
Não sei você, caro leitor, mas conheço várias pessoas – meu avô, mãe, tios, irmão, primos, amigos, etc. – que passaram e passam por esse momento. É irritante para quem conversa e para quem tenta escutar. Lembram-se da velha surda do “A praça é nossa”? Claro que ali é uma caricatura, mas é bem parecido.
Esse problema tem solução. Existem infinitas opções de aparelhos para ajudar na escuta. Cada modelo se adequa a um determinado tipo de perda auditiva, pelo menos foi isso que o otorrino e o fornecedor disseram quando levei minha mãe para exames e testes. Só que a solução é muito salgada, porque os aparelhos custam muito caro. Claro que parcelam de muitas vezes etc.. Mesmo assim, nem todos podem adquirir.
O maior problema é que nem todo mundo que faz esse alto investimento consegue usar o aparelho. Usam uns dias e, depois, abandonam o pequeno e caro investimento na gaveta. Quando perguntamos o motivo, a resposta é a mesma: “A gente escuta tudo, e ainda fica um som constante na cabeça da gente”.
Uma vez, fui entrevistar o doutor Humberto Guimarães e perguntei o porquê de as pessoas não gostarem de usar o aparelho auditivo e ele me disse que é preciso um período de adaptação. Que primeiro a pessoa deve usar por algumas horas dentro de casa e, aos poucos, ir aumentando esse tempo, até usar o dia todo dentro e fora de sua residência. Que isso demanda várias idas ao fornecedor para ajustes de volumes, etc. E que nas pessoas que já saem da loja usando o aparelho, realmente fica um barulho ensurdecedor. Pode parecer engraçado, mas é traumatizante para o paciente.
O fato é que mesmo quem já está com alto índice de surdez deve usar aparelho, porque o cérebro precisa de estímulo sonoro para identificar os diversos tipos de sons conduzidos pelo ouvido. Em caso de surdez mais grave, ruídos mesmo não identificados podem servir de alerta.
Por incrível que pareça, é possível reverter um caso de surdez severa profunda, embora os casos sejam raros e, normalmente, as chances de conseguir escutar de forma clara são pequenas. Mas é possível, se tiver uma condição mínima de recepção de som, oferecer ao menos a possibilidade de ouvir sons de alerta. Ainda que a capacidade de identificá-los não exista mais.
"Sempre que houver algum resquício auditivo no paciente para uma condição sonora, mesmo que seja em altos decibéis, nossa obrigação é adaptar esse paciente para uma prótese auditiva", explica Marcia Bonetti, fonoaudióloga e responsável técnica da Audiba, empresa de próteses auditivas. "Se o paciente precisar atravessar a rua, vai poder ouvir uma buzina ou algum ruído que o impeça de sofrer um acidente", informa.
Dados de 2020 do IBGE revelam que 5% da população brasileira, algo em torno de 10 milhões de pessoas, sofrem com algum problema relacionado à surdez. Desse total, 2,7 milhões não conseguem ouvir absolutamente nada.
É preciso, porém, agir de forma preventiva, estar atento aos primeiros sinais da perda de audição, que podem ser o volume excessivo da TV, a dificuldade de entender o que as pessoas estão dizendo – e a necessidade constante de pedir para que o interlocutor repita o que foi dito –, quadro de irritabilidade frequente e até certo desejo de evitar contato com amigos e parentes.
(Isabela Teixeira da Costa/Interina)
