tal terapia? A Ju topa, vai junto.

Havia batido no limite.

– Terapia é o cacete! Vou nada.

Uma semana depois, a mulher ponderando, ele refletindo, cedeu. Meses à frente, dando-se como ‘suave na nave’, à mesa de almoço com Ju, Marisa e a mãe, toca o telefone.

Viu na tela: Índio, parceirão das antigas. Botou no viva-voz. Tinha aquele estranho hábito. Um oi pra lá, um oi pra cá, o assunto cervejeiro aflorou. E a confirmação da chegada do pedido.

– Tão aqui comigo aquelas três gravatas, as duas camisetas, os seis bonés e as cuecas com estampa de cerveja que pediu da minha viagem à Bélgica.

Ele, de verdade, não se recordava, porque fazia mais de um ano que encomendara. Os pares de olhos femininos fulminantes, foi afundando à cadeira. E saiu-se com uma tirada e tanto.

– Recaída, amores, ligeira recaída. Mas lá na terapia a gente já viu que o perdão é maior do que essas bobagens, né não?

Esta coluna é publicada quinzenalmente
eduardomurta.mg@diariosassociados.com.br

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