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Estado de Minas ANNA MARINA

Coluna Memórias do carnaval relembra a presença de Xuxa no Baile do Galo

Estrela máxima da festa, não me esqueço do tanto de creme que os maquiladores passavam nas pernas da então namorada do Pelé para parecer bem bronzeada


17/02/2021 04:00 - atualizado 17/02/2021 08:25

Baile do Galo, onde a sociedade deixava os preconceitos de lado e fervia a noite toda, já teve a participação de Xuxa(foto: Arthur Rodrigues/Em/d.a press)
Baile do Galo, onde a sociedade deixava os preconceitos de lado e fervia a noite toda, já teve a participação de Xuxa (foto: Arthur Rodrigues/Em/d.a press)

 
Nesta quarta-feira de cinzas, sem cinzas, posso lavar minha alma e chegar ao fim sem me arrepender de não ter aproveitado enquanto pude o carnaval. Menina ainda, sou do tempo do corso, que era feito de carro, em torno da Avenida Afonso Pena. Ia no carro do meu tio, Henrique Tamm, e meus primos. Dávamos voltas e voltas na avenida, encarapitados nas laterais do carro, fantasiados, com lança-perfume, serpentinas e confetes na mão.

Depois de muito rodar, a parada era no Automóvel Clube, onde aproveitávamos o baile infantil no Salão Dourado, longe estávamos do luxo das fantasias da meninada que por lá estava. Ciganas e princesas, piratas e heróis de quadrinhos eram os principais, algumas fantasias eram tão elaboradas que não dava nem para brincar carnaval.
 
Crescida, levei minha animação por onde dava. Alguns anos estive no Rio, na casa de minha irmã, e as festas eram no Clube da Aeronáutica, bem-comportadas, cheias de vetos (contra nudez, pernas de fora e por aí vai). Em outros anos, quando não íamos a festas, víamos os desfiles das escolas de samba que estavam começando a aparecer na TV. Em Belo Horizonte, a animação começava nas tardes passadas na porta da confeitaria Elite, onde toda a sociedade ficava esperando a noite chegar.
 
Na Afonso Pena, a moçada se fantasiava e fazia o footing para lá e para cá, não havia mais corso motorizado. À noite, a festa era sem dúvida no Automóvel Clube. Na noite de sábado, tínhamos o baile de gala, que ocupava até o espaço onde, anos depois, foi criada a boate Príncipe de Gales. Outro baile importante era o do Marinheiro, no Iate Tênis Clube, onde a fantasia era obrigatória e, de certa forma, nivelava os foliões. Anos depois apareceu também o carnaval do PIC, onde nunca fui, nem sei bem a razão.
 
Mas, em compensação, não perdi um só Baile do Galo, onde a sociedade deixava os preconceitos de lado e fervia a noite toda. Não me esqueço de um, que teve como estrela máxima a Xuxa, que hoje brilha tanto e que, na época, namorava o Pelé. Preparou-se na casa de Terezinha Dolabela Simão e não me esqueço do tanto de creme que os maquiladores passavam em suas pernas, para parecer bem bronzeada.
 
Fui ao Rio duas vezes para ver os desfiles, e em um deles estive na pista, desfilando na ala pobre das baianas, na Mangueira, que no ano anterior tinha conquistado o primeiro lugar. Não ganhamos nada e voltar para o camarote onde estávamos, de fantasia, e saindo do ponto final do desfile foi uma batalha para conseguir o caminho sem me perder, não existia nenhuma indicação. Gostei da história e aqui participei do desfile da Canto da Alvorada.
 
Não tenho um retrato sequer do meu feito heroico, porque o fotógrafo encarregado de eternizar a cena não me fotografou. Depois disso, estive sempre que possível nos camarotes que assistiam aos desfiles da Afonso Pena, sempre com um grupo grande de amigos e alguns adeptos com lança-perfume, que vinha da Argen- tina. Quando entrei para este jornal, a Rodouro nos mandava caixas de lança-perfume, daqueles bacanas, de metal dourado. Foram proibidos, acho que no governo Dutra, não me recordo bem. E os que conseguíamos depois eram de vidro, um perigo só.
 
Em alguns desses camarotes fazíamos nosso carnaval. Em um deles levamos um bom estoque de champagne, os brindes viravam a noite. Ninguém pensava em clube, ninguém pensava em fantasia, mas era uma alegria e tanto, lavávamos a alma com o som que vinha dos blocos que passavam na rua. Perdemos tudo isso por causa da pandemia – mas a idade já havia me impedido de entrar na folia –, tradição mantida por alguns sobrinhos, que herdaram nosso DNA carnavalesco.

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