Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. ASSINE AGORA >>

Publicidade

Estado de Minas BRASIL S/A

Ou Bolsonaro governa ou tchau

Centrão chama o presidente à razão e ameaça parar votações sem ações efetivas contra a pandemia


28/03/2021 04:00 - atualizado 28/03/2021 07:22

Aumenta a pressão sobre o presidente Jair Bolsonaro(foto: Marcos Corrêa/PR)
Aumenta a pressão sobre o presidente Jair Bolsonaro (foto: Marcos Corrêa/PR)


Na semana em que o Brasil ultrapassou a assombrosa marca de 300 mil mortos pelo novo coronavírus, com milhares de infectados graves sem UTIs para recebê-los, houve algo não visto desde 1º de janeiro de 2019: Jair Bolsonaro acuado pelos líderes políticos aos quais se aliou no Congresso para afastar o risco de impeachment e buscar a reeleição.

Poucas vezes ele ouviu, desde sua eleição, reprimenda tão explícita como a do discurso do presidente da Câmara, Arthur Lira, na noite do mesmo dia em que horas antes os titulares dos três poderes da República selaram um pacto contra a pandemia com base em vacinas, não nas charlatanices do tratamento precoce nem com sabotagens às medidas de distanciamento social de governadores e prefeitos.

“Como presidente da Câmara dos Deputados, quero deixar claro que não ficaremos alienados aqui, votando matérias teóricas como se o mundo real fosse apenas algo que existisse no noticiário”, disse Lira.

O introito de sua fala destaca a dimensão da cadeira que ele ocupa, única com a prerrogativa constitucional de dar início a um processo de impeachment.

Ex-deputado, Bolsonaro conhece as regras. Seu aviso foi claro. “Estou apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar: não vamos continuar aqui votando e seguindo um protocolo legislativo com o compromisso de não errar com o país se, fora daqui, erros primários, erros desnecessários, erros inúteis, erros que são muito menores do que os acertos cometidos continuarem a ser praticados.”

Intercalou gentileza com dureza.

Os remédios políticos do Congresso, avisou, “são conhecidos e são todos amargos. Alguns, fatais. Muitas vezes são aplicados quando a espiral de erros de avaliação se torna uma escala geométrica incontrolável. Não é essa a intenção desta Presidência. Preferimos que as atuais anomalias se curem por si, frutos da autocrítica, do instinto de sobrevivência, da sabedoria, da inteligência emocional e da capacidade política. Mas alerto que, entre todas as mazelas brasileiras, nenhuma é mais importante do que a pandemia”.

O dado para alguns desconcertante é um discurso de chamada à razão de Bolsonaro ter sido feito por um dos próceres do centrão, a massa amorfa de partidos que apoiam qualquer governo em troca de cargos, verbas e prioridade aos setores econômicos que representam.

Importa avaliar, na fala de Lira, do Progressistas (ex-PP) de Alagoas, que a situação da saúde é gravíssima. Ou ele não chegaria a tanto.

Não falou de improviso – personagens relevantes da política, do mundo empresarial e da alta burocracia foram consultados. E agora?

Povo ama quem o protege


Filiado a partidos do centrão em seus 28 anos passados na Câmara Federal, a maior parte dos quais na bancada de Lira e do seu aliado senador Ciro Nogueira, presidente do PP, não é crível dizer que Bolsonaro foi surpreendido. Não lhe faltam defeitos, menos o da inocência. Bolsonaro não é um político tolo, ao contrário.

Ao se aproximar do centrão para afastar o grupo de Rodrigo Maia da direção da Câmara, além de eleger outro aliado, Rodrigo Pacheco, do mesmo DEM de Maia, para presidir o Senado, Bolsonaro esperava pagar apenas o custo habitual da “velha política” que dizia odiar.

O que talvez não esperasse é que seus excessos na pandemia fossem incomodar até a nata da política que exerce o poder há gerações.

Só que tudo passa, o mundo gira. Como ensinava o genial florentino Maquiavel, deve-se ver a realidade tal como é, não como se deseja que seja. Quem governa deve ser temido pelos adversários e amado por quem é o responsável pela sua manutenção no poder, o povo. Ele não haverá de amar quem se mostra indiferente com a sua sorte.

Aviso aos ditos liberais


É este o contexto da fala de Lira. Ela teve recados sutis até aos que vinham aceitando a trama macabra da extrema-direita que cerca o presidente na expectativa das reformas ditas liberais da economia – a razão de o ministro Paulo Guedes manter o apoio dos traders do mercado financeiro, apesar de seus pífios resultados.

“Esta não é a casa da privatização, não é a casa das reformas, não é nem mesmo a casa das leis”, dramatizou o presidente da Câmara. “É a casa do povo brasileiro. E, quando o povo brasileiro está sob risco, nenhum outro tema ou pauta é mais prioritário.” Ou seja: ou chegam juntos ou nada mais passa até o fim desta legislatura.

O manifesto do centrão lido por Lira reúne o sentimento de que não há salvação política a ninguém enquanto vidas continuarem morrendo e sofrendo com a desídia do Ministério da Saúde; indica também a percepção de que Bolsonaro só serve à extrema-direita, que é muito pequena no eleitorado, além de divorciada do nacionalismo militar e adversária da direita conservadora representada por tais partidos; e, enfim, perderam o medo dos ataques nas redes sociais promovidos pelos radicais pilotados por assessores palacianos.

Interesses estratégicos


Interesses decisivos e estratégicos, tanto quanto o risco de que o eleitorado se volte contra eles todos, também aclaram o ímpeto algo inédito do centrão no protagonismo que passou a reivindicar.

Não é de somenos o país estar alheado das tendências geopolíticas, pondo em risco o agronegócio, dependente de exportações à China e Europa, e o pré-sal, em que China é também o maior importador de petróleo e grande investidor.

Nesse cenário, dois ministros que representam a face extremista do governo estão pressionados: Ernesto Araújo, de Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente. Bolsonaro já cedeu na Saúde, ao trocar o confuso general Pazuello pelo médico Marcelo Queiroga, um bolsonarista ma non tropo, se o comitê contra a pandemia, mediado pelo senador Pacheco, articular os governadores e não for sabotado. A situação é instável e delicada.

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade