Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. ASSINE AGORA >>

Publicidade

Estado de Minas padecendo

Educação sexual nas escolas

Proibir a educação sexual nas escolas só protege o abusador. Proibir a educação sexual nas escolas mantém as crianças vulneráveis


08/11/2020 04:00 - atualizado 06/11/2020 11:26

(foto: depositphotos)
(foto: depositphotos)


À medida que as eleições se aproximam, as correntes de fake news se multiplicam, especialmente nos grupos de WhatsApp. Grupos de família, grupos de pais de alunos de todos os colégios.

Me espanta, depois de tudo o que temos visto nos últimos anos, ainda ter tanta gente que não consegue identificar esse tipo de conteúdo. Ou talvez a questão não seja identificar o conteúdo falso, mas se identificar com ele.

Textos e vídeos falando em ideologia de gênero e escola sem partido já voltaram a circular. E as histórias são as mais esdrúxulas. Dizem que as escolas querem ensinar às crianças que elas podem ser meninos ou meninas, independentemente do sexo biológico.

Dizem que uma vez por semana a criança deverá usar roupa do sexo oposto, ou seja, meninos se vestindo de menina e vice-versa. Dizem que querem ensinar às crianças a fazer sexo, ensinar o poliamor. Temos que admitir, criatividade para distorcer as coisas não falta.
 
É importante frisar que a educação sexual nas escolas não tem o objetivo de ensinar às crianças a fazer sexo, pelo contrário. Só através da educação sexual podemos prevenir que crianças sejam abusadas.

Só através da educação sexual podemos evitar a gravidez na adolescência. Só através da educação sexual homens vão aprender a respeitar as mulheres. Só através da educação sexual a vítima vai deixar de ser julgada.

Só com educação sexual vamos acabar com a cultura do estupro e nunca mais vamos ouvir uma sentença absurda de estupro culposo. Não existe estupro culposo!

Num país onde o número de abusos sexuais contra crianças é enorme. Onde grande parte dos abusadores está dentro da casa da vítima, e falar de sexo em casa é tabu, é fundamental que as crianças tenham acesso à educação sexual nas escolas.

Tudo de acordo com a idade. Ou seja, uma criança do ensino infantil deve aprender que ninguém pode tocar no seu corpo sem seu consentimento. Que as partes íntimas das pessoas, inclusive dela, não devem ser tocadas. Elas precisam saber que, se acontecer, elas devem contar, que não precisam ter medo.

Num país onde meninas de 10 anos precisam fazer aborto depois de anos sendo estupradas, é fundamental que se explique o que é o ato sexual e que adulto não pode fazer isso com criança. Nem com outro adulto se ele não quiser.

Proibir a educação sexual nas escolas só protege o abusador. Proibir a educação sexual nas escolas mantém as crianças vulneráveis. Mais de 70% das violências sexuais acontecem em ambiente intrafamiliar.

Quanto à tão temida ideologia de gênero nas escolas, é preciso também esclarecer. Esse termo inexiste na literatura. O que existe é identidade de gênero. Ninguém vai ensinar às crianças que elas podem escolher mudar de sexo. O que elas precisam aprender é que é preciso respeitar as pessoas que não se identificam com seu gênero, os transexuais.

A respeitar as pessoas que sentem atração por pessoas do mesmo sexo, os homossexuais. Jovens que não se encaixam no padrão hétero são violentadas de todas as formas, todos os dias. É preciso entender que as pessoas são diferentes. E sim, isso se aprende na escola, principalmente porque esse assunto também é tabu na maioria dos lares brasileiros.

Tem um filme bem ‘sessão da tarde’, que dura menos de duas horas, mas que vale a pena assistir só para entender o que um adolescente transexual passa numa escola. O nome do filme é Alice Júnior.

Eu entendo a dificuldade de aceitar o “diferente” numa sociedade heteronormativa como a nossa, em que fomos criados para ser homens ou mulheres e ter atração pelo sexo oposto. Como se qualquer coisa diferente disso fosse errada, promíscua. Essa dificuldade de entender as questões de gênero é reflexo da dificuldade de lidar com nossa própria sexualidade. Ou com a sexualidade dos nossos filhos.

Como eu escrevi numa das minhas primeiras colunas:

Filho é uma caixinha de surpresa que você escolhe amar do jeito que vier. Se você quer o filho ideal, guarde isso no seu desejo, e deixe lá. Não tenha um filho real. Um filho real jamais vai ser uma projeção dos pais.

Seus filhos podem ser heterossexuais, mas também podem não ser, e se não forem, não há repressão que resolva. Pelo contrário, repressão só vai causar sofrimento. É preciso amar e respeitar as pessoas como elas são.

Sexualidade é uma questão individual. Sexualidade não mede caráter. Se fosse assim, nenhum homem e nenhuma mulher cisgênero e heterossexual estariam violentando crianças. Nenhuma criança estaria sendo estuprada e engravidando de homens adultos.

Nossos filhos irão conhecer verdades diferentes das nossas. Terão experiências diferentes das nossas. Se eles puderem passar por tudo com consciência e orientação, eles se tornarão adultos maduros e preparados para lidar com a própria sexualidade.

Se as famílias não estão preparadas para falar sobre isso. Se os abusadores continuam protegidos pela omissão, que a escola tenha liberdade de exercer esse papel de ensinar e proteger.

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade