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Estado de Minas CORAÇÃO DE MÃE

Um beija-flor corre para a minha janela pedindo socorro

A cena interrompe a música e a certeza de que, daqui a alguns anos, o paraíso será um inferno com labaredas altas


postado em 18/08/2019 06:00 / atualizado em 18/08/2019 08:29


Eis que nesta manhã uma música entra, de repente, na manhã do meu coração. Eu vou andando e cantando Ideologia, de Cazuza: “Meu partido é um coração partido. E as ilusões estão todas perdidas. Os meus sonhos foram todos vendidos tão baratos que nem acredito... Meus heróis morreram de overdose. Meus inimigos estão no poder. Ideologia. Eu quero uma pra viver”.

Eis que nesta manhã, antes de chegar à MG-10 cantando e sentindo os efeitos curadores da música, o fogo se alastra bem perto da casa onde moro, na Serra do Cipó. Paro de cantar e entro em pânico com a cena corriqueira. No lugar de rastelar, de roçar, botam fogo nos lotes. É mais fácil queimar do que limpar como se deve. Cuspo fogo, grito sem parar: Quem fez isso?. Pela quarta ou quinta vez desde que me mudei para esta casa – e olha que não tem nem um ano – tocam fogo para limpar lotes e construir casas que serão alugadas para turistas iludidos com um ponto turístico divulgado como paraíso.
 
Um beija-flor corre para a minha janela pedindo socorro. Foge do fogaréu, cujas chamas voam alto com o tempo seco de agosto. Ligo para os órgãos oficiais da Serra do Cipó. O vento propaga o fogo, que também está quase chegando à minha janela. Peço socorro, mas a Secretaria de Turismo e Meio Ambiente explica que só pode aplicar a multa estabelecida por lei quando o incendiário é pego em flagrante.
 
Aqui, no loteamento que um dia querem que seja o Condomínio Estrada Real, depois do fogo que se apaga sem qualquer ajuda não tem mais lugar para os grilos, marias-faceiras, emas, micos, canários, pássaros pretos, anus brancos, gaviões, águias e urubus. Os pés de pequi tão comuns no cerrado acabam de ser comidos pelo fogo. O terreno virou um pó preto de fuligem voando e entupindo nariz e pulmões. Os pernilongos e mosquitos da dengue, os escorpiões e cobras também fogem do fogo e vão invadir as casas vizinhas. Socorro! Grito sem que ninguém ouça.
 
A cena interrompe a música e a certeza de que, daqui a alguns anos, o paraíso será um inferno com labaredas altas e que não se apagarão nem com milhões de litros de água. Se ainda houver água.
Na MG-10, outra cena de arrepiar a alma: mais um cachorro abandonado e atropelado no meio da rodovia. Tenho vontade de gritar, de chorar, de uivar como um cão abandonado. Penso o que é ideologia no meio de tanta barbárie. Li e repito um mantra que é meu guia nesta sociedade desvairada que nada aprendeu com a natureza, que não vê os rios secarem, a mineração lambendo a natureza, corpos e vidas, a mansidão das águas que sempre estiveram ali, a paz dos moradores. Perturbando o sono, arrebentando sonhos e esperança. Vi em alguma postagem e repito como se fosse um mantra ou uma nova letra de música. “Minha ideologia é floresta em pé, água limpa, ar puro, comida sem veneno.”
 
Ideologia é demarcar territórios indígenas, aprender com nossos irmãos índios. É deixar grilos, sapos em seu hábitat. É aceitar as diferenças. É ver os jovens se debruçando sobre livros de história, sociologia, filosofia. E não com a cabeça baixa dedilhando celulares. É ver os jovens com direito a educação, com trabalhos dignos e jamais com armas nas mãos. Ideologia é ver as mulheres livres da violência. Mulheres investindo em suas carreiras e não em homens endinheirados, que certamente vão descartá-las quando não tiverem mais juventude e beleza.
 
Ah, pobres mulheres que dão o corpo em troca de uma vida pretensamente confortável. Ah, pobres mulheres que não sabem nem ler e escrever, mas que investem em ranços seculares, na ganância de uma vida sem sentido, sem liberdade. Ah, liberdade, abre suas asas sobre mim, sobre essas pobres mulheres que nunca ouviram falar de Gabriel Garcia Marquez e Cem anos de solidão. Que investem no capital masculino – e não nelas mesmas, que não sabem o que é amor, respeito e relacionamento saudável, em que cada um cuida da própria vida e curtem quando estão juntos.
 
Acabam mortas, como ocorreu neste estranho mês de agosto com a doce Cida, uma figura terna aqui da Serra do Cipó. Cida não viu outro caminho senão beber, beber e beber. Linda flor do cerrado, que não está mais entre nós. Minha ideologia não é tomar antidepressivos, mas sujar as mãos e os pés de terra. É olhar para as estrelas que ainda se podem ver daqui, mas não sei até quando. Ideologia não é construir casas, comprar carros 4x4, é andar a pé no meio da floresta intacta. É ficar em silêncio na cachoeira sem ter que pagar pelo acesso ao melhor banho de descarrego proporcionado pelas quedas mágicas de água. Ideologia é caminhar e receber mexerica de presente de uma nativa, porções de ora-pro-nóbis, molhos de couve, e dois ou três abacates, é aprender com os nativos que ainda resistem aos descalabros. É preciso aprender o tempo todo. Ninguém está pronto ou sabe mais do que o outro. A vida simples é um aprendizado constante.
 
Ideologia é ver homens chorando, expressando sentimentos e e
moções. E que cada um desses homens reconheça que ser pai é um ato afetivo, social e político. Como disse Leandro Ziotto, criador do projeto 4Daddy, é ser PAI, “assim mesmo, em capslock”.
Ideologia é que as mães não tenham que criar filhos de pais demissionários. Não ouçam jamais uma criança implorar “mãe, estou com fome” e não ter o que dar. Ideologia é entender que só se conhece a fome desse jeito. Quem nunca sentiu fome ou falta não sabe o que é. Só dá o que sobra, jamais compartilha. Ideologia não é ficar gritando para Deus, mas é ver o sagrado que está em cada um de nós. É acolher o outro. Enxergar nos olhos do outro.
 
Não é medir o outro “com o metro do seu próprio caráter”, como disse certa vez o jornalista Mino Carta. Nem ter uma vida normótica – e salvem os loucos, pois excesso de normalidade mata. Fabrica robôs no lugar de seres humanos. É preciso um tanto de loucura para sair dessa enrascada que põe em risco a sobrevivência neste planeta. Abaixo os Sherlocks de Deus, que vigiam o outro o tempo todo, que destilam fel em vez de mel, que apontam o dedo, julgam e condenam sem pensar.
Pois é. “Meu partido é um coração partido e as ilusões estão todas perdidas”, incendiadas pelas labaredas da falta de oportunidades, de conhecimento, de estudo. Da humilhação e do silêncio de cada um. “Ideologia eu quero uma pra viver.”
 
 
 

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