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Estado de Minas ENTREVISTA

Ana Márcia Sena, empreendedora da beleza

Negócio que começou como renda extra, Haskell se transformou em indústria de cosméticos naturais


postado em 18/08/2019 04:00 / atualizado em 14/08/2019 21:30

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
 
Se a mandioca é boa para comer, por que não pode ser boa para o cabelo? Foi a partir desse questionamento que a então cabeleireira Ana Márcia Sena deu uma guinada na vida. Mergulhada em dívidas, depois de fechar uma distribuidora e duas lojas de cosméticos, a mineira de Ponte Nova teve a ideia de desenvolver produtos para o cabelo com um ingrediente até então usado apenas na cozinha. Criada na roça, Ana Márcia resgatou todo o seu conhecimento em plantas e ervas para fazer da Haskell uma das grandes indústrias de cosméticos naturais do Brasil e construiu uma história que envolve inovação, persistência, coragem e muito trabalho. Localizada em Viçosa, a fábrica tem hoje 26 mil metros quadrados e emprega mais de quatro mil pessoas. Sem perder o bom humor, a mineira relembra os momentos difíceis pelos quais passou e se orgulha da empresa que fundou.
 
Por que você escolheu trabalhar como cabeleireira?
Sempre tive muito jeito para mexer com cabelo, cuidava do meu, inclusive, então foi uma escolha automática. Trabalhei dos 20 aos 45 anos como cabeleireira. Sou muito inquieta e, apesar de gostar de ter salão, sempre quis muito mais. Acabei abrindo uma distribuidora e duas lojas de cosméticos, mas, por problemas financeiros e dificuldade de gestão (não fiz curso superior, então não sabia administrar os negócios), eu quebrei. Hoje conto rindo, brincando, mas isso foi muito duro. Nunca tinha ficado devendo, isso foi muito sofrido para mim, mas essa trajetória não passa de aprendizado. Deus queria me preparar para algo maior. Costumo falar que, quando você passa dificuldade, a vida te ensina muito mais.

O que você mais aprendeu com essa experiência?
Aprendi a focar no que sei fazer. Gerir pessoas, fazer com que a equipe fique motivada o tempo todo é comigo mesma, assim como criar. Como sou cabeleireira, sei o que as pessoas precisam para o cabelo. Agora, sentar no escritório, fazer contabilidade, não é para mim. Vi lá atrás que não era o meu forte. Aprendi que, se não sei administrar, contrato alguém para fazer.

Como surgiu a ideia de fazer os cosméticos?
Era cabeleireira, conhecia muito bem de cabelo, tive loja e distribuidora, e isso me motivou a produzir os meus próprios cosméticos, nem que fosse para usar nos meus clientes. A ideia nem era ser tão grande como ficou a Haskell. No princípio, um químico me ajudava a fazer as formulações. Ele me ensinou a manipular e eu fazia. Não tinha sábado, domingo, feriado, trabalhava direto porque não podia largar o salão. Ele era o meu porto seguro, tinha que cuidar dos meus quatro filhos. Comecei a produzir muito timidamente e vender dentro do salão.

Você sempre teve vocação para empreender?
A vida toda. Empolgo-me muito, quero fazer tudo de uma vez, mas aprendi que não é assim.

Qual foi o primeiro produto que você desenvolveu?
No primeiro ano, fazia praticamente tudo o que estava sendo usado no mercado de cosméticos. Até que, em 2002, criei um produto à base da folha de mandioca e deu muito certo. A folha de mandioca era usada como suplemento alimentar, e pensei comigo mesma: se é boa para comer, deve ser boa para o cabelo também. Então, trabalhei para descobrir o que aconteceria com o cabelo. Isso não existia no Brasil e no mundo. Comecei a participar de feiras e, como era novidade, aonde eu chegava e falava que tinha um produto à base de mandioca fazia sucesso. Quando tinha seis anos de Haskell, fui participar da maior feira de cosméticos da América Latina, em São Paulo. Tinha um estande de três metros quadrados e só pensava: o que vou fazer, ninguém vai me  enxergar. Então, tive a ideia de fazer um boneco no formato de mandioca e saía andando de estande em estande. Aí a Haskell começou a ficar conhecida.

Quais são os benefícios da mandioca para o cabelo?
Hidratação, crescimento, emoliência e muito brilho. Os produtos de mandioca reinaram até 2015, quando criamos a linha cavalo forte, à base de biotina, queratina e pantenol. Naquela época, a mulherada comprava xampu de cavalo para usar no cabelo e tive a ideia de fazer isso para humanos. Já tinha construído a fábrica – assustei-me de tão grande que era, 14 mil metros quadrados (m2) – e foi só lançar a linha do cavalo forte que tive que dobrar o tamanho. Hoje ela tem em torno de 26 mil m2 e está toda programada para a produção de cosméticos. Pouca gente tem essa coragem.
Na época em que você trabalhava em salão, o que mais ouvia das mulheres?
Elas reclamavam de cabelo ressecado, duas pontas, muitas queriam alisar os fios. Mas o que mais ouvia eram pedidos de produtos práticos para que elas não precisassem ir tanto ao salão, que pudessem arrumar o cabelo em casa. Fui mais ou menos por aí para desenvolver os meus cosméticos, sabendo que no Brasil existe uma diversidade enorme de cabelos.

