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Sem noção nem razão. O que pretende o cidadão Jair Bolsonaro?

''A elite empresarial e política queria acreditar que tais arroubos autoritários eram mensagens à turba radical, sem comprometer a ordem democrática''


08/08/2021 04:00 - atualizado 08/08/2021 09:31

(foto: AFP)
(foto: AFP)

O que pretende o cidadão Jair Bolsonaro? A resposta está clara ao empresariado, de bancos à indústria, a última porção da sociedade a desistir de um presidente que fala como arruaceiro e se mostrou descompensado ao afrontar a autoridade do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral e acusar, sem ter nenhuma prova, o voto eletrônico como instrumento passível de fraudes.

Insensível às responsabilidades de chefe de Estado e de governo, ele ousou declarar a uma rádio que deixaria de cumprir as decisões dos tribunais superiores, insatisfeito com o desmonte de suas fake news sobre a fragilidade do voto eletrônico pelo ministro do STF e presidente do TSE, Luís Roberto Barroso. Depois, ao ser arrolado em dois inquéritos a cargo do ministro Alexandre de Moraes, ameaçou-o, dizendo que “a hora dele vai chegar”. Nunca alguém chegou a tanto.
 
Num manifesto duríssimo, muitos milhares de líderes do capitalismo nacional, financistas, economistas, intelectuais, religiosos firmam um texto de repúdio tão cristalino quanto a insanidade do golpismo.

“A Justiça eleitoral brasileira é das mais modernas e respeitadas do mundo”, diz o documento.
“Confiamos nela e no atual sistema de votação eletrônico. A sociedade brasileira é garantidora da Constituição e não aceitará aventuras autoritárias. O Brasil terá eleições e seus resultados serão respeitados.” Deplorável, 36 anos depois da ditadura, a sociedade ter de advertir aventureiros.

Um presidente que ofende diariamente seus desafetos imaginários, construídos por assessores de folhetim com o objetivo de projetá-lo nas redes sociais, mas não expõe as suas ideias para superar nosso subdesenvolvimento, que volta com força na véspera do bicentenário da independência, não é parte da solução. É obstáculo.
 
E obstáculos ao progresso dissipado nas brumas dos anos 1980 não faltam - tornaram-se maiores e se agravaram ao longo das décadas, enquanto quem vinha atrás, como China e Coréia, virou potência.
 
O país regrediu à condição de colônia – vendemos matérias primas e alimentos e compramos o que gera valor e promove bem-estar por meio de ondas circulares de inovação, desenvolvimento e civilização.
 
Fanfarrices de um líder submetido a políticos inescrupulosos estão a indicar mais fraqueza pela desdita de não saber governar do que a força conquistada graças à admiração de seus constituintes.

Liberalismo só de fachada

É preciso contextualizar os rompantes liberticidas de Bolsonaro. O estilo boca-dura é sua marca registrada desde os tempos de Academia Militar. Foi expulso por indisciplina quanto tenente e reformado no posto capitão por acordo na justiça militar.
 
A eleição a presidente não mudou o seu estilo. Ele passou os dois primeiros anos do mandato criticando o Congresso, o STF, incitando apoiadores sob a alegação de que o estariam impedindo de governar e seduzindo militares e policiais com ministérios e cargos civis.
 
Embora anormais, a elite empresarial e política queria acreditar que tais arroubos autoritários eram mensagens à turba radical, sem comprometer a ordem democrática. Agora não mais. “As pessoas não costumavam levar o presidente a sério, olhavam para os ataques como algo folclórico. Mas estamos, sim, levando a sério, estamos com a democracia sob ameaça”, afirmou o economista Edmar Bacha, um dos muitos milhares de signatários do manifesto “Eleição se Respeita”.
 
A tolerância se amparava na promessa de reformas pró-mercado, que, na verdade, são mais antissociais e reacionárias que liberais, um traço do ministro Paulo Guedes, hoje visto como outro bolsonarista no entorno de um presidente que quer reeleger-se virando a mesa.

Mensalão do bolsonarismo

A destemperança habitual de Bolsonaro se tornou recorrente e cada vez mais explicita com um movimento que poucos enxergaram: o apoio à eleição de Arthur Lira, cardeal do PP e do centrão, para presidir a Câmara, e menos vistoso a Rodrigo Pacheco, do Dem, no Senado.

Bolsonaro via no ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia uma barreira a seus caprichos autocratas e tramou para minar sua sucessão. Para isso, contou com a cumplicidade de Guedes, que fechou os olhos para a entrega da execução do orçamento federal ao centrão de Lira, que se elegeu prometendo liberar recursos aos deputados por meio não só das emendas parlamentares, um direito líquido e certo.
 
O passo em falso do que antes era visto pelo empresariado como uma bancada de deputados da direita moderada e hoje ficou descarado seu viés apenas bucaneiro veio com a invenção da tal emenda de relator – um artifício que suga dinheiros sociais para entregar aos que se submetem a esse comando sem prestar contas ao TCU e a ninguém.
 
A ida para a Casa Civil do senador Ciro Nogueira, presidente do PP (hoje Progressistas), foi para levar ao Senado as maracutaias desse orçamento secreto. Sua primeira missão é aliciar os senadores ditos independentes da CPI da Pandemia, obstáculo ao projeto autoritário.

Uma intentona de birutas

Tamanho os malfeitos da extrema-direita acobertada por setores das Forças Armadas e minguado do empresariado que é difícil imaginar a subversão bolsonarista como algo mais que uma intentona de birutas.
 
A aprovação de projetos como o da titulação de terras invadidas na Amazônia, que exporá o agronegócio eficiente ao risco de represália mundial, a tramitação apressada do pacote mal-ajambrado do Imposto de Renda só com o apoio suspeitoso de duas casas de financistas, a intenção de dar calote nos precatórios a pagar em 2022, tudo isso faz parte do mesmo roteiro alienado do interesse nacional e social.
 
Para que voto impresso? Por que cassar a fiscalização de eleições e de partidos pelo TSE? Que explica a ideia esdrúxula do distritão (em que se elegem os mais votados à revelia da proporcionalidade)?
 
Cheira mal, ainda mais por ser tramado longe do eleitor. E é uma maioria política onerosa. Se a ministra Rosa Weber, do STF, acatar representação de partidos contrários às aberrações, os dinheiros da tal “emenda de relator” terão a sua repartição escrutinizada pelo TCU, pelo TSE, pelo Ministério Público. Aí se verá o que é fraude.

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