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Estado de Minas ANNA MARINA

O bolo caseiro do saudoso Memmo Biadi

Num belo texto que encontrei em meus guardados, o chef registra a beleza dos pássaros com os quais conviveu quando morava no Alto da Serra


24/10/2020 04:00

No busca e rebusca desses meses e meses dentro de casa, acabei descobrindo um texto escrito por Memmo Biadi em 3 de fevereiro de 2001, que os leitores vão gostar de ler. O título que ele deu a seu escrito é o que está na coluna.

“Do terraço do meu apartamento, vejo toda a cidade, moro no Alto da Serra/São Lucas. Em frente, há um quarteirão de uns 7 mil metros quadrados, cercado por árvores e bambus que lhe servem de moldura e também como abrigo a várias espécies de pássaros. Uma paineira com suas flores cor-de-rosa dá um toque nostálgico ao conjunto, com a cidade a seus pés. Saíras de várias cores, bem-te-vis, pássaros-pretos visitam a minha varanda, onde, em vasos, plantei ervas aromáticas, favas e maracujás que se enrodilham nas grades, pendoando seus frutos. Um pé de uva promete um parreiral.

Deixo em pontos estratégicos pedaços de bolo caseiro, mamão, banana, alpiste e arroz com casca: os pássaros se alimentam disso. Com o passar dos anos, foram ficando mais mansos, se acostumando com a minha presença. Os bem-te-vis, com seus gritos característicos, são os primeiros a chegar, pousam nas grades da varanda e vão cantando uns para os outros, comem insetos e o bolo caseiro. Pássaros-pretos preferem arroz com casca; as saíras, tico-ticos, assanhaços e outros comem as frutas e o alpiste.

E assim foram se passando os anos, a bem da verdade, 32, sendo acordado todas as manhãs pelo canto do bem-te-vi. Ultimamente, havia um mais parrudo, com seu peito amarelo e cabeça com listas brancas que lhe conferiam um olhar quase felino, que me deixava chegar bem perto dele, a uns dois metros; ele já fazia parte do meu dia a dia, sabia que estaria lá.

Sabia também que um dia perderia parte da vista da cidade, sabia do projeto antigo de umas torres de apartamentos que seriam erguidas no terreno, o que achava normal. Um terreno com uma vista dessas não poderia deixar de ser aproveitado, não sou contra o crescimento de ninguém, quem mora em cidade grande tem que se acostumar com isso.

Aí veio o lançamento dos prédios, em pouco tempo tudo vendido, ótimo. Acredito que as pessoas que visitaram o estande de vendas tenham se encantado com a paisagem do lugar, o bambuzal, as árvores contornando o terreno e, na esquina, apontando para a cidade, a paineira, linda, florida, sadia, parecendo um cartão-postal, muitos casais devem ter tirado fotos em frente à árvore, com a cidade ao fundo.

Então, numa manhã, em vez dos bem-te-vis, acordei com um zumbido estranho, como se fossem milhares de abelhas. Cheguei na janela a tempo de ver a paineira tombando, impotente, e incrédulo fiquei assistindo à sanha de várias pessoas armadas de motosserras derrubando tudo o que encontravam pela frente. Eucaliptos, bambus, flamboaiãs e dezenas de outras árvores iam caindo, uma depois da outra.

Na sanha da derrubada, nem se davam ao trabalho de recolher os galhos que caíam na rua, atrapalhando o trânsito. Talvez não tivessem tempo, eram muitas árvores para derrubar antes que algum fiscal da prefeitura se desse conta.

Tudo foi derrubado em um dia, não restou nada de pé. Minto: restou a estrutura da caixa d’água, seis peças de eucalipto fazendo o jirau de uns oito metros de altura com seis caixas Eternit por cima, uma coisa horrorosa que até então não tinha visto graças aos bambus que a escondiam.

No dia seguinte, as motosserras fatiaram todas as árvores. Foram colocando os pedaços em caminhões. Hoje, a única árvore fatiada que continua no terreno é um eucalipto de uns 70cm de diâmetro.

Como disse anteriormente, não sou contra o progresso, não sou contra as torres, tive o privilégio de ver, lá do alto, a cidade crescer – e como cresceu nesses 32 anos. Só não entendo o porquê da devastação, pois não havia nenhuma árvore no meio do terreno que pudesse atrapalhar a construção, apenas em volta.

Só sei que os pássaros sumiram, inclusive o bem-te-vi parrudo, o que me faz lembrar de uma música que Maria Bethania canta: 'Sussuarana, meu coração não me engana, vai fazer cinco sumana, tu não volta nunca mais.'

E sei também que não vou mais precisar fazer o bolo caseiro.” 


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