O que são ativos naturais?
É tudo o que vem da natureza. Você processa e extrai um ingrediente natural e isso faz muita diferença para o produto. Você não tem noção do tanto que é bom. Aqui era comum fazer chá de alecrim, pegar casca de cebola para passar no cabelo. Antigamente, não existiam cosméticos como hoje. Lembro-me da minha avó extraindo azeite da mamona, misturando com abacate e colocando no cabelo, para depois lavar com sabão de soda. Era para deixar macio, dar brilho e hidratar o cabelo. Coloquei tudo isso nos frascos, usando muita tecnologia. Juntei o meu conhecimento de erva, de mato, de roça com a vontade de vencer e deu certo. Quando criei a linha de mandioca, ainda não era moda colocar o que pode comer no cabelo. Fui uma das pioneiras. Hoje todos os meus produtos têm ativos naturais, inclusive as tinturas. Nelas coloco manteiga de avelã.

Quais são as vantagens de usar ativos naturais?
Menos agressão ao cabelo. Não tem jeito de fazer um cosmético totalmente natural, sem soda, que é um agressor, mas quando você coloca ativos naturais consegue amenizar isso.

Qual ativo natural que você ainda não usou e tem vontade de usar?
Sempre tem algum, mas não posso te contar, senão a concorrência faz primeiro.

O que você acha desse movimento de aceitar o cabelo como ele é?
Acho excelente. A mulher hoje tem uma vida muito corrida e quer praticidade. Quer assumir o cabelo que tem para se sentir realmente empoderada. A mulher fica poderosa usando cabelo sem quase química nenhuma, praticamente só lavando e hidratando com um bom produto. Trabalhamos para que essa rotina seja muito prática na vida da mulher de hoje. Que ela mesma consiga se arrumar e fique linda e maravilhosa para sair de casa.

Você gosta de dizer que, mais que tratar cabelo, quer melhorar a autoestima da mulher. Como os produtos ajudam nisso?
Eles reforçam a beleza natural da mulher. Além disso, podem dar o efeito que ela quer no cabelo, seja mais anelado ou mais liso. Não interessa o estilo que ela quer usar, temos produtos que atendem a todo tipo de cabelo. Os nossos produtos são democráticos.
 
Como você espera contribuir para a nova geração de mulheres?
Espero deixar o meu legado de facilidade e de assumir a beleza que você tem. Outra questão é a geração de emprego, não sossego. Se existissem mais pessoas com o pique que eu tenho, o Brasil seria diferente. A minha ideia é crescer cada dia mais e gerar mais emprego. Aqui temos um diferencial, a maior parte dos líderes são mulheres. Quero mostrar que podemos tudo.

Você fala muito sobre ajudar a comunidade. É por isso que se dedica a tantos projetos sociais?
Não é só gerar emprego, tem que mostrar como se faz e dar um retorno para a comunidade como bem para todos. Apoiamos o grupo Impacto de Danças Urbanas, com jovens que estavam perdidos onde moravam e passam a gostar de arte, música e dança. Aí a cabeça deles muda, eles voltam a estudar, isso abre os horizontes. Ajudamos também o projeto Pérolas Negras. Essas mulheres não tinham um lugar para se reunir e hoje estão em uma casa cultural com biblioteca, sala de aula. Onde tem arte tudo dá certo. Também gosto de ensinar. Canso de ir à universidade para ensinar como fazer cosméticos. Tem muita teoria, mas pouca prática. Gosto muito de passar o que aprendi com a vida. Já vi muitos alunos que mudaram de curso depois de ouvir uma palestra minha, e acho isso muito bom. Quando comecei, procurava pessoas na universidade para me dar apoio, mas não achei ninguém. Hoje estou cansada de dar estágio para os alunos, não só da federal, de particulares também. Isso me dá muito orgulho.

Em algum momento você pensou em sair de Minas?
Dá vontade de sair todo dia. Minas é o estado que mais cobra impostos, e isso dificulta muito para o empresário. Já pensei em ir para o Espírito Santo, mas quero seguir com o meu compromisso de empregar pessoas daqui. Aqui é a minha terra e sei que tenho responsabilidade com o meu povo, com a minha cidade, mas que dá vontade de sair, dá.

O que você planeja para os próximos anos?
Se dependesse de mim, lançava mais produtos e empregaria mais pessoas toda hora, mas, com essa situação do governo, o país não anda, está tudo moroso. Então, não tenho muita coisa concreta para falar. No futuro, talvez daqui a 15 anos, quero poder passar a empresa para os meus filhos, que eles continuem o que iniciei, e também gerar mais emprego. A minha ideia é dar condição para as pessoas trabalharem. Não gosto de dar o peixe, prefiro dar a vara e ensinar a pescar.

O que mais orgulha você nesta história?
Saber que quando você leva algo a sério, com responsabilidade, com garra, consegue. Reclamei do governo, mas, mesmo assim, hoje já estou exportando, então cresci muito. Começar do nada e chegar aonde cheguei é motivo de muito orgulho, mas você tem que ter muita garra, muita fé em Deus, senão não dá conta. Muitas pessoas com muito menos dívidas desistiram. Eu não, parti para a luta.

Aonde você quer chegar?
Quero explorar muito mais países. No início do mês, lançamos os nossos produtos na Colômbia e na Venezuela também. Que empreendedor tem essa visão de vender na Venezuela? É raro ter essa coragem. Mas lá tem muita gente com dinheiro e que não tem o que comprar. Já vendemos em alguns países da Europa, como Portugal, Espanha e Holanda, mas em todos eles o trabalho ainda está no início. Começamos há pouco mais de dois anos, mas até que se conheça o mercado, é tudo muito       diferente. Lá não faz calor, só frio, então as mulheres não lavam tanto o cabelo. 


